quarta-feira, 10 de julho de 2013

Leyla




Das mulheres com quem fiz amor, Leyla foi a primeira a morrer. Aos 33 anos.Era libanesa, veio para Portugal na adolescência e trouxe consigo uma enorme saudade de Beirute. Adorava  praia  e  expunha-se demasiadamente ao sol. Quando lhe chamava a atenção para os perigos que corria, respondia sempre com  uma gargalhada e asseverava “ sou casca grossa, o sol não entra na minha pele”.
Um dia, a amiga que nos apresentou telefonou-me a dizer que ela tinha sido internada no IPO e tinha manifestado vontade em ver-me.Já sabia que estava doente - fora-lhe diagnosticado um melanoma-  mas acreditei sempre que sobreviveria, porque tinha uma vontade indómita de viver.
Estava por esses dias  recolhido na quinta de uns primos em Santo Tirso,  embrenhado na tradução de um estudo sobre o efeito do turismo nas alterações climáticas, matéria que nos anos 80 a pouca gente interessava, mas que já me preocupava.
Sou dos que acredita que o amor é fundamental para desfrutar em pleno do prazer sexual, mas nunca tive a certeza se o que Leyla e eu sentíamos um pelo outro era amor. Sei, sempre soube, que para ambos o prazer físico se sobrepunha ao amor. Nunca encarámos sequer  a hipótese de um dia construirmos algo em comum, porque ambos prezávamos demasiado a nossa liberdade e tínhamos profissões incompatíveis com compromissos duradouros.
 A nossa relação esfriara e não a via há uns cinco anos. A obrigação de entregar o trabalho falava por isso  mais alto e respondi que no fim de semana a iria ver a Lisboa, mas a minha amiga replicou:
- Se puderes vem antes, porque os médicos não garantem que ela chegue até lá.
Fiquei surpreendido com a evolução rápida da doença. Não queria interromper o meu trabalho- com prazo de entrega apertado- mas também não queria ficar com remorsos, por isso, nessa noite rumei a Lisboa por caminhos e vielas esforçados, porque nessa época quando chegávamos aos Carvalhos perdíamos a auto-estrada e só voltávamos a encontrá-la em Vila Franca de Xira.
Pelo caminho fui recordando aquele corpo que tantas vezes se unira ao meu em longas e voluptuosas noites de sexo,  mas o que a minha memória retivera para sempre e sabia que não se poderia ter alterado, eram os seus olhos. Grandes e negros, foram a razão primeira da minha atracção por ela.
No dia seguinte fui vê-la ao IPO. Aqueles grandes olhos negros sorriram-me derrotados. Percebi que sofria, sentia que o fim estava próximo, mas não queria deixar transparecer a sua amargura. Acenou-me para que me aproximasse e disse:
- Obrigada por teres vindo.Só queria ver uma vez mais esses teus olhos!
Engoli em seco. Contive a custo a torrente de lágrimas comprimidas nos meus olhos, que lhes serviam de represa. Recuperei um sorriso esforçado e respondi:
- Não sejas parva! Ainda vais vê-los muitas vezes.  Quando saíres daqui preparo-te um jantar no meu Rochedo e vais ver os meus olhos até te cansares deles.
Pegou-me na mão, encostou-a aos seios, cerrou os olhos e assim ficamos longos minutos. De quando em vez dizia-lhe qualquer coisa, na esperança de ver os seus olhos abrirem-se, porque também eu  queria guardar para sempre o seu olhar. Só por uma vez ela os abriu num sorriso esforçado e triste. Foi quando entoei baixinho a canção que tínhamos dançado no dia em que nos conhecemos.
A entrada da irmã e da mãe serviu de pretexto para me retirar, com um até amanhã que ambos sabíamos que não se cumpriria.
 Almocei no Guincho e fui para o meu Rochedo com intenção de trabalhar. Não consegui. Cada vez que mergulhava na tradução, vinham-me à memória  fins de semana alucinantes, passados em hotéis à beira mar, de cujos quartos só saíamos nos intervalos de fazer amor, para um mergulho no mar ou na piscina.
Esta foto foi-me oferecida pela Afrodite para ilustrar esta crónica. Obrigado, amiga!

Servi-me de um whiskey para relaxar, mas cada gole que bebia aguçava-me a memória  e despertava-me os sentidos.  Recordei vezes sem conta a primeira vez que fizemos amor. Voltei a sentir o calor dos seus lábios carnudos, a voracidade da sua língua explorando a minha boca, os seus seios a roçarem o meu corpo,  as suas unhas cravarem-se na minha pele em momentos de êxtase, o cheiro da sua pele suada, o seu sexo húmido, como se ela estivesse ali presente . Embebedei-me. Estava revoltado com a injustiça de ver  Leyla- que tanto amava a vida- partir ainda tão jovem.
Na manhã seguinte, senti os efeitos da ressaca. Dei um mergulho na piscina, peguei na bicicleta e pedalei furiosamente pela estrada do Guincho, até me sentir extenuado. Quando regressei a casa, pensei voltar a visitá-la. Duas forças antagónicas entraram em disputa dentro de mim. Pus um disco. Relaxei. Recebi um telefonema a perguntar se podia entregar o trabalho dois dias antes da data aprazada. Prometi tentar. Mergulhei no trabalho. Com a adrenalina no máximo, trabalhei sem parar, durante quatro ou cinco dias.
 Ao  final de uma  tarde, em que o sol começava a descer no horizonte para encontrar o mar num amplexo tingido de cores fortes, o trabalho estava quase pronto. Comecei a lê-lo, com música de fundo.
Ia a meio da leitura, quando o telefone tocou. Era a minha amiga a dizer que a Leyla acabara de falecer. Não fiz perguntas. Não quis saber a hora e o local do funeral. Quis ficar com a  imagem do nosso último encontro.
Desliguei e deixei que as lágrimas quebrassem o dique. Afinal, sabia-o agora, amara mesmo Leyla.  Ela provavelmente descobrira o mesmo, quando pediu para me ver antes de partir.
A morte de Leyla foi também a morte de uma parte da história da minha vida sexual, que ela levou consigo.  Fiquei apenas com os acordes da canção que tocava no gira discos, quando o telefone tocou. A canção que fora a minha primeira dança com Leyla: “ I can’take my eyes off you”

13 comentários:

  1. Gosto muito dessa música.
    A morte é uma droga e como pensava em criança deviamos morrer ao mesmo tempo que aqueles de quem gostamos e todos com muita idade (espero que haja um depois).
    um beijinho
    Gábi

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  2. Estas histórias deixam-me sempre com um nó na garganta!
    Um beijinho em silêncio

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    1. (como não tenho o teu mail, deixei-te uma sugestão AQUI)

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    2. E que bem que aqui ficou... :)

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  3. O que a memória ama/amou é eterno!

    Triste e revoltante recordação!

    "A minha crónica"!!!

    Beijinhos, Carlos.

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  4. Estória linda, Carlos ! ... com um final triste, mas de uma enorme beleza !
    .

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  5. Uma triste e emocionante história, Carlos, muito bem contada, como é seu apanágio...

    Beijinhos

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  6. "I guess I don't love anybody for long unless they're dead..."

    Ocorreu-me esta frase do John dos Passos no seu famoso "Manhattan Transfer".

    Emocionante, bom estilo literário e uma imagem que eu gostava de ter no meu quarto; enfim, UM TODO absolutamente perfeito.

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  7. Carlos não sei o que sentiria se tivesse uma história destas na minha vida, talvez a vontade de a partilhar para estar sempre a recordar-me da pessoa amada (como se estivesse viva !)... A história é muito alegre e muito triste e é como se fosse um ponto final no assunto, que apetece voltar a ler mais uma vez !!!

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    1. Muito obrigado pelas suas palavras, Ricardo. Seja bem vindo a esta casa

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  8. Uma paixão imortal.
    Recordar é viver um beijinho
    xx

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  9. Estas histórias reais "mexem" muito comigo.
    É ao mesmo muito bela e triste.

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