quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Os cornos de Joana

Não tenho pachorra para seguir a novela brotheriana do casal Carrilho/ Guimarães ( ou vice-versa). Valha-me Santa Bárbara, mas tenho mais que fazer do que andar a ler as diatribes do Zé Maria um dia investido  ministro da cultura.  
Há, no entanto, um porém...
Um homem  não é de ferro e quando  vê nos escaparates uma fotografia da ex-mulher do Carrilho a dizer mal do marido, acaba por não resistir e vai à Internet   ler as suas declarações, porque pagar 1,10€ para ler fofoquices de mulher de famoso enganada é só para ricos ou frequentadores do salão de cabeleireiro unisexo   lá do bairro, local onde eu não entro, porque sou muito antiquado e ainda frequento o salão Brasília, cabeleireiro de Homens. Adiante… 
Chegado à Internet, a decepção! O DN só disponibiliza on line  este excerto. Apesar de curto, é suficiente para perceber uma coisa.  Mulher que EM 1978 foi espancada durante um dia inteiro, nunca apresentou queixa  e só revela o facto 35 anos depois, para se solidarizar com outra ex-mulher deve ter um problemazito, não?
Ou se calhar mais… porque Joana Varela também revela que depois de ter sido espancada passou a encornar o Zé Maria sempre que lhe apeteceu, mas ainda viveu dois anos sob o mesmo tecto do agressor. E se calhar ainda lhe fazia a cama e o jantar…
A minha questão é esta. Se  Joana não falou na altura, não teria sido melhor ficar calada para sempre? Ou, pelo menos, abster-se de fazer declarações públicas sobre encornanços e  semelhantes? Oferecer-se para testemunha de Bárbara, nesta altura do campeonato, cheira-me a oferta com contrapartidas. Ou então, é mesmo dor de corno!

RM 61: Foi bonita a festa, pá!

Em 1998 só dá Portugal. O país está na moda. A cidade do Porto serve de anfitriã à Cimeira Ibero-Americana e recebe a notícia de que em 2001 será capital Europeia da Cultura. A zona ribeirinha é considerada Património Mundial e, para cúmulo, o F.C. Porto sagra-se tetracampeão. Foi S. João o ano inteiro na Invicta.
Em Lisboa, poucas semanas antes da inauguração da Vasco da Gama, um detergente decide promover a sua imagem oferecendo uma feijoada a 15 mil convivas, em cima do tabuleiro da nova ponte. O evento entra para o Guiness, nas vésperas de abertura da EXPO. Não vêm tantos visitantes como os inicialmente esperados, mas quem não veio não sabe o que perdeu. Lisboa está linda e a última exposição do século foi um espanto.
Para terminar da melhor maneira o ano, José Saramago recebe o Prémio Nobel da Literatura.
A realidade virtual chega aos brinquedos. A vedeta é o tamagotchi, mas já se anuncia a pequena órfã Kimiko, os digimonsters e as namoradas virtuais. A bem da sociedade de consumo, as "alcopops" entram nos hábitos dos consumidores mais jovens e o Ecstasy torna-se um complemento de todas as noites.
Contra o trabalho infantil, realiza-se uma grande marcha que percorre os cinco continentes e termina em Genève, à porta da OIT. Entretanto, em Bruxelas, o Tribunal Permanente dos Povos acusa empresas como a C&A, Adidas, Nike, e Walt Disney, de violarem os direitos dos trabalhadores. Horários de trabalho excessivos, remunerações inferiores ao nível de subsistência e condições laborais deficientes, aviltantes da dignidade humana, são algumas das acusações.
O ano finaliza com um fracasso ao ritmo do tango. Em Buenos Aires, na Cimeira sobre o clima, foram mais uma vez adiadas medidas de fundo para salvar o Planeta. Paulatinamente vamo-nos autodestruindo, mas Gardel não tem culpa.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Blue days



Hoje esteve um dia esplendoroso. Nem um farrapo de nuvem maculou o  céu azul e o sol brilhou com aquela luz outonal que transforma os dias nas capas psicadélicas de St Peppers .
Hoje foi um daqueles dias em que damos graças por estar vivos e cantamos Hossanas de gratidão a um deus de cuja existência duvidamos.
Hoje o céu estava azul e lembrei-me de rever “Hill Street Blues” . Vagueei pelo mundo e ancorei em Blue Lagoon. Aguardei pela noite à espera da “Blue Moon”  e vou deitar-me com “Um Anjo Azul” porque, como diz a canção da Vicky, “Bleu, bleu, l’amour est bleu”...

RM 60: O último conto de fadas?

1997:Assim se reescreve um conto de fadas. Era uma vez uma princesa que trocou o seu príncipe encantado por um plebeu... e não foram felizes para sempre! Sob um túnel de Paris encontraram a morte e o povo saiu à rua para a chorar. Diana entra na lenda pela porta errada dos contos de fadas. Dando a volta ao argumento, que desta vez não teve um final feliz.
Meses antes Hong- Kong voltara a ser da China. O "El Niño" passou o ano a fazer das suas, ateando fogos aqui e provocando inundações acolá.
No final do ano, em Santiago do Chile, reúnem-se organizações de consumidores de todo o Mundo para o último Congresso do século. Não faz sentido falar de globalização, quando as assimetrias entre os consumidores dos países ricos e pobres são gritantes. Em debate estão os grandes desafios do século XXI: os info excluídos, os alimentos transgénicos, o consumo ético, o acesso à justiça., o crédito ao consumo e o consumo sustentável.
No mundo da música elas é que mandam. São as "Spice Girls". A Internacional consumista é injusta... já ninguém se lembra das "Doce".
Na televisão, a SIC distribui os Globos de Ouro, mas quem os leva para casa é a RTP. Para que servem as audiometrias?
O sudeste asiático abala as Bolsas ocidentais, mas em Portugal ninguém se importa e as acções da EDP são disputadas quase a murro.
O café das manhãs de sábado sabe melhor, agora que apareceu o DNA, um suplemento do Diário de Notícias que é um prazer ler e saborear.
A sociedade de consumo tem um novo produto para venda: a máquina fotográfica digital. Adeus álbuns de fotografias, olá disquette! E a festa faz-se numa nova catedral. Chama-se Colombo e reclama ser o maior da Europa. Dança-se a "Valsa Lenta" em "Jardins Proibidos". O que nos está a fazer falta é"Um Paciente Inglês"...

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Estou a ficar velho...

A velhice atacou-me com força. Há uns anos,ao ler esta notícia, ria-me. Hoje apetece-me mandar o gajo ir fazer arte para o raio que o parta! 

RM 59:"Tou xim?" "É o bicho, é o bicho"


Estamos em Portugal, no ano de 1995, e a música de Vangelis ecoa pelo País. Consta que algumas coisas vão mudar lá para o final do ano. 
Lá por fora, impulsionada pelo êxito do livro de Susana Tamaro, "Vai Onde Te Leva o Coração", a Princesa Diana confessa-se à BBC. Audiências a subir... na moda é tempo de wonderbra . Há muita gente a arfar... Mas não são os amantes da informática, porque para eles o progresso chama-se Windows 95 e nem dão por isso. 
Em Nova Iorque as lojas de computadores oferecem pizzas aos compradores do novo sistema e em Londres, a Microsoft paga uma edição gratuita da Times. É a publicidade à escala global.
Um mês após ter sido votada na ONU a proibição de testes nucleares, milhares de pessoas saem à rua no Japão, Nova Zelândia e Austrália, em sinal de protesto contra o ensaio que a França prepara no atol de Muroroa.
Estamos em 1996 e agora já ninguém esconde: a doença das vacas loucas não é invenção. O Homem conseguiu alterar a Natureza. Para pior. Valha-nos a esperança de ter sido descoberta vida em Marte. Se não coubermos todos na Lua, pode ser uma boa opção.A carne de vaca britânica é embargada e mais tarde o mesmo sucederá à portuguesa. Adeus "iscas com elas". Entretanto, em Hong Kong, as galinhas acordam com gripe.
Um conto de fadas chega ao fim: Carlos e Diana divorciam-se. Em 69, o Ocidente dançava aos som de Hellen Shapiro e "Hello Dolly"; em 96 Dolly é nome de ovelha, cujo nascimento permanecerá em segredo até ao próximo ano . Trata-se de um clone concebido sem pecado, mas parte da comunidade científica não vê a clonagem com bons olhos.
O prémio Nobel da Paz fala português: Ximenes Belo e Ramos Horta são os escolhidos.
Em Portugal a "Festa do Consumo " causa estragos. Hipermercados passam a fechar ao domingo à tarde. Mas a Bolsa volta a animar-se. O Rendimento Mínimo está garantido.
"Tou -xim?"
 Do outro lado da linha Iran Costa responde: " Oi?É o Bicho! É o Bicho"
"É p'ra dizer que acaba de ganhar um prémio!"
 A saga dos telemóveis combina-se com a praga dos vendedores de cartões de férias.
O país é um hipermercado publicitário onde se vendem ilusões de prémios por carta, pelo telefone, ou pela televisão. Os Serviços de Telecomunicações de Valor Acrescentado servem para tudo e oferecem de tudo. De sexo a simples brincadeiras para crianças. As contas telefónicas arrasam as bolsas de muitos consumidores. "Querido pai, querida mãe , então que tal?" Não haverá quem ponha mão nisto? Houve. Braveheart.Um sucesso de bilheteira.

domingo, 27 de outubro de 2013

O Complicómetro



A comunicação deve ser simples mas as mulheres ( a maioria, não digo que sejam todas...) gostam imenso de a complicar. Vejam só a mestria com que transformam uma mensagem curta, num diálogo interminável. E não pensem que é ficção...
À hora do jantar ele diz à mulher:
- O Luís manda-te cumprimentos
- Estiveste com ele?
- Claro, se ele te mandou cumprimentos…
-Podias ter falado com ele ao telefone…
- Pois, é verdade. Mas não, estive mesmo com ele.
- Encontraste-o por acaso ou combinaram encontrar-se?
- Encontrei-o por acaso.
-Quando?
- À hora do almoço
- Ele ia sozinho?
-Não, ia com um fulano qualquer que não conheço.
-Como era o fulano?
- Sei lá, não reparei bem.
- Onde é que o encontraste?
-Ao pé da Gulbenkian
-Que estavas a fazer ao pé da Gulbenkian?
- A dar uma volta a seguir ao almoço
- Foste para a Gulbenkian à hora do almoço?
- Nããããããão! Só passei por lá enquanto dava uma volta a seguir ao almoço!
- Com este calor foste dar uma volta a seguir ao almoço?
- Fui… Qual é o problema? Eu só queria dizer-te que o Luís te mandou cumprimentos!
-Pronto, está bem, não é preciso zangares-te...
(Pausa)
- Olha lá, era loiro ou moreno?
-Quem?
- O amigo do Luís.

sábado, 26 de outubro de 2013

Brio profissional

Juiz: - Como conseguiu entrar numa casa gradeada e tirar todos os bens?
Ladrão: - Vim para ser julgado pelos crimes que cometi, e não para ensinar a minha profissão.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

RM 58: " Não posso mais!"


Em 1994 o computador mostra a sua força e derrota o campeão do Mundo de xadrez Kasparov. Anos mais tarde, dando sinais que não digeriu a derrota, Kasparov irá desafiar Putin. Nova derrota demonstra que os ídolos também se abatem.
Em Portugal Lisboa é capital Europeia da Cultura e vêem-se os primeiros sinais da EXPO -98: começam as demolições.
A TV Pimba assenta arraiais com "Perdoa-me", "Cenas de um Casamento" e "All you Need is Love". A RTP , em vez de estar quieta, contra-ataca no mesmo estilo.
De Foz Côa vem a surpresa: gravuras pré-históricas são descobertas e ... era uma vez uma barragem.
Os telefones eróticos atacam em força, as vendas por correspondência são uma praga, o “time share” uma alienação, a publicidade entra em nossas casa sem pedir licença, os hipermercados crescem como cogumelos, os desportos radicais assentam praça. Em cada esquina há um moedinhas, uma caixa multibanco e um cócó de cão. Pedro Abrunhosa interpreta o sentir dos portugueses cantando "Não Posso Mais" Ai podes, podes... Aguenta, aguenta- confirmará  anos mais tarde o banqueiro do neurónio único.
Depois das auto estradas de betão, entramos , em 95, na era das auto estradas da informação. Mas nestas não andamos: navegamos ou "surfamos" sem pagar portagem. A conta vem ao fim do mês, como a dos telefones eróticos. Chega o porta- moedas electrónico e a TV por cabo, vai-se às Docas de patins em linha, e quem nos traz as cartas é "O Carteiro de Pablo Neruda".
O muito chorado Monumental reabre as suas portas transformado em Centro Comercial. A sociedade de consumo celebra mais uma vitória…
Cada um tem o seu PC , os cartões de visita passam a incluir fax e e-mail. E toda a gente nos quer levar coisas a casa. Da Telepizza à comida chinesa, passando por refeições completas, incluindo serviço e guardanapos, tudo é possível obter através do telefone. O trânsito vai aumentar na hora de ponta de fim de tarde e as motoretas da Telepizza passam a ser referenciadas como perigo público.

Muito Obrigado!



A todos os leitores/as e amigos/as que aqui, no CR, ou no FB tiveram a amabilidade de me dar os parabéns.Calaram-me bem fundo as mensagens que me enviaram e gostaria de vos poder retribuir a amizade e simpatia no mesmo quinhão com que me brindaram.
Incapaz de o fazer, fico-me pelo brinde.  Espero que me continuem a aturar durante pelo menos mais um ano.
O meu sincero e reconhecido OBRIGADO!
Tchim Tchim!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sobrevivente

Lembro-me das inúmeras vezes que ouvi esta canção na companhia dos meus irmãos e alguns amigos. Hoje recordo, de uma forma cruel, aquelas vezes em que, numa pequena discoteca que tínhamos em casa, traçávamos cenários sobre a nossa aparência quando tivéssemos 64. Víamo-nos carecas, eventualmente de  bengala ou muletas, calcorreando com dificuldade as ruas da vida.
Nenhum dos meus irmãos conseguiu chegar a essa idade. Nem lá perto!  Hoje posso dizer que fui o único, mas só eu sei a mágoa que sinto ao reportar este relato de sobrevivência. Hoje, podia ser um dia feliz. Mas não é. Apesar de ter uma farta cabeleira e, por agora, ainda não precisar de bengala nem  muletas.Hoje à noite farei um brinde. Não por ter atingido os 64, mas sim aos meus irmãos que me abandonaram tão cedo e deixaram um vazio na minha vida que nunca consegui preencher.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Cuidado com os assaltos!


Foto roubada aqui


Um ladrão de quadros, romeno, ameaça processar um museu holandês por ter negligenciado a segurança dos quadros.
Durante o julgamento, a sua advogada exigiu ao museu a apresentação dos responsáveis pelo incumprimento da legislação holandesa, que obriga  a equipar com alarme, quadros valiosos.
Duas lições a tirar deste caso:
1- Há advogados/as que têm todas as condições para serem os melhores amigos dos ladrões.
2- Comece a pensar em investir num alarme lá para casa. É que se a moda pega, um dia destes assaltam-lhe a casa e o ladrão ainda lhe pede uma indemnização.
Diga-se, em abono da verdade, que a prática em Portugal já existe. Um grupo de criminosos que formaram uma associação a que chamam Governo, dedica-se  diariamente à extorsão dos portugueses. Embora alguns cidadãos queiram  submeter a actuação dos criminosos ao veredicto popular, o advogado do grupo, com escritório em Belém,  defende esta prática reiterada, com o argumento de  que a culpa é dos tugas por não terem blindado a democracia. 
" Deviam ter encomendado Portas blindadas, mas foram aos saldos e regressaram a casa com Portas já muito roídas por coelhos e outros animais.  Estão cheias de buracos que permitem aos bandidos arrombá-las  facilmente. Isto foi resultado da  negligência dos tugas  mas, como ninguém se acusa,  o meu dever é fazer a defesa dos bandidos e garantir que os seus direitos sejam respeitados"- disse o advogado dos criminosos aos jornalistas

RM 57: Com "Control", portugueses aventuram-se no espaço


A princípio destinava-se apenas a ser usada pelos militares. Depois, passou a ser utilizada por todos os sectores do Departamento de Defesa dos EUA. Hoje anda nas bocas do mundo. É a Internet (Net para os amigos) que irá acabar de revolucionar os já tão alterados hábitos de milhões de pessoas em todo o Mundo. Com os computadores também se criam efeitos especiais. Começou a era da realidade virtual.
Mas neste ano da graça de 1993, em que se quebram todas as barreiras de comunicação, as grandes vedetas são os dinossauros de Spielberg, que invadem as salas de cinema com o seu Parque Jurássico
O desemprego e a recessão ameaçam os países ricos, mas o piro ainda estaria para vir. A SIDA continua a fazer milhares de vítimas e a Igreja a dizer não ao "Control", agora à venda com vários sabores.
Em Portugal há um novo canal de televisão. É da Igreja e chama-se TVI. Em breve irá mudar de mãos. De mão em mão anda também o primeiro CD ROM feito em Portugal. Apesar de o conteúdo não ser dos mais aliciantes, (a I Série do Diário da República desde 1970), a curiosidade é grande. Dentro de pouco tempo será uma banalidade. O que não é banal é que no espaço de poucas horas morram duas crianças num mesmo Aquaparque, os novos centros de diversão da época estival. Mas acontece no Restelo e as dúvidas sobre as condições de segurança daqueles estabelecimento aumentam.
Portugal está no pelotão da frente e em Outubro, enquanto os estudantes mostram o rabo ao Ministro da Educação, é lançado o primeiro satélite português. Começou a aventura no espaço!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Nero e os tubarões



O Nero é um peixe simpático e afável que tem uma boa relação com o Homem. Bem treinado, pode vir comer à nossa mão e deixar-se acariciar como um qualquer animal doméstico.
Acontece que a sua espécie está ameaçada, tendo sido necessário criar vários exemplares em cativeiro.
Por estes dias, vários casais de Neros foram lançados ao mar, com a missão de crescerem e se multiplicarem, para perpetuarem a espécie. Os biólogos admitem que alguns – quiçá muitos- possam ser alvo fácil dos predadores, incluindo pescadores desportivos. 
A fim de minimizar as perdas, incorporaram um chip em cada Nero -  para facilitar a sua localização - e um número de telemóvel para  que,quem os pescar ou fotografar, possa dar notícias do seu paradeiro.
Estava eu a pensar nas vantagens de os peixes terem um número de  telemóvel incorporado, quando uma joaninha pousou na minha mão e me bichanou esta estória.
Dissera-lhe a amiga gaivota que esta manhã um casal de Neros serviu de aperitivo a um tubarão.
Por razões ainda não apuradas,  o tubarão sentiu-se indisposto depois de ingerir o casalinho e devolveu-os ao mar. No entanto, irritado e com razões para reclamar, o tubarão assim que viu o nº de telemóvel no dorso do Nero não esteve com meias medidas. Foi a uma cabine marítima e telefonou para a ASAE a reclamar contra quem lhe serviu os aperitivos estragados.

RM 56: Inauguradas as escapadinhas, a temperatura aquece numa sala oval


No ano em que o escudo entra no Sistema Monetário Europeu (1992), Portugal estreia-se na Presidência da CEE e, em Lisboa, o polémico Centro Cultural de Belém é inaugurado para acolher a Presidência portuguesa. Fecha logo de seguida e reabrirá no ano seguinte. Ele há coisas assim...
Com os Jogos Olímpicos e a Expo -92 a realizarem-se em Espanha, os portugueses passam o ano a saltar a fronteira, inaugurando as "escapadelas de três dias". Quem também se escapa, mas por período mais longo, para os EUA, é o corrector da Bolsa Pedro Caldeira. O jogo da Bolsa dera para o torto e várias figuras públicas ficam sem umas massas valentes. Quem não anda muito bem de finanças são os estudantes. Novos actores da sociedade de consumo, os jovens não têm dinheiro para as propinas. Vai daí, manifestam-se em frente à AR. Derrubam o Ministro mas azar... os pais vão mesmo pagar propinas.
Finalmente a RTP deixa de ter o monopólio televisivo. A esperança numa televisão melhor nasce com a SIC, mas o sonho dura pouco tempo. A qualidade passa a ser nivelada por baixo. No entanto, a aposta no Poder do Dinheiro revela-se acertada. Por meia dúzia de contos, qualquer um se despe em palco, mas desta vez os púdicos espectadores e os atentos Bispos não reagem contra a ofensa aos costumes perpretada por filmes como "O Império dos Sentidos" ou “Pato com Laranja”. A sociedade de consumo ri-se baixinho... enquanto as iras se voltam contra Saramago e o seu "Evangelho Segundo Jesus Cristo"
O Mundo parece estar arrependido por ter tentado destruir a diferença. Por isso atribui o Prémio Nobel da Paz a Rigoberta, uma índia guatemalteca, ignorando dois ex-inspectores da PIDE a quem o Governo concede pensões por "serviços excepcionais". Injustiças!
A Europa passa a ter a sua Disneylândia. Esteve a um passo de ficar em Portugal, mas Paris ganha a corrida. Conviver com o Rato Mickey e o Pato Donald é agora mais fácil.
O ambiente está,durante três semanas, no centro das atenções: no Rio de Janeiro discute-se o futuro da Terra, ameaçada pelos efeitos nefastos do progresso. No final da Cimeira da Terra, as cenas do costume. Trocam-se muitos abraços e beijinhos, chega-se de madrugada, e à pressa, a compromissos mal amanhados que abrilhantarão os discursos finais, mas a discussão fundamental é adiada. Em Tóquio é que vai ser. Os EUA, como sempre, estão-se nas tintas e o Presidente Bush ( pai) nem põe os pés no Rio de Janeiro para discutir seja o que for. Limita-se a enviar recados pela imprensa. Bem feito. No final do ano será substituído na Casa Branca por Bill Clinton. Na sala oval vai-se sentir o efeito de estufa: o ambiente vai aquecer, graças aos calores de Monica Lewinski.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

RM 55: Uma Tempestade no Deserto varre a URSS. Vamos todos ao Tallon?


Em apenas dois meses, como o mundo está diferente!...No primeiro ano da década assinala-se o nascimento do bébé 5 mil milhões. No último, irá nascer o bébé 6 mil milhões. Meu Deus, como as pessoas se estão a multiplicar! Haverá lugar para todos? Parece que sim. Em 2013 já passámos os 7 mil milhões e, para que haja lugar para todos, vão-se fomentando umas guerras, incentiva-se a fome e deixam-se morrer no Mediterrâneo milhares de imigrantes ilegais.
Em Portugal vai toda a gente ao "Baile do Rivoli" , mas "Não há estrelas no Céu". Quem o afirma é Rui Veloso. Por pouco também deixa de haver peixe. Um desastre ecológico destrói 100 toneladas no rio Tejo e uma maré negra atinge Porto Santo. Para nos dar estas e outras notícias nasce um novo diário: “ O Público”.
A televisão - ou melhor a CNN- inicia o ano (1991) em grande estilo, a transmitir em directo a Guerra do Golfo. Afinal o "Carniceiro" não se assustou com as ameaças e os EUA iniciaram a "Tempestade no Deserto". O mundo assiste embasbacado,pela televisão. como se se tratasse de um filme de ficção. As pessoas ainda não sabem que vêm aí os “reality shows”.A guerra dura 45 dias e no fim quem desaparece não é o país das "Mil e Uma Noites", mas sim a URSS que cai como um baralho de cartas no jogo do "Burro em Pé". Em poucos dias várias Repúblicas soviéticas declaram a independência e a URSS volta a ser Rússia. Uma maçada para a UEFA!
No Congresso Mundial dos Consumidores que se realiza este ano em Hong-Kong, os problemas dos países de Leste estão no centro de todas as atenções. Enquanto a pessoas se deliciam com a possibilidade de comprar nas ruas contrafacções chinesas que reproduzem os originais do ocidente, por que estes povos há muito suspiravam, há relatos de fábricas a fechar todos os dias, desemprego e miséria a alastrarem. É o reverso da medalha do "sonho americano".
Talvez por não gostarem do que se passa à sua volta, oito cientistas decidem fechar-se durante dois anos dentro de uma estufa. Dizem que vão estudar os ecossistemas. Quando isto na Terra der para o torto, talvez possam instalar-se noutro planeta ou numa nave espacial.
É assinado o Tratado de Maastricht. A moeda única já tem hora marcada para o seu nascimento. Por agora chama-se ECU, mas anos mais tarde Guterres vai sugerir que se chame Euro.
Continua "O Silêncio dos Inocentes". Em exibição "num cinema perto de si".
Em Portugal andam a contar-nos as cabeças. Afinal quantos somos? A Internacional Consumista agradece ser informada. Já temos auto-estrada Lisboa-Porto mas, enquanto o betão engorda os bolsos de construtores e das concessionárias, a moda é emagrecer e a pergunta sacramental:"Já foste ao Tallon?"

domingo, 20 de outubro de 2013

Branco é, galinha o põe?

Manhã de domingo. Levanto-me suficientemente tarde, para fundir num brunch o breakfast e o lunch ( há coisas que não se podem mesmo dizer em português, pois não?)
Desço ao Continente dos pequeninos que abriu há umas semanas à porta de minha casa para comprar pão fresco e outras miudezas.
Enquanto espero uns minutos, até que o pão saia do forno, sou atraído pelo alvoroço de duas crianças, que brincam com um carrinho de compras ainda meio cheio. A mãe aproxima-se. Antes de depositar no carrinho o que traz na mão avisa:
- Vá lá, meninos! Agora tenham cuidado porque vou por os ovos...
Troco um sorriso cúmplice com a empregada da padaria. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

De Santa Apolónia a Saint Lazare


Este post é especialmente dedicado aos francófonos.
No âmbito das comemorações do 15º aniversário da assinatura do tratado de amizade Paris-Lisboa,  o Institut Français du Portugal  apresenta, até final de Novembro, a exposição “ De Santa Apolónia  a Saint Lazare”.
Obras de artistas jovens ou  consagrados  reflectem  diversas facetas dos cruzamentos culturais e artísticos entre as duas capitais. De Santa Apolónia a Saint Lazare, ou do Chiado a Montmartre  são muitos os traços que  as unem.
Além desta exposição, os amantes de Paris  têm mais razões para sorrir por estes dias.  Seja com a exposição de cartazes no cinema S. Jorge,  seja com a visita ao museu Arpad  Szenes/ Vieira da Silva, onde até fevereiro vai ser possível ver obras da colecção privada de ambos os artistas, seja ainda com a Festa do Cinema Francês ou com esta exposição na Duque d’Avila, que encerra no próximo domingo.
Por estes dias, Paris está em Lisboa. É aproveitar!

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

RM 54: Da morte em directo à Globalização

A década começa com a libertação de Nelson Mandela. Terminava o apartheid. Bom augúrio. Mas como o mundo não sabe viver sem problemas...vai buscar um à terra das "Mil e Uma Noites". Chama-se Saddam Hussein, nome difícil de pronunciar. Quando invade o Koweit, arranjam-lhe um nome de guerra: "Carniceiro de Bagdad". Sempre dá mais jeito...
Com a queda do Muro de Berlim, a Internacional Consumista tem largo terreno para se expandir. De Mc Donalds em riste, aterra em Moscovo e depõe Lenine. Gorbatchov recebe o Nobel da Paz. Começava uma nova era, iniciada em 1989. A Internacional Consumista assentava arraiais e começava a inebriar o mundo com as suas promessas de “viver o Paraíso na Terra”.


Em Junho de 1989 o mundo assistira, em directo, aos acontecimentos de TIAN AN MEN. O regime não caiu, o ocidente lamentou-se, ameaçou exercer represálias, mas pouco tempo depois lá estava a exportar os seus produtos, porque o mercado chinês não se pode desprezar.
Seis meses mais tarde caiu o muro de Berlim, Ceausescu foi assassinado perante as câmaras de televisão. O ocidente anima-se mas permanece expectante, seguindo os acontecimentos.
Agosto de 1991. O ocidente exultou. As beatas entraram em transe.Algum clero organizou vigílias. Depois dos sobressaltos, as angústias terminavam e as dúvidas dissipavam-se: a Rússia convertera-se!
Que importância têm os aspectos contraditórios do desmembramento do Império Soviético, se afinal o grande bastião do comunismo, o génio do mal que punha barreiras às exportações dos produtos ocidentais, está subjugado e não tardará a estender a mão em busca de auxílio? O delírio foi tão grande, que até permitiu esquecer que o fundamentalismo islâmico estava prestes a triunfar numa Argélia que fica a dez braçadas da Europa e que se vivia ainda o rescaldo da guerra do Golfo.
O verdadeiramente importante para Internacional Consumista - que se preparava para assaltar o poder ao colo da democracia – é que do Atlântico aos Urales, todos os europeus possam ver, especados diante da pantalha, noticiários lidos pelo Rambo, ou seguir atentamente as peripécias de seriados protagonizados por Gorbatchev ou Imelda Marcos, enquanto bebem coca- cola e trincam amendoins.
O importante, verdadeiramente importante, é que os nossos irmãos do Leste Europeu possam, em breve, tal como nós, desfilar sob a bandeira da Internacional Consumista e desaguar, felizes, nos hipermercados do supérfluo e do desperdício, cujas portas lhes serão franqueadas por magnânimos empresários ocidentais.
O verdadeiramrente sublime é que de S.Francisco a Moscovo, passando por Lisboa, Praga ou Budapeste todos, sem excepção, possam confraternizar nos espaços standardizados dos “Pizza Hut”, “Mc Donalds” e quejandos, verdadeiros laços de comunicação entre os povos.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

RM 53: Sexo Mentiras e Video ao ritmo da Lambada



Gorbatchev é recebido triunfalmente em Pequim, mas meses depois a CNN mostra as primeiras cenas do massacre de Tiananmen. O PC chinês não tolera que ameacem a sua autoridade e impõe a sua força de forma bárbara.
 O ocidente reage com indignação, mas poucas semanas depois corre para Pequim a beijar a mão a Deng Xiao Ping e a oferecer os seus produtos. A Internacional Consumista, não pode desprezar o mercado chinês...
Um novo nome torna-se familiar na cena mundial: Bush (pai) é presidente dos EUA, iniciando uma dinastia de gente sem escrúpulos. Quando no século XXI o filho tomar as rédeas do mundo, o pai até vai parecer bom rapaz, quando o filho  manchar o nome dos EUA durante décadas, carregando a culpa de ter incendiado o planeta à custa de uma mentira.
Um estudo americano revela que a camada de ozono se encontra ameaçada nos pólos Norte e Sul, mas a cruzada consumista continua imparável, por isso é sem espanto que se assiste a mais um desastre ecológico de grandes proporções. Desta vez, o protagonista é o petroleiro Exon Valdez, que derrama 42 mil toneladas de petróleo no Alasca.
Entretanto, começa a falar-se que em Inglaterra e na Holanda as vacas estão a ficar loucas. O povo ri perante a hipótese “fantasmagórica” e em Portugal um ministro da Agricultura assume-se como D.Pedro dos tempos modernos. Irado com os que avançaram com a hipótese, mas incapaz de lhes comer as entranhas, rói os miolos das vacas diante das câmaras de televisão.
A costa alentejana também é atingida por uma maré negra, enquanto o mundo dança nas discotecas ao ritmo da Lambada.
O telemóvel chega a Portugal e os portugueses lêem a "Crónica do Rei Pasmado". O novo aparelho é muito caro, apenas ao alcance de bolsas mais abonadas. Mas não tardará que se transforme numa praga e um restaurante lisboeta afixe à porta: "Proibida a entrada a cães e a telemóveis".
O filme de Steven Soderbergh “Sexo Mentiras e Video” é uma alegoria à vida no final da década, sendo premiado em Cannes com a Palma de Ouro. É que nesse mesmo ano, quatro irlandeses que tinham sido condenados em 1975 a prisão perpétua por alegado envolvimento em ataques terroristas do IRA são declarados inocentes. O Governo britânico lava as mãos pagando uma indemnização de 50 milhões de libras, pelos 14 anos de prisão indevida. O juiz, lorde Lane, continuou a dormir descansado o sono da impunidade pelos erros judiciários. Na sociedade de consumo só há condenação para os fracos.
A década seguinte irá demonstrá-lo à saciedade.

Mais vale ser pianista num bordel!


Uma amiga convenceu-me a acompanhá-la a um almoço onde eu não conhecia ninguém. Aí chegado, começaram as apresentações.
A determinada altura, num pequeno círculo onde esforçadamente me entrosava, a minha amiga fez referência ao facto de eu ser jornalista. Afivelei um sorriso amarelo e  disse:
- M. não diga aos seus amigos que sou jornalista. Nos tempos que correm, prefiro que eles pensem que sou pianista num bordel.
Algumas pessoas sorriram.
Eu agradeci a Seguela por me ter inspirado naquela hora de aperto.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

RM 52: O ano que mudou o mundo



1989 foi um ano de grandes mudanças no mundo.Acabaria por ser determinante no desenvolvimento das décadas seguintes e pela profunda crise que hoje se vive na Europa, mas não só...
Os ventos de Leste sopraram forte e, logo em Janeiro, morre o imperador japonês Hirohito. Será porém, em Junho, que do Oriente surgem sinais preocupantes. Muitos tiveram oportunidade de assistir, em directo, ao esmagamento de um tímido movimento democrático chinês. O ocidente conheceu uma nova Praça: chama-se Tian an Men, fica em Pequim, para ali convergiu a atenção do mundo inteiro e serve de porta de entrada para a Cidade Proibida. As imagens de um tanque a avançar em direcção a um jovem, perduram ainda hoje na memória de muitos.( Anos mais tarde, quando o mundo estiver incendiado pelas consequências de uma globalização pensada apenas para enriquecer alguns, estas cenas tornar-se-ão triviais)
Já se andava a prever há alguns anos, mas só acontece nos finais de 1989: o Muro de Berlim cai e atrás dele caem os regimes comunistas.A informação volta-se toda para leste e a televisão assenta arraiais do lado de lá da "Cortina de Ferro". Inconsciente, pérfida e gulosa apresenta ao mundo o primeiro "reality show" ao transmitir em directo a morte do ditador romeno Ceausescu. O mundo mostra-se chocado, mas no fundo não esconde a sua tendência "voyeurista", por isso, não resiste a rever a cena em diferido. A televisão inicia uma nova era.
Para contrabalançar, na Checoslováquia a poesia chega ao Poder. Vaclav Havel é eleito presidente, pondo ponto final na “Revolução de Veludo”. 
A queda do Muro ocorreu em Novembro mas, em Maio, abrira-se a primeira brecha, com a Hungria a abrir as suas fronteiras com a Áustria, proporcionando assim a fuga de milhares de húngaros para a Europa Ocidental.
Os americanos não gostam de estar quietos, por isso invadem o Panamá, no intuito de depôr Noriega e festejar, à sua maneira, o fim do comunismo. Não impedem, porém, que na América Latina, as ditaduras sejam derrubadas uma a uma.
As convulsões chegam também à América Latina. Os ditadores sul-americanos começam a ser derrubados. No Paraguai , Stroessner é destituído por um golpe de estado e foge para o Brasil, onde a eleição do presidente Collor de Melo abria sinais de esperança. O bárbaro Pinochet, que durante 16 anos inundou de sangue o Chile, é finalmente arredado do poder pelo democrata-cristão Patrício Aylwin. Não se pode ainda falar de democracia no Chile, mas a ditadura de Pinochet terminara e o povo chileno respirava de alívio. Também na Argentina, Carlos Menem- presidente que apesar de tudo não deixaria saudades na pátria azul-celeste- coloca fim às sucessivas tentativas golpistas da direita.
.(No século XXI os sul-americanos poderão respirar de alívio. Vêem-se livres dos papagaios dos americanos, mas Bush ( filho) manterá um fiel aliado como guardião dos interesses americanos na região. Chama-se Uribe e dirige os destinos da Colômbia. Uma espécie de “Fiel Jardineiro” de Bush, que trata de preservar o “quintal da América”)
Em Inglaterra, “ Os 4 de Guilford” tornam-se protagonistas do maior escândalo judicial na terra de Sua Majestade. Condenados a prisão perpétua, em 1975, quatro irlandeses são finalmente libertados, depois de conseguirem provar a sua inocência. O caso foi rocambolesco, com a justiça inglesa a recusar, durante 12 anos, aceitar o seu erro, apesar de os verdadeiros autores dos atentados terem confessado a autoria. Dava-se início a uma série de casos de erros judiciais que colocam em causa a isenção da justiça nos regimes democráticos.
A eleição de Bush pai, nos EUA, representa o início de uma época de rejeição das questões ambientais. Deixará de ser possível sonhar com o desenvolvimento sustentável.
Os jovens do mundo ocidental (ainda fará sentido a expressão?) vivem empolgados o desenrolar dos acontecimentos de 89. (Alguém, reparou que lido ao contrário é 68?) Mas os ídolos e os ícones são diferentes. Cohn Bendit é preterido em favor de Karl Popper, em vez de flores na cabeça usam cartões de crédito nos bolsos, e trocam a leitura de Salut Les Copains pelo Financial Times. Ao interesse pela evolução dos tops musicais, sucede-se uma crescente atenção às cotações da bolsa. É que os jovens do final dos anos oitenta já não são hippies. São yuppies e em vez dos jeans coçados envergam gravatas de padrões psicadélicos, fatos de marca e circulam em carros topo de gama, de telemóvel em riste.
Khomeiny apela à condenação à morte Salmon Rushdie, autor de "Versículos Satânicos", mas quem morre é o ayatollah.
Mais um desastre ecológico de grandes proporções é protagonizado pelo petroleiro Exon Valdez, ao derramar 42 mil toneladas de petróleo no Alasca. Em Espanha regista-se, em Outubro, um grave acidente na central nuclear de Tarragona. Quem já não assiste ao incidente é Salvador Dali que meses antes ( em Janeiro) morrera em Figueres, a escassas centenas de quilómetros da central nuclear. Entretanto começa a falar-se que em Inglaterra e na Holanda as vacas estão a ficar loucas. Para muitos trata-se de mera ficção, mas em breve vão perceber que estavam enganados.
A costa alentejana é atingida por uma maré negra, enquanto o País dança nas discotecas ao ritmo da Lambada. O telemóvel chega a Portugal e os portugueses lêem a "Crónica do Rei Pasmado". O novo aparelho é muito caro, apenas ao alcance de bolsas mais abonadas, mas não tardará que se transforme numa praga e um restaurante lisboeta afixe à porta: "Proibida a entrada a cães e a telemóveis".
A Revisão Constitucional permite as nacionalizações totais de várias empresas e com três letras apenas se passa a escrever a palavra imposto (IRS).

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

RM 51: Vaya con Dios a Atracção Fatal pelo Trivial Pursuit




Ben Johnson poderia ter-se tornado num ídolo da sociedade de consumo, cujas virtudes a publicidade e o marketing explorariam até à medula para promover os seus produtos, não fora o caso de nos Jogos Olímpicos de Seul (1988) ter feito batota para bater o recorde mundial dos 100 metros. Esteróides anabolizantes deram-lhe forças suplementares que falsearam o resultado. O seu sonho durou uma semana. De ídolo, passou a excluído e ninguém mais se lembrou dele. A partir daí o controlo anti-doping aperta as suas malhas. Já não vai ser tão fácil enganar o povo.
A URRS dá por terminada a guerra no Afeganistão, iniciada em 1979, que era condenada pelo mundo inteiro. Mas a guerra tem duas caras e, menos de duas décadas depois, os americanos vão exercitar a pontaria contra os talliban no mesmo palco abandonado pelos russos. Agora, porém( diz-se à boca cheia), a guerra é boa , porque é preciso exterminar o terrorismo e apanhar Bin Laden. Os afegãos, que não têm culpa nenhuma e até são um povo simpático, não são ouvidos nem achados nesta questão.
Benazir Bhutto é eleita pelos paquistaneses para chefiar o governo, tornando-se na primeira mulher a comandar os destinos de um país islâmico. Um ano depois será acusada de corrupção, abuso de poder e incompetência, sendo forçada a entregar o poder aos militares. Voltará em 1993, para renunciar novamente em 1996. Finalmente, em 2007, decide candidatar-se mais uma vez mas é assassinada em plena campanha eleitoral. O filho assegurará a continuidade dos Bhutto na liderança dos destinos do Paquistão. Sempre é um homem, por isso os militares – nomeadamente Perez Musharaff, o amigo dos americanos na região- vão tolerá-lo. Resta saber até quando...
A liberdade sexual cobra o seu preço: a SIDA alastra como uma praga e atinge já cinco milhões o número de portadores do vírus HIV.
A utilização da cana do açúcar nos biocombustíveis ainda não é conhecida e ser ecologista no Brasil ainda é perigoso: Chico Mendes é assassinado.
No norte da Alemanha aparecem inúmeras focas mortas. As causas constituem um aviso sério: a poluição marítima está a matar a fauna marinha. Pesarosos, os senhores que comandam o mundo e transformaram a economia no deus todo poderoso culpam uma alga marinha do infausto acontecimento. Cientistas de todo o mundo negam a veracidade desta explicação, mas os predadores do planeta fazem como a avestruz e prosseguem a sua saga. E para que a sociedade de consumo quebre mais uma barreira, a Comunidade Europeia aprova a criação da moeda única. A princípio irá chamar-se ECU, mas anos mais tarde António Guterres baptiza-la-á de Euro. Entrará em circulação no século XXI, fazendo desaparecer o escudo e outras moedas nacionais.
Quem disse que no século XX já não se constroem monumentos? A Pirâmide do Louvre demonstra que é falso.
"De pequenino se traça o destino", por isso é estabelecida a proibição de fumar nas escolas. Em compensação, já podemos ir à praia com a indumentária com que viemos ao Mundo: o nudismo passa a ser autorizado em Portugal e a praia do Meco torna-se a Meca dos amantes da modalidade.
Morre um pedaço de Lisboa com o incêndio do Chiado. As promessas de reconstrução rápida têm o resultado do costume. Os lisboetas ver-se-ão privados da sua sala de visitas e as grandes superfícies aproveitam. Acelera o regabofe das catedrais de consumo.
A "Atracção Fatal" dos portugueses não é só o filme. Um jogo chamado "Trivial Pursuit" muda os seus hábitos. Durante alguns meses é a febre de todas as noites. Mas como acontece com (quase) tudo, na sociedade de consumo, o entusiasmo passa e as discotecas voltam a ser os locais de culto, abrindo as suas portas ao som dos "Vaya Con Dios".

domingo, 13 de outubro de 2013

Mourir d'aimer (Parte II)


Há uns anos fui revisitar a Croácia. Uma romagem de saudade  a uma parte da  ex- Jugoslávia  de Tito, onde  fui feliz nos anos 80.
Naquele mês de Junho  o calor era inusitadamente intenso e um dia, incapaz de suportar a  canícula, parei a seguir ao almoço no frondoso Parque Nacional de Plitvice ( ou Plovodice)  declarado pela UNESCO, em 1979,  Património da Humanidade.
Para além dos seus bosques imensos, dos belos lagos e deslumbrantes cascatas, o Parque tem uma fauna variada, onde se incluem alguns ursos. Alojei-me no hotel , com a intenção de fazer uma caminhada ao final da tarde, aproveitando a brisa fresca. 
Quando me preparava para iniciar a caminhada, os meus intentos foram frustrados. De súbito o céu azul cobriu-se de negro e uma chuva torrencial, acompanhada de fortíssima trovoada, desabou sobre o Parque. Não tive outro remédio senão ficar confinado ao bar do hotel. Apesar de não ser apreciador da típica rakija, abalancei-me a pedir uma variedade caseira, confeccionada com cerejas e nozes, cujo principal condão é permitir observar, com mais nitidez, as formas das belas croatas. 
A tempestade durou pouco mais de uma hora e, quando a noite caiu, o céu estava de novo  límpido. Não havia  luar, mas o céu estrelado estava esplendoroso.  Decidi, por isso, que a seguir ao jantar faria uma incursão pelo Parque. 
Terminado o digestivo saí, afoito, na companhia de duas amigas que viajavam comigo e um casal brasileiro que conhecemos no hotel. Embrenhámo-nos um pouco no bosque, sentindo na pele a humidade viscosa da noite. Ainda não teríamos percorrido cem metros, vimos um espectáculo inolvidável.
 Milhares de pontos luminosos bailavam à nossa frente, uma dança estranha. Fixei-me na cena e constatei que, a uma cadência impressionante, os pontos luminosos  convergiam para o centro, estancavam durante escassos segundos e desapareciam. E logo vinham outros substituí-los, que igualmente se apagavam, subitamente, como se fossem engolidos por um qualquer buraco que a escuridão não  permitia descortinar. Apurei mais os sentidos e percebi que, no momento em que estancavam, os pontos luminosos emitiam um  breve som  metálico, antes de se apagarem.
Estivemos mais de meia hora a observar o espectáculo. Intrigados e estupefactos.  Incapazes de perceber o que se estava a desenrolar diante dos nossos  olhos. 
Avançámos mais alguns metros. À medida que avançávamos ia diminuindo o número de pontos luminosos, até que deixámos de os ver.  Continuávamos intrigados e decidimos encetar o caminho de regresso. Voltámos a passar pelo local onde se aglomeravam os pontos luminosos ( agora em menor número)  e regressámos ao hotel.
Contei à recepcionista  o espectáculo que acabara de ver. Respondeu-me, em inglês (presumivelmente técnico pois não consegui perceber nada). A rapariga chamou então um colega que me explicou o que acabara de ver.
Tratava-se de  insectos dos lagos  (cujo nome traduzi por pirilampo, mas não sei se será o nome correcto) que estavam a copular. Chamou-me a atenção para um pormenor que me passara despercebido : à medida que se aproximam do local onde estancam, os insectos tornam-se mais luminosos. Estão a atrair as fêmeas( estas não são luminescentes, daí que não seja possível  observá-las) A cópula dura  entre dois a três segundos e, assim que termina, o macho morre, sendo substituído no acasalamento por outro. Daí a luz a apagar-se…
Cada fêmea acasala sete a dez vezes, durante uma noite. Com uma particularidade… Só o faz duas ou três noites  por ano! Eu e as minhas  amigas tínhamos sido duplamente felizardos. Não só porque ficamos em Plitvice na noite certa, mas também porque escolhemos a hora exacta  para sair, pois o “espectáculo”  não dura mais de duas horas.
Perguntei  ao recepcionista por que razão não avisavam os turistas deste  singular acontecimento. A resposta foi desconcertante, mas lógica.
- Porque não sabemos quais são as noites em que isto acontece. Trabalho aqui há 9 anos e só vi isso duas vezes.  E uma delas, porque foi uma turista aterrorizada que veio chamar-me  à recepção a perguntar o que se estava a passar.

Nota final: Esqueci-me de perguntar se o som emitido pelos insectos era de prazer, ou  o estertor da morte Esta era a história que tinha para contar quando, há dias,  publiquei aqui a canção “Mourir d’aimer”, sem qualquer texto. Está emendado o erro. Espero

sábado, 12 de outubro de 2013

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Elles se prennent (en vélo)


Lembro-me das críticas a António Costa pelos gastos com as ciclovias. Dizia-se que  era um desperdício, ninguém as  ia usar, porque Lisboa não era uma cidade para bicicletas.
 Aos poucos, as ciclovias passaram a ser  cada vez mais frequentadas por pessoas que trocaram outro meio de transporte pela bicicleta. A princípio eram quase só homens. Por estes dias, pelo menos na Duque d’Ávila, são já muitas as mulheres que se deslocam de bicicleta. A maioria vai para o emprego, algumas andam apenas a passear, ou vão às compras.
Gosto particularmente das que optaram pela bicicleta para ir trabalhar. Algumas vão elegantemente vestidas e o pedalar realça-lhes as formas e a sensualidade.  Gosto de ver mulheres em cima de bicicletas. Quem disse que uma mulher a andar de bicicleta não é sexy? 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Menina rica, menina pobre


As meninas pobres podem ser felizes desde que sustentem um marmanjo  que lhes bata todos os dias e lhes dê uns miminhos nos intervalos, enquanto arrota a cerveja  esparramado diante do televisor, durante a transmissão dos jogos de futebol.
Se não aceitarem as regras e quiserem apanhar o elevador social do Portas lixam-se, ficam sozinhas e serão infelizes para sempre.
As meninas ricas podem ser felizes enquanto ignorarem ( ou fingirem que ignoram) que o marmanjo lhes põe os palitos com tudo quanto mexe. No dia em que o confrontarem  correm o risco ser abandonadas e então, das duas uma: ou se calam para sempre e continuam a usufruir da conta bancária, ou tornam-se irascíveis e denunciam as vigarices do marmanjo à polícia. Nesse caso  vão viver com as meninas pobres, mas sempre à espera de encontrarem um gajo rico que lhes devolva o estatuto de futilidade das Cinderellas.
Só que às vezes as coisas correm mal e as meninas ricas que não se portam bem são castigadas.
Tá bem, eu sei que isto é uma interpretação muito simplista de “Blue Jasmine”, mas não me apetece enveredar pelo caminho intelectualóide teenager dos anos 60, porque para esse filme já dei.
Não fosse  Cate Blanchet ( apesar de tudo continuo a preferir a Scarlett ou a Penélope) , Blue Jasmine era uma merda. Assim é apenas uma xaropada.
Não costumo escrever sobre filmes de que não gostei, mas desta vez abri uma excepção, só para fazer um aviso ao Woody Allen. Estás velho, pá! Vai brincar com o complexo de Édipo das meninas do Tea Party!

RM 50: A Grande Nuvem de Magalhães traz a boa nova


Em 1987, na URSS , para além de "perestroika" já se fala em "glasnost". Um jovem alemão zomba da segurança soviética e, de surpresa, aterra em plena Praça Vermelha numa pequena avioneta. Sente-se que o Muro de Berlim está a ceder.
Os astrónomos observam, maravilhados, a supernova “Grande Nuvem de Magalhães”, mas não descortinam que, por trás dela, se esconde um dragão que vai alardear a sua classe pelo mundo.
A fibra óptica vai revolucionar o mundo da informação e a cultura de massas vai abrir mercados que se pensavam inatingíveis.
Melhor fora que o preço dos sintetizadores e sequenciadores não tivesse baixado e tudo tivesse ficado como dantes. Esta redução deu azo ao aparecimento da música "techno" ou "acid" que torna a vida insuportável nas discotecas. Os ídolos musicais da juventude deixam de se parecer com os primos e primas das nossa amigas e assumem um aspecto andróide, de filmes de ficção. Já não dá gozo ir a uma discoteca, ou acima dos 30 anos começa a terceira idade? Os yuppies que respondam.
Portugal vive em plena euforia bolsista. Os portugueses aprendem a conviver com OPV's e OPA's. Cavaco Silva avisa para os riscos do jogo da Bolsa, com a metáfora do "gato por lebre". Mas os portugueses estão delirantes com os lucros e uma grande parte deles faz ouvidos de mercador. Arrepender-se-ão dias mais tarde quando virem Wall Street em pânico, com a descida de 508 pontos de índice Dow Jones e de 719 pontos do seu homólogo nipónico Nikei, e as suas acções cairem aos trambolhões. A quinta-feira negra de 1929 não se repete, mas fica um sério aviso.
As rádios "piratas" florescem em Portugal o que acicata alguns a criarem televisões clandestinas. Mas a TV movimenta milhões, é um negócio em alta com um poderio crescente, e não há contemplações por parte das autoridades. Que a TV privada vem a caminho, ninguém duvida, mas não chegará a tempo de mostrar Cicciolina a exibir os seios em plena AR. A medicina continua a dar cartas com a primeira transplantação de medula. Para a doença de José Afonso, que morre nesse ano, é que ainda não há cura.
Os hipermercados são a nova sala de visitas domingueira dos portugueses que não querem perder, ao fim de semana, o hábito dos engarrafamentos de trânsito. A festa do consumo já chegou e os portugueses divertem-se.
A norte a euforia é mais diversificada. O FC do Porto sagra-se campeão europeu em Maio e campeão do mundo em Dezembro e a cidade sai à rua para festejar. Acaba de nascer um Dragão que veste de azul e branco..

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Sex ( in the) box



O Channel 4 estreou na segunda feira um programa que está a fazer correr muita tinta. Trata-se de um talk show onde casais heterossexuais e homossexuais  fazem sexo dentro de uma caixa e, no final, discutem  a experiência com o público e um painel de "especialistas".
Sex Box. pode não ser um talk show muito dignificante mas despertará, certamente, muito mais interesse do que aquele que hoje se estreia na RTP, onde um único participante irá explicar ao país a sensação de  fornicar 9 milhões e meio de portugueses ( os restantes 500 mil fazem parte da comitiva e esperam uma oportunidade) durante quatro anos consecutivos. 

RM49: Soares é fixe e o resto que se lixe?

Rui Reininho canta “ Quero ver Portugal na CEE”. Seja feita a sua vontade...
No primeiro dia do ano de 1986, Portugal entra formalmente para a CEE e o primeiro bébé proveta a nascer no nosso País já é um cidadão comunitário. Ambos os acontecimentos podem ser registados com as novas máquinas fotográficas descartáveis.
No Hospital de Santa Cruz faz-se o primeiro transplante cardíaco. A medicina portuguesa vive um ano de glória. Acaba o papel selado e começa o "Cartão Jovem" . A sociedade de consumo proclama eufórica :"Venham a mim as criancinhas".
"Era Uma Vez na América" enche as salas de cinema, enquanto a campanha de Freitas do Amaral sob o lema "P'ra Frente Portugal" é feita ao bom estilo americano. Mário Soares "é fixe" e ganha as eleições, mas quem vai p'rá frente é a sociedade de consumo. A D. Branca está presa, mas a Bolsa faz a sua vez e os portugueses entram em euforia bolsista.
O filme “África Minha” é o rei de Hollywood, ao conquistar sete estatuetas e o nigeriano Wole Soyinka é o primeiro africano galardoado com o Prémio Nobel da literatura. A África do Sul, no entanto, persiste na sua teimosia e o governo vê-se obrigado a decretar o estado de sítio, na sequência de graves tumultos raciais.
O vai-vem Challenger explode com sete tripulantes a bordo. Pausa no programa de voos tripulados.
Aquilo que se dizia ser impossível acontece: em Chernobyl (URSS) explode um reactor da central nuclear e é libertada para a atmosfera uma gigantesca nuvem de radiações, que atinge vários países europeus. Na Alemanha um incêndio numa fábrica de produtos químicos polui gravemente o Reno.
Os cientistas lançam alertas de perigo, mas os políticos assobiam para o ar. Se o povo quer circo, os políticos estão dispostos a fazer-lhe a vontade, em troca de uns votos nas urnas. Não admira, pois, que muitos tenham encarnado a figura do palhaço rico, para conferir mais realismo ao circo da sociedade de consumo. 
A partir de agora é possível uma visão do que será o século XXI, com a inaguração, perto de Paris, de La Villette- a Cidade da Ciência. Se as previsões não falharem, é capaz de ser agradável viver essa época tecnológica.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

RM 48: Perestroikas e Big Brothers



O ano de 1984 terminou sem que se confirmassem as previsões de Georges Orwell em “1984”.
A televisão, inconformada, haverá de criar com grande sucesso, anos mais tarde, o “Big Brother” em fórmula de reality show, mas a sociedade orwelliana só começará a conhecer o seu esplendor no século XXI. Regressemos, pois, aos anos 80.
O primeiro sinal de que a Internacional Consumista pode estar a chegar não vem do cometa Halley, que m1985 visita de novo a Terra, anunciando a comercialização do telemóvel. Vem da URSS,com a chegada de Gorbatchov ao Poder. Anos depois, seduzido pela sociedade de consumo,Gorby vai emprestar o seu nome a uma pizza, o que explica à saciedade que o problema dos cidadãos de Leste não era o regime comunista, mas sim a falta de acesso aos bens de consumo que já faziam as delícias dos ocidentais. Tivesse o regime comunista sabido lidar com essa realidade e hoje o mundo seria muito diferente, mas o obscurantismo dos dirigentes do Kremlin tornava-os limitados e incapazes de ver para além do seu umbigo.
A Perestroika é palavra de ordem, e a solidariedade do mundo contra a fome desperta, com um sinal de esperança, no mega concerto Live Aid que põe o mundo a cantar "We are the World". Os hooligans não estão de acordo e estragam a final da Taça dos clubes Campeões Europeus de futebol, lançando o pânico e a destruição em Bruxelas : 38 mortos e 454 feridos é o balanço da tragédia. Na Grã Bretanha, nem só a primeira ministra é de ferro...
Os países latino-americanos vão regressando às democracias. Depois de, no ano anterior, os uruguaios terem escolhido livremente o seu chefe de estado, este ano é a vez do Brasil. O escolhido pelos brasileiros é Tancredo Neves. Terminava enfim uma ditadura de 21 anos.
A Europa segue as pisadas dos Estados Unidos e decreta sanções contra a África do Sul, que continua a sua prática de apartheid.
Entretanto, o governo francês, agastado com a oposição do Greenpeace à realização de testes nucleares no atol de Muroroa, afunda o navio Rainbow Warrior , propriedade daquela ONG. Afinal o terrorismo de Estado também existe!
Em Portugal os portugueses fazem filas. Para levantar dinheiro no multibanco e para preencher os boletins do totoloto, na esperança de verem descer a inflação. As agências de viagens andam numa azáfama a organizar excursões de todo o País para Lisboa. Motivo: nas Amoreiras acaba de ser inaugurado o farol da sociedade de consumo à portuguesa - o Centro Comercial das Amoreiras.
Chega ao fim a coligação PS/PSD e um quase ilustre desconhecido ruma à Figueira da Foz para fazer a rodagem ao seu Citroen. Sai de lá líder do PSD e tornar-se-á Primeiro Ministro.
Mário Soares é escolhido pelo PS para candidato à Presidência da República em Janeiro de 1986.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Nomofobia

Estão sempre a descobrir doenças novas. Espero que não sofram de Nomofobia mas, se sentirem alguns sintomas, o melhor é tomarem precauções de imediato. É que um dia destes arriscam-se a ser tão perseguidos como os fumadores...

RM 47: Estranhas formas de vida

Em 1984 três milhões de pessoas morrem em África, vitimadas por secas, cheias e guerras. O Ocidente lamenta enquanto vê as imagens na televisão, mas Bruce Springsteen canta "Glory Days" e o mundo tranquiliza-se. Para o final do ano as coisa vão piorar.
Da Índia não vêm boas notícias. Primeiro é o assassinato de Indira Gandhi e depois o desastre ecológico de Bhopal . Mais de duas mil pessoas morrem, e outras 200 mil ficam cegas, ou com deficiências renais e hepáticas irreparáveis. São vítimadas por uma fuga de gás venenoso de uma fábrica americana de produtos químicos: a Carbide. A empresa tranquiliza as vítimas, prometendo indemnizações idênticas às que paga a cidadãos americanos. Não é preciso descobrir os verdadeiros culpados. O dinheiro já paga vidas e irresponsabilidades. As indemnizações ( miseráveis) virão muitos anos mais tarde, mas há quem proteste por não ter recebido nada.
Enquanto Hollywood atribui cinco Óscares ao filme “A Força do Amor”, surge uma nova forma de criar vida. Na Austrália nasce o primeiro bébé a partir do desenvolvimento de um embrião congelado, e na vizinha Espanha ( Barcelona) um “bébé proveta” vê pela primeira vez a luz do dia. A fecundação “in vitro” tornava-se uma realidade.
Entre os mais crescidinhos nascem os “yuppies”. Trabalham horas sem fim, elegem o dinheiro como o seu novo deus e frequentam todos as mesmas festas, para se poderem rever, dias mais tarde, nas revistas da imprensa cor de rosa, que começavam a fazer furor.
Os Jogos Olímpicos reflectem a nova era. Em 1984, em Los Angeles, passam a ser patrocinados por grandes empresas e os direitos de transmissão televisiva são pagos a peso de ouro. Caía o último estandarte da maior manifestação desportiva amadora. O Comité Olímpico Internacional deixa de ter liberdade para programar livremente os horários das provas. A decisão final cabe à ABC, a cadeia de televisão que pagou 225 milhões de dólares para ter o exclusivo da transmissão.
Em Portugal a sociedade de consumo dá os primeiros passos firmes. Com a inflação quase nos 30 por cento, e a criação do IVA, o concurso "1,2,3" oferece prémios nunca sonhados e põe os consumidores a correr atrás do Cola Cao.
D. Branca é presa, deixando muita gente a tinir e os saudosistas enchem as salas de cinema para ver "Os amigos de Alex".
Morre um símbolo da poesia portuguesa: José Carlos Ary dos Santos

domingo, 6 de outubro de 2013

Velhinha, mas sempre bela



No ano em que comemora o 250º aniversário, continua tão bela como dantes. E na companhia da Lua até parece mais jovem! ( apesar de o fotógrafo ser um bocadinho nabo e o telemóvel não ajudar..)

sábado, 5 de outubro de 2013

Lisboa de portas abertas


Hoje e amanhã, dezenas de edifícios em Lisboa abrem as suas portas, para que os possamos conhecer por dentro.
Visitas guiadas e passeios de bairro organizados pelo Lisboa Open House foram preparadas em vários edifícios de diferentes características e épocas. O objectivo da iniciativa  é mostrar ao público "o que de melhor se construiu e planeou em Lisboa, mostrando como a arquitectura tem um papel decisivo na qualidade da cidade e do nosso dia-a-dia". r
Entre os 60 espaços lisboetas que podem ser visitados  gratuitamente, durante o fim de semana estão o Hotel Ritz, a Casa dos Bicos, o Supremo Tribunal de Justiça, os Paços do Concelho, o Palácio de Pombal, o antigo Hotel Vitória, o novo Museu dos Coches, o novo Corredor Verde, ou a sede e os estúdios da RTP.
Todas as visitas são gratuitas, mas em alguns casos é necessária marcação prévia. Podem consultar a lista completa de locais a visitar, bem como os horários respectivos, aqui
Tenham um bom fim de semana

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

RM 46: a sociedade de consumo ganha músculo


Com seis letrinhas apenas se escreve a palavra Swatch. A relojoaria suíça acaba de fazer do relógio um acessório de moda e a sociedade de consumo de construir mais um ícone. A Apple apresenta, nos EUA, a sua última descoberta: chama-se Lisa, é o primeiro computador pessoal equipado com rato.
Enquanto o terrorismo islâmico se fortalece, Hollywood apela à resistência passiva, atribuindo oito Óscares ao filme “Ghandi” Estamos em 1983 e Lech Walesa recebe o Nobel da Paz. Mais uma martelada na queda do Muro de Berlim.
A Europa anda entretida com uma nova moda que dá pelo nome de aeróbica, mas não é para testar os seus efeitos práticos que sai à rua em protesto contra as armas nucleares. Portugal ainda não está na CEE e em Lisboa as manifestações têm expressão muito reduzida. Por cá as pessoas começam a discutir o aborto, mas não têm tempo, nem estímulo, para praticar aeróbica, porque andam preocupadas com os salários em atraso, as greves dos transportes, a inflação e as sucessivas quedas de Governos. Em 1983 irão experimentar pela primeira vez o Bloco Central e apreciar as proezas do primeiro herói pimba. Chama-se Tony Silva, tem humor e muito kitsch. 
Lá por fora nasce um novo ídolo de saias. Chama-se Madonna e canta "Holliday". Os EUA nem querem ouvir falar de governos de esquerda nas redondezas. Afinal, a democracia tem limites. Num ápice,sob o nome de Código “Operação Fúria Urgente” invadem Grenada, derrubam o regime e voltam a casa, para ler "As Cruzadas Vistas pelos Árabes" de Amin Malouf e mandar uma mulher para o espaço.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Pausa para publicidade

Venho apenas dizer-vos, neste final de noite, que está a decorrer no CR o mês da francofonia. É o meu (con)tributo à Festa do Cinema Francês que decorre em Lisboa de 10 a 20 de Outubro e percorrerá várias cidades do país.
Todas as noites escolherei um filme, um actor, uma actriz ou um realizador. A escolha de hoje recaiu sobre uma actriz que me parece todos gosta(va)m, mas já deve ter sido esquecida por muitos.
Quem quiser confirmar, é só ir aqui...

RM 45: Do E.T.a Tomás Taveira




Em 1982, um extra-terrestre deixa o mundo com uma lágrima ao canto do olho: ET é o último sucesso de Spielberg. A sociedade de consumo vai explorar o pequeno alienígena até à exaustão e não há lar que não tenha uma réplica. O cinema não vive, porém, refugiado na ficção.Claude Chabrol e Martin Scorcese, emprestam aos seus filmes uma forte crítica à época.
Os consumidores preferem perseguir o sonho, refugiando-se na ficção do prazer consumista, transportando para as salas de cinema a sua preferência para o género. Começou a fuga em frente. “ Não queremos a realidade, queremos o sonho!”- proclamam. Será feita a sua vontade!
A revista "Time" dá nas vistas ao eleger como "Homem do Ano" o PC (computador pessoal). A comunidade yuppie rejubila e os restantes seres do Planeta, numa tentativa de interpretar a escolha, mergulham na leitura de "As Brumas de Avalon".
No meio de uma greve geral, o país vai com Fausto "Por Este Rio Acima", enquanto em Fátima um Padre Krohn tenta assassinar o Papa, e a RTP exibe a primeira telenovela portuguesa: Vila Faia.
Umas ilhas perdidas no meio do Atlântico são a causa de uma guerra entre a Argentina e a Inglaterra. Quando a guerra começou, a imprensa chamava-lhes “Ilhas Malvinas”, mas com a vitória da Inglaterra, passam a ser conhecidas por “Falkland”. Do mal o menos... a Argentina perde umas ilhas, mas vê-se livre de uma ditadura militar que deixou o país manchado por uma torrente de sangue.
Gabriel Garcia Marquez é galardoado com o Prémio Nobel da literatura e, em Veneza, o Leão de Ouro vai para Wim Wenders com o filme “ O Estado das Coisas”. Que não é nada bom, diga-se de passagem:o desenvolvimento industrial faz agonizar a floresta em toda a Europa Central.
No rectângulo, o movimento ecologista tem um nome: os Verdes. Mas a sociedade de consumo está imparável, por isso é publicada, finalmente a Lei de Defesa dos Consumidores. Tomás Taveira responde com o projecto da primeira catedral de consumo em Portugal. Irá chamar-se Amoreiras e motivará a organização de excursões de consumidores sedentos provenientes de todo o país e da vizinha Espanha. Isso, porém, só ocorrerá uns anos mais tarde.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Mourir d'aimer

No Parque de Plodvice

RM : O mundo começou a ensandecer, mas uma boazona anima as noites de sábado


Terminadas as férias, regressa o Rochedo das Memórias  e retomo a viagem pelo século XX. Se bem se lembram, tínhamos ficado no cubo de Rubik... Continuemos então a viagem. 
Os leitores que só cá chegaram no Verão ( e ainda forma alguns) e não seguiram esta rubrica, podem ler os 43 episódios anteriores seguindo aqui o link para a etiqueta Rochedo das Memórias

Retomemos então a viagem em 1981, ano em que se estreia em Londres Cats-  musical de Lloyd Weber. O seu sucesso dura muito mais tempo do que o casamento real de Carlos e Diana que, ao contrário do que rezam os contos infantis, não serão felizes para sempre. Cats permanece em cena durante mais de duas décadas, com lotações quase sempre esgotadas. O casamento das histórias de fadas foi sendo minado entre arrufos e traições e terminará, da forma trágica que todos sabemos, sob um túnel de Paris, em 1997.
Antes, porém, o autocarro espacial dá os primeiros passos com o vai-vem Columbia e na Terra anda-se de patins em linha. Em cima dos carris, acelera o TGV. Mas só em França e no Japão, porque por cá só no século XXI vai começar a discussão em torno deste meio de transporte. Alguns afirmam que, apesar de tudo, ainda é cedo...


O Prémio Nobel da medicina é entregue a um americano, pelos seus estudos sobre a função cerebral. Debalde. Há cada vez mais loucos por todo o lado: Ronald Reagan e o Papa João Paulo II são vítimas de atentados, Sadat assassinado por extremistas muçulmanos e a viúva de Mao condenada à morte. Hollywood talvez já tenha percebido que isto é “Gente Vulgar” , por isso atribui quatro Óscares ao filme de Robert Redford.
Enquanto em Portugal o "Cavaquinho" de Júlio Pereira está na moda, como que anunciando dias futuros, na vizinha Espanha, assiste-se a uma tentativa do golpe militar em 23 de Fevereiro e rebenta o escândalo do óleo de colza que mata 60 pessoas e afecta outras 50 mil.
Na Califórnia são detectados os primeiros casos de SIDA . As vítimas pertencem à comunidade gay , por isso em Portugal não se dá grande importância ao assunto. Somos todos muito machos e perdemos as noites de sábado a ver a série Dallas e a guerra da família Ewing onde se confrontam JR ( o mau), casado com a bruxa Sue Ellen e Bob ( o bom) casado com uma boazona chamada Victoria Principal.
A televisão vai mudar de canal , perdão, de estratégia. Em vez das imagens reais, passa a vender-nos, diariamente, longas horas de ficção. Um aperitivo para os reality shows que provocarão vómitos numa grande percentagem de portugueses. Luís Filipe Meneses, um médico de Gaia que se alcandorará a presidente do PSD em 2007, é sensível a esta nova vaga televisiva. Por isso propõe-se matar a televisão pública, que escapa à intoxicação telenovelística. Resistirá pouco tempo. Mas isso já faz parte do século XXI. Façamos rewind e regressemos aos anos 80. Mais exactamente, a 1981.
Enquanto o Banco Mundial avalia (por baixo) em 750 milhões, o número de pessoas no Planeta que padecem de fome e vivem abaixo do limiar de pobreza, a CEE destrói um milhão de toneladas de frutos e legumes. O estranho é que há quem consiga encontrar razões plausíveis para isso!

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Impecável! Será mesmo?

Será mesmo?

Ando a actualizar um dicionário pessoal e deparei-me com um problema:  como definir a palavra IMPECÁVEL? 
Logo à partida, parece-me uma palavra cuja existência não se justifica para além do universo da oralidade, porque escrita não faz ( para mim ) qualquer sentido. *
Alguém escreve que uma pessoa é impecável? Não!
Na expressão oral já se entende melhor a sua utilização. Quando alguém nos pergunta a opinião acerca de uma pessoa e nós não conseguimos realçar nela qualquer qualidade, respondemos: Fulano? Eh pá, esse gajo é impecável! Que quer isso dizer? Nada!
 O único conceito que consigo ligar a impecável é o vazio. Quero com isso dizer que uma pessoa impecável não tem nenhuma qualidade distintiva que mereça realce, daí que quem rotule uma pessoa de impecável, embora possa admitir que está a fazer um elogio, está na realidade a fazer exactamente o contrário. Mais ou menos como quem diz. Eh, pá eu não tenho nada a dizer contra ti, mas também nunca te descobri qualquer qualidade, por isso deves ser impecável.
Estão agora a perceber por que razão eu penso que ninguém escreve “ o fulano é impecável?” Quem vai elogiar alguém, por escrito, recorrendo a um conceito oco?
Eu admito que se diga “aquele tipo tem um comportamento impecável”. Apesar do relativismo do conceito, percebo que a pessoa está a querer dizer que “um tipo tem um comportamento impecável” é um tipo que se pauta por padrões que ele aprova, porque se coaduna com os seus. O problema é que se eu não conheço a pessoa que profere essa frase, fico sem saber o que ela quer dizer com “comportamento impecável”.
E se eu conheço a pessoa que proferiu a frase e o considero um sacana, mas desconheço a pessoa a quem ele se refere? Concluo, de imediato, que deve ser igualmente um sacana!
Depois ainda há outro problema. Não sei por que razão, conoto facilmente “impecável” com uma pessoa que não peca. Ora uma pessoa que não peca deve ser sensaborona e chata, e eu não gosto desse tipo de pessoas. Logo, para mim, uma pessoa “impecável” nunca poderá fazer parte do meu círculo de amigos. Conclusão imediata: impecável não é elogio, mas sim estigma.
E quando se trata de elogiar a forma como alguém se veste? “ Eh pá esse fato é impecável”, ou “trazes uns sapatos impecáveis”, o que se pretende dizer? Relembro: dizer. Alguém escreve esta frase num livro? “ Ela apareceu sorridente. Vinha impecavelmente vestida” (? ) Para além da Margarida Rebelo Pinto, sinceramente, não estou a ver ninguém.
Bem, mas isto sou eu ( que não me considero uma pessoa impecável) a pensar. E quando penso ( coisa que raras vezes faço) dificilmente tiro conclusões definitivas. Dai que peça o vosso contributo. Como definiriam impecável? ( Não vale ir a correr ver as definições de outros dicionários…) É elogio, acusação, insulto, estigma ou apenas o tal conceito vazio de que vos falava no início?

* O que não quer dizer que nunca  tenha escrito...