quinta-feira, 18 de julho de 2013

O Taxi das Memórias



O dia tinha-se escoado em burocracias, inventadas para dar vida às salas de espera das repartições públicas.
Quando, ao final daquela soalheira tarde primaveril, dei por encerrado o expediente, com a amarga certeza de que teria de voltar no dia seguinte, não me apeteceu passear pela baixa portuense, nem regressar a casa de Metro. Dei-me ao luxo de apanhar um táxi na praça D. João I.
Não pedi que me levasse directo a casa, porque queria parar na Primazia para comprar uns bolos, adoçantes circunstanciais da aspereza permanente da minha mãe.
Quem conhece o Porto sabe, pois, que o meu destino foi a  Praça de Velasquez.  Paredes meias com a rua que me viu crescer.
O motorista era bem disposto e tentou puxar conversa mas eu, esgotado e vergado ao peso dos despojos da burocracia, que nem para forrar paredes servem, ia respondendo com monossílabos e rezando para que a conversa não resvalasse para a política, inevitavelmente condutora de discussões acaloradas, ou respostas secas.
Quando o táxi chegou ao destino  puxei de uma nota de 10 euros para pagar. O taxista pegou na nota, deixou-a suspensa no ar e arremeteu com aquelas que eu pensava seriam as palavras finais. No entanto, aquele gesto precedeu uma frase que motivaria uma longa conversa
- Quando vim viver para o Porto  estudar parava muito por aqui. Tinha aqui boas amigas. A S., a L, a B…  O senhor conhece-as?- perguntou-me na esperança de uma resposta afirmativa
- Conheci-as quando era adolescente, sim.  Foram conhecimentos de fins de semana roubados a Lisboa, pouco mais… Não posso dizer que fossemos amigos.
- Eu era muito amigo delas. Bons tempos! Depois  a S. e a B casaram, o grupo desfez-se e raras vezes as voltei a encontrar. A S, como era de esperar, divorciou-se ao fim de pouco tempo, tinha a filha pouco mais de um ano e vive agora em Angola.
- E a L. que é feito dela?- perguntei antes de dar a conversa por terminada.
- Essa, coitada, meteu-se na droga. Uma desgraça! O senhor mora aqui na praça?
- Não.  Vivo em Lisboa. A minha mãe é que mora naquela rua ali…
- Ah! Vou  muitas vezes levar duas amigas que moram na Constituição à sua rua. Vão lá almoçar com uma prima delas que eu não conheço, mas sei que é uma velhota  que gosta muito delas e elas vão lá fazer-lhe companhia de vez em quando.
- Coincidência! As suas amigas  são do Porto?
- Não. São de Santo Tirso, como eu, mas vieram para cá viver há muito tempo. O irmão é que ainda vive lá. É meu amigo de infância. Às vezes, ao fim de semana, vou lá almoçar para matar saudades.
-  As suas amigas são de  Santo Tirso? Por acaso não se chamam M e T? E não têm um irmão que se chama C?
- É isso mesmo! Não me diga que as conhece!!!
- Conheço, pois, são minhas primas! Filhas de uma prima da minha mãe. Eu também costumava ir muitas vezes para casa deles em Santo Tirso, mas o que mais gostava era de ir para a quinta deles. Conhece?
- Se conheço? Como a palma das minhas mãos! Se lhe começasse a contar aqui histórias nunca mais acabava.  Éramos uns índios!
- E que índios! Nunca me esqueço de um dia em que andávamos a brincar com canas da Índia, o C. ter acertado em cheio na cara do meu irmão e rebentar-lhe um lábio. Foi na altura das vindimas e estávamos a passar lá uns dias. A minha mãe ficou tão furiosa que nesse mesmo dia voltámos para o Porto…
- Espere aí… eu lembro-me perfeitamente disso! Éramos uns ganapos com 13 ou 14 anos. O seu irmão não era um tipo que andava sempre a tocar guitarra e queria ser cantor?
- Era… mas acabou pintor, veja lá como as coisas são. Não me lembro de si. Como se chama?
- Eu era o F., filho da L. e do M, os caseiros. O seu irmão tinha um nome esquisito,  não tinha?
- O nome era normal, o diminutivo é que era esquisito: M….
- Como o mundo é pequeno, carago! O seu irmão também vive em Lisboa?
- Não. Já morreu há mais de vinte anos, ainda jovem.
- C’um caneco! A sua mãe deve ter sofrido muito…
- É verdade! Mas já estava habituada, porque antes dele já tinham morrido outros dois. Não se lembra da minha mãe?
- Não. Lembro-me de uma senhora de que todos tínhamos muito medo, porque era muito severa, mas não sei se era a sua mãe...
- Pela descrição que me faz, era de certeza!Olhe, F. vamos combinar o seguinte. Vou telefonar às minhas primas para irem almoçar lá a casa no domingo e você também vai. Combinado?

Adiei o meu regresso a Lisboa para segunda-feira e passámos a tarde de domingo  a recordar episódios da infância, para gáudio da minha mãe que se ia lambuzando com jesuítas e limonetes que o F. fora propositadamente buscar à Moura, em Santo Tirso, confeitaria que serviu de cenário a muitas histórias estivais na juventude dela.
Enquanto conversávamos, a minha mãe ia folheando álbuns de fotografias, memórias registadas em imagens que completavam a conversa.
Quem é este? Lembram-se desta? A identificação era sempre acompanhada por uma história alusiva, corroída pela memória dos tempos.
A determinada altura apontei para um miúdo de calções que posava entre mim e os meus irmãos e perguntei:
- Quem é este?
A minha mãe puxou pela cabeça, mas não se conseguiu lembrar. Uma das minhas primas aproximou-se para ver melhor  a fotografia e soltou uma gargalhada. Este é o F!
Surpreso, o F aproximou-se, mirou a fotografia por uns instantes e finalmente disse:
- Acho que nunca me tinha visto em miúdo, carago! Vocês têm a certeza que este sou mesmo eu?
 Rimos.
Já a noite ia avançada quando nos despedimos. Cada um de nós parecia estar mais preenchido e a minha mãe, orgulhosa, repetia:
- Eu sou a enciclopédia da família. Quando quiserem saber alguma coisa está tudo aqui ( e apontava  primeiro para a cabeça e depois para as dezenas de álbuns de fotografias que se acomodam na sala, guardando as memórias de 98 anos de vida).
Quando já estávamos só os dois, perguntou:
- Quem era aquele senhor que veio com as tuas primas?

7 comentários:

  1. Gostei muito deste post, acho muita graça à sua mãe desde aquela história do almoço de amigas em que a empregada era um bocadinho malcriada...
    Ainda bem que tiveram um Domingo bem animado com memórias muito antigas a sua mãe passou um optimo dia.
    Limonetes? O que são???
    xx

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  2. Já aqui tinha vindo e comentei o post anterior, fechei o pc, pois estou com os olhos "esbugalhados" da alergia!!!

    Ainda dizem que não há coincidências!!!

    Onde fica a quinta para onde vinhas? Fica em Santo Tirso ou arredores?

    Os Jesuítas e os limonetes perderam qualidade desde que faleceu a dona. Agora são as sobrinhas (A Luísa, a Isabel, e alguns dos filhos) que tomaram conta do negócio.

    Talvez as conheças. São Pelayo Moura.

    Vieste a Santo Tirso, quando?

    Que dia fabuloso...vasculharam o baú das memórias!

    Adorei a crónica.

    Beijinhos.


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  3. É certo que o mundo é pequeno, mas o mais triste é essa memória para cenas antigas estar presente, ausentando-se para as recentes... ;)

    Beijinhos!

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  4. Carlos,
    Só um comentário - cinco estrelas!!!

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  5. Como gostei deste reencontro, Carlos! Há coisas que não conseguimos explicar e momentos únicos!

    Beijinho

    Laura

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