terça-feira, 10 de setembro de 2013

The Bling Ring



Fosse  este filme de Sofia Coppola  pura ficção, eu não estaria aqui a escrever sobre ele.  Infelizmente é baseado numa história real, cujo guião o filme segue quase religiosamente.
O que mais me  impressionou  em Bling Ring não foi a sofreguidão pelo estrelato dos miúdos. Nem o alheamento do mundo  real, a naturalidade com que assaltam as casa  de estrelas de Hollywood para as roubar,  ou temporariamente se apropriam de automóveis topo de gama.
Também não me impressionou a futilidade da vida daqueles cinco jovens ( quatro raparigas e um rapaz totó). Nem tampouco me surpreendeu a forma como desvalorizam o dinheiro, ou a ligeireza com que exibem nas redes sociais, o produto dos roubos.
O que mais me impressionou foi ver como uma das miúdas se safa ( ou melhor… como a seita religiosa a que pertence a isenta de culpas, através de um ardiloso enredo) ou Rebecca, a líder do gangue,   tenta  safar-se e entalar o amigo. É isso que diferencia – e muito- os jovens de hoje dos do meu tempo. Na minha geração éramos  solidários, para o bem e para o mal. 
Os jovens  de Bling Ring não são únicos por terem feito algo  impensável, com a maior  naturalidade do mundo. Para eles roubar é tão natural como comer. Vivem constantemente num reality show que os alucina.
Ao contrário do que muitos dizem, não são excepção. São uma amostra muito representativa dos jovens atuais, no que respeita aos valores.  Além de não terem qualquer tipo de  solidariedade,  são fúteis,promovem o culto do Eu, idolatram as celebridades e procuram recriar-se à sua imagem e semelhança
Também me impressionou a forma como as mães desculpabilizam as crias, um fenómeno a que aqui em Portugal  assisto demasiadas vezes.
Impressionou-me, enfim, o facto de a maioria das estrelas roubadas ( e só Paris Hilton foi várias vezes assaltada), não ter sentido a falta de nada. Um retrato da sociedade superficial e do supérfluo que o casamento entre a publicidade e a televisão ajudou a construir e o comportamento imbecil de muitos pais ajudou a cimentar.
Estamos há muitos anos a construir uma sociedade nihilista, desprovida de referências e de valores , onde a única coisa que parece ter valor é o tempo imediato. Uma sociedade onde o virtual se sobrepõe à realidade.
Sofia Coppola  procura chamar a atenção para isso. Acredito que poucos se tenham importado.

3 comentários:

  1. Ainda hoje a filha de 17 anos da minha prima dava conta da sua perplexidade face à futilidade dos adolescentes da geração a seguir à dela, aí pelos 12-14 anos.

    Acho que as coisas estão piorando rapidamente e , pelo que dizes, este filme vem comprovar isso mesmo.

    Só que que me parece que , na realidade, muito pouca gente tem a noção do que está a acontecer e ainda mais gente nada se importa , porque a alienação , a falta de ética e a inversão de valores estão de vento em popa!!

    O pior, meu amigo, é que os exemplos vêm de cima!

    Continuação de excelentes férias

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  2. O grito de um bom amigo já desaparecido, Carlos (filho do dono do Café Ritz, ao lado do Avenida em Coimbra, lembra-se??) - morra quem se negue!!
    E, mesmo que ninguém ia morrer, ninguém se negava.
    Às coisas mais disparatadas.
    Tenho pena de quem já não conhece esse espírito.

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  3. Gosto muito dos filmes de Sofia Coppola, e este é mais um grande filme, que nos deixa arrepiados pelo retrato que faz do mundo desonesto, hipócrita e egoísta em que vivemos.
    Excelente, a tua crítica ao filme.

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