segunda-feira, 7 de outubro de 2013

RM 47: Estranhas formas de vida

Em 1984 três milhões de pessoas morrem em África, vitimadas por secas, cheias e guerras. O Ocidente lamenta enquanto vê as imagens na televisão, mas Bruce Springsteen canta "Glory Days" e o mundo tranquiliza-se. Para o final do ano as coisa vão piorar.
Da Índia não vêm boas notícias. Primeiro é o assassinato de Indira Gandhi e depois o desastre ecológico de Bhopal . Mais de duas mil pessoas morrem, e outras 200 mil ficam cegas, ou com deficiências renais e hepáticas irreparáveis. São vítimadas por uma fuga de gás venenoso de uma fábrica americana de produtos químicos: a Carbide. A empresa tranquiliza as vítimas, prometendo indemnizações idênticas às que paga a cidadãos americanos. Não é preciso descobrir os verdadeiros culpados. O dinheiro já paga vidas e irresponsabilidades. As indemnizações ( miseráveis) virão muitos anos mais tarde, mas há quem proteste por não ter recebido nada.
Enquanto Hollywood atribui cinco Óscares ao filme “A Força do Amor”, surge uma nova forma de criar vida. Na Austrália nasce o primeiro bébé a partir do desenvolvimento de um embrião congelado, e na vizinha Espanha ( Barcelona) um “bébé proveta” vê pela primeira vez a luz do dia. A fecundação “in vitro” tornava-se uma realidade.
Entre os mais crescidinhos nascem os “yuppies”. Trabalham horas sem fim, elegem o dinheiro como o seu novo deus e frequentam todos as mesmas festas, para se poderem rever, dias mais tarde, nas revistas da imprensa cor de rosa, que começavam a fazer furor.
Os Jogos Olímpicos reflectem a nova era. Em 1984, em Los Angeles, passam a ser patrocinados por grandes empresas e os direitos de transmissão televisiva são pagos a peso de ouro. Caía o último estandarte da maior manifestação desportiva amadora. O Comité Olímpico Internacional deixa de ter liberdade para programar livremente os horários das provas. A decisão final cabe à ABC, a cadeia de televisão que pagou 225 milhões de dólares para ter o exclusivo da transmissão.
Em Portugal a sociedade de consumo dá os primeiros passos firmes. Com a inflação quase nos 30 por cento, e a criação do IVA, o concurso "1,2,3" oferece prémios nunca sonhados e põe os consumidores a correr atrás do Cola Cao.
D. Branca é presa, deixando muita gente a tinir e os saudosistas enchem as salas de cinema para ver "Os amigos de Alex".
Morre um símbolo da poesia portuguesa: José Carlos Ary dos Santos

1 comentário:

  1. Mais uma crónica histórica. O que tenho aprendido contigo!

    Vou ficar com uma compilação de luxo.

    Beijinhos.

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