terça-feira, 6 de agosto de 2013

Alice através do espelho




Hilariante. Comovente. Verdadeiro.
São estas as palavras que me ocorrem para definir  “A Gaiola Dourada”.
Ao bom estilo das comédias portuguesas  dos anos 40, mas sem os comediantes Vasco  Santana e António Silva, “A Gaiola Dourada”  retrata  o português  com a mesma fidelidade, mas menos exuberância estilística,  de um Ettore Scola.
O realizador Ruben Alves ( filho de emigrantes) não precisou de ademanes, nem de figuras de estilo, para nos apresentar o português. Convocou actores que facilmente confundimos com personagens da vida real.  Não é apenas o português emigrante dos anos 60 – que ele pretendeu homenagear - fugido à guerra colonial e à ditadura, que se foi deixando ficar em França (  também podia ser na Alemanha, na Suiça, nos Estados Unidos ou em qualquer parte do mundo para onde os portugueses emigraram em grande escala) que o filme nos revela.
Mais do que o emigrante, o filme retrata o português.  Todas as características que o filme realça, estão presentes  no  português do Estado Novo. Solidário  e invejoso;  mesquinho e  dedicado; submisso e coscuvilheiro; empreendedor e conformado; maldicente e pedante; vingativo e de coração mole.
 O que diferencia um emigrante de um português residente, é que o primeiro quer sempre voltar a Portugal e o segundo está sempre a querer partir. Acabam por se encontrar na fronteira entre a audácia e o conformismo. Os que partem são audazes. Um dia abrem os olhos e decidem mudar de vida. Deixam tudo para trás, menos a saudade da terra. Os que ficam têm tendência a conformar-se, entram num estado de abulia cívica que nada questiona e respondem sempre com um "mais ou menos" quando inquiridos sobre o seu estado.
Um dos aspectos que mais me impressionou no filme  foi o retrato da falsidade e fragilidade do relacionamento familiar "pintado" por Ruben Alves. É verdade que não há qualquer exagero quando vemos os laços familiares esboroarem-se em mentiras, deixando emergir o lado mais perverso do português, porque o egoísmo se intrometeu na relação  familiar. É a realidade que está ali, mostrada em cru, sem os refogados musicais da "Casa Portuguesa", hino de um povo analfabeto, inculto, de horizontes limitados, formado nas instituições do Estado Novo para ser servil e obediente, sem nunca questionar as coisas.
Quando Rosa e José  despertam e  percebem que estão  a ser usados e enganados por toda a gente à sua volta... descobrem que afinal têm direito a ser felizes.
Termino como comecei. "A Gaiola Dourada" provoca risos e emoções ao retratar os emigrantes típicos do Estado Novo mas, ao contrário do que defende o realizador, aquele português não acabou. Lá fora ou cá dentro, o português médio continua a ter o mesmo comportamento e as mesmas características. A única diferença é que a maioria dos portugueses que emigrou nestes últimos anos é mais culta, mais instruída e não vai procurar trabalho nas obras( ele) nem como porteira (ela).
Quanto ao resto, o português continua sem perceber que  está a ser enganado  e usado por gente perversa que apenas pensa nos seus próprios interesses. 

14 comentários:

  1. Como estou cá por baixo, penso conseguir ir vê-lo.

    Depois de ler o teu post ainda mais curiosa fiquei.

    Beijinhos.

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    1. Não percas, porque é um filme muito bem disposto, onde me fartei de rir e,confesso, também me emocionei...Beijinhos

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  2. Atrasei-me a ver o filme e já é o segundo post que leio hoje sobre ele. E quero muito ir ver, pelo que depois darei a minha opinião... :)

    Beijocas!

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    1. Vai gostar, Teté, mas fico á espera da sua opinião.
      Beijinhos

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  3. Ainda não o vi, porque no Sábado fui ver um que não gostei, mas estou a contar ir vê-lo ainda.

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    1. Vá ver, Ricardo, para apagar a má impressão de sábado

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  4. Já fui!
    Não me arrependi, achei leve, divertido e real.
    Além disso tem ritmo, tem uma luz linda e o Douro lindo, lindo
    Já me disseram que o Expresso arrasa com ele :(.....
    xx

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    1. Estamos em sintonia, papoila. Não li os críticos do Expresso ( nem outros),mas normalmente os críticos intelectualóides não gostam de filmes que abordam a realidade. São muito metafísicos, os críticos da nossa praça

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  5. Estamos de acordo .

    Só que a tua análise é mais rica e profunda do que a que escrevi lá no "são",parabéns.

    Bons sonhos, Carlos

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    1. estamos de acordo, sim, mas a minha análise não é mais rica do que a tua, é apensa feita noutra perspectiva, amiga
      Um resto de bom dia

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  6. Fui a semana passada ao cinema com o meu pessoal cá de casa e na compra dos bilhetes para outra sessão, reparei que "A Gaiola Dourada" estava esgotada.
    Lá dentro, ao ver a apresentação do filme, fiquei com vontade de o ver também.
    Vamos lá ver se o fim de semana é propício a mais uma ida ao cinema... :)


    Golden kisses
    (^^)

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    1. Eu não sou grande frequentador de cinema durante o Verão, mas este mês há pelo menos três filmes que não quero perder. Este era um deles.
      Beijinhos em liberdade

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  7. Duvido que o possa ver aqui em Macau.
    Só se o Consulado ou/e o IPOR estiverem atentos.

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    1. Talvez suja em breve em DVD. Nesse caso, não hesite, Pedro... compre!

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