sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Derniers baisers (5)


(Continuado daqui)
S. Pedro não atraiçoou. A neblina, porém, permanecia no horizonte. Quando saí do quarto para respirar o ar da serra, senti a falta daquela aragem fresca das manhãs nortenhas do Buçaco, Mondim ou Cerveira. Quando respirei fundo, não senti aquela sensação única de estar a inspirar a Natureza para dentro dos pulmões. Tomei o pequeno almoço ao ar livre, com a Figueira em pano de fundo.
Tive pouco tempo para desfrutar desse prazer. Tinha de ir dormir a Lisboa nesse dia, porque as férias tinham chegado ao fim. Dispensei o passeio matinal e fiz-me à estrada.
Já não conduzo com aquele desprendimento dos dias anteriores, porque hoje o final da etapa está pré determinado. Deixo a costa e enfio-me na A17. Saio  na Nazaré e espanto-me com a imensidão de turistas que ainda por lá andam. Não páro. Sigo pela serra até à Praia dos Salgados para o primeiro café do dia. Logo de seguida mais uma pequena paragem em S. Martinho do Porto, para a Baixinha admirar a paisagem a partir da serra.
Almoçamos na Foz do Arelho.Chega o robalo. Não tenho apetite. Outra vez a força nostálgica do Outono. O anúncio de fim de ciclo.
Vendo o robalo quase intacto, a empregada pergunta-me se há algum problema. Não há problema nenhum. Eu é que tenho um problema com estes dias que me provocam sentimentos contraditórios. Animo-me quando penso que o paredão do Estoril vai voltar às suas manhãs felizes. Que vou poder voltar a percorrer o caminho entre o Estoril e a Casa da Guia, sem estar constantemente a tropeçar em gente. Sem ouvir gritos de crianças em birra. Sem me arriscar a apanhar com uma bola, enquanto leio o jornal ou folheio um livro.
O meu Rochedo ganha mais encanto com a paisagem desanuviada. Animado, acabo o robalo e peço a conta.  Um curto passeio  junto à praia antes de retomar a viagem. Não vou continuar junto à costa. Daqui em diante a costa é-me sobejamente familiar e a Baixinha também já a conhece. 
 Já suspiro pelo meu Rochedo. Pelo Guincho. Vou regressar à auto-estrada e fecho a capota do carro.Acabaram-se os cabelos ao vento. Apenas a música de outras férias, noutras paragens, continua a ribombar nos meus ouvidos. Como a que escolhi para título destes posts.
Quando chegar ao Guincho, espalharei beijos pelo areal. Recordarei estios que ficaram selados com um beijo** e promessas de amor eterno.
(...)
Cheguei. Afinal o Guincho está cheio de gente. A Baixinha surpreende-me de olhar fixo no Rochedo. Parece adivinhar-me os pensamentos.
Amanhã a vida volta ao seu ritmo normal mas, logo pela manhã, tenho de levar a Baixinha  a Santa Apolónia. Tem de regressar ao Porto, porque no dia seguinte vai atravessar o Atlântico. Rumo ao sul, onde a Primavera está prestes a chegar, cruzando-se com o Outono do hemisfério Norte. São assim os ciclos da vida. Foram assim os meus quatro últimos dias de férias. Em Janeiro voltarei a encontrar-me com o Verão no hemisfério sul. 

** O título da versão inglesa era “Sealed with a kiss”

4 comentários:

  1. Boa, Carlos! Passou então aqui pelos meus domínios. O almoço foi na "Cabana do Pescador"? Peixe fresco é com eles. Espero que tenham gostado da "minha" Foz do Arelho. Bjinhos.

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  2. muito bem. bela aventura pelo nosso jardim à beira mar :)

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  3. Hummmmmmmmmm...adorei o tua crónica!

    Pelo que li...ficaste só...por pouco tempo!

    Beijinhos.

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  4. Acabou a lua de mel :)))
    Estamos aqui estamos em Janeiro!
    xx

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