domingo, 13 de outubro de 2013

Mourir d'aimer (Parte II)


Há uns anos fui revisitar a Croácia. Uma romagem de saudade  a uma parte da  ex- Jugoslávia  de Tito, onde  fui feliz nos anos 80.
Naquele mês de Junho  o calor era inusitadamente intenso e um dia, incapaz de suportar a  canícula, parei a seguir ao almoço no frondoso Parque Nacional de Plitvice ( ou Plovodice)  declarado pela UNESCO, em 1979,  Património da Humanidade.
Para além dos seus bosques imensos, dos belos lagos e deslumbrantes cascatas, o Parque tem uma fauna variada, onde se incluem alguns ursos. Alojei-me no hotel , com a intenção de fazer uma caminhada ao final da tarde, aproveitando a brisa fresca. 
Quando me preparava para iniciar a caminhada, os meus intentos foram frustrados. De súbito o céu azul cobriu-se de negro e uma chuva torrencial, acompanhada de fortíssima trovoada, desabou sobre o Parque. Não tive outro remédio senão ficar confinado ao bar do hotel. Apesar de não ser apreciador da típica rakija, abalancei-me a pedir uma variedade caseira, confeccionada com cerejas e nozes, cujo principal condão é permitir observar, com mais nitidez, as formas das belas croatas. 
A tempestade durou pouco mais de uma hora e, quando a noite caiu, o céu estava de novo  límpido. Não havia  luar, mas o céu estrelado estava esplendoroso.  Decidi, por isso, que a seguir ao jantar faria uma incursão pelo Parque. 
Terminado o digestivo saí, afoito, na companhia de duas amigas que viajavam comigo e um casal brasileiro que conhecemos no hotel. Embrenhámo-nos um pouco no bosque, sentindo na pele a humidade viscosa da noite. Ainda não teríamos percorrido cem metros, vimos um espectáculo inolvidável.
 Milhares de pontos luminosos bailavam à nossa frente, uma dança estranha. Fixei-me na cena e constatei que, a uma cadência impressionante, os pontos luminosos  convergiam para o centro, estancavam durante escassos segundos e desapareciam. E logo vinham outros substituí-los, que igualmente se apagavam, subitamente, como se fossem engolidos por um qualquer buraco que a escuridão não  permitia descortinar. Apurei mais os sentidos e percebi que, no momento em que estancavam, os pontos luminosos emitiam um  breve som  metálico, antes de se apagarem.
Estivemos mais de meia hora a observar o espectáculo. Intrigados e estupefactos.  Incapazes de perceber o que se estava a desenrolar diante dos nossos  olhos. 
Avançámos mais alguns metros. À medida que avançávamos ia diminuindo o número de pontos luminosos, até que deixámos de os ver.  Continuávamos intrigados e decidimos encetar o caminho de regresso. Voltámos a passar pelo local onde se aglomeravam os pontos luminosos ( agora em menor número)  e regressámos ao hotel.
Contei à recepcionista  o espectáculo que acabara de ver. Respondeu-me, em inglês (presumivelmente técnico pois não consegui perceber nada). A rapariga chamou então um colega que me explicou o que acabara de ver.
Tratava-se de  insectos dos lagos  (cujo nome traduzi por pirilampo, mas não sei se será o nome correcto) que estavam a copular. Chamou-me a atenção para um pormenor que me passara despercebido : à medida que se aproximam do local onde estancam, os insectos tornam-se mais luminosos. Estão a atrair as fêmeas( estas não são luminescentes, daí que não seja possível  observá-las) A cópula dura  entre dois a três segundos e, assim que termina, o macho morre, sendo substituído no acasalamento por outro. Daí a luz a apagar-se…
Cada fêmea acasala sete a dez vezes, durante uma noite. Com uma particularidade… Só o faz duas ou três noites  por ano! Eu e as minhas  amigas tínhamos sido duplamente felizardos. Não só porque ficamos em Plitvice na noite certa, mas também porque escolhemos a hora exacta  para sair, pois o “espectáculo”  não dura mais de duas horas.
Perguntei  ao recepcionista por que razão não avisavam os turistas deste  singular acontecimento. A resposta foi desconcertante, mas lógica.
- Porque não sabemos quais são as noites em que isto acontece. Trabalho aqui há 9 anos e só vi isso duas vezes.  E uma delas, porque foi uma turista aterrorizada que veio chamar-me  à recepção a perguntar o que se estava a passar.

Nota final: Esqueci-me de perguntar se o som emitido pelos insectos era de prazer, ou  o estertor da morte Esta era a história que tinha para contar quando, há dias,  publiquei aqui a canção “Mourir d’aimer”, sem qualquer texto. Está emendado o erro. Espero

10 comentários:

  1. Amigo Carlos!
    Fica sempre a estória para contar. E isso é que conta.
    Três segundos? Coitados, não se pode ter tudo!
    Grande abraço

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  2. Tiveste a honra de assistir a um momento praticamente "inédito".

    As pirilampas atacam a matar!!!

    Beijinhos.

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  3. Já me tinhas contado a história. E, sim, não há dúvida que é um lugar de grande beleza. Pirilampos não vi por lá, mas não admira, pois foi de dia. Em contrapartida, na minha infância e na minha juventude, presenciei, na minha terra e com alguma frequência, idêntico espectáculo.

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  4. Mais uma história deliciosa, que certamente compensará a falta de texto do anterior post... :)))

    Beijocas!

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  5. Agora, já entendi...e o nome da cidade búlgara é Plovdiv ou semelhante

    E eram pirilampos, sim!

    Dorme bem, meu amigo

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  6. Uma crónita muito interessante e informativa.

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