terça-feira, 15 de outubro de 2013

RM 52: O ano que mudou o mundo



1989 foi um ano de grandes mudanças no mundo.Acabaria por ser determinante no desenvolvimento das décadas seguintes e pela profunda crise que hoje se vive na Europa, mas não só...
Os ventos de Leste sopraram forte e, logo em Janeiro, morre o imperador japonês Hirohito. Será porém, em Junho, que do Oriente surgem sinais preocupantes. Muitos tiveram oportunidade de assistir, em directo, ao esmagamento de um tímido movimento democrático chinês. O ocidente conheceu uma nova Praça: chama-se Tian an Men, fica em Pequim, para ali convergiu a atenção do mundo inteiro e serve de porta de entrada para a Cidade Proibida. As imagens de um tanque a avançar em direcção a um jovem, perduram ainda hoje na memória de muitos.( Anos mais tarde, quando o mundo estiver incendiado pelas consequências de uma globalização pensada apenas para enriquecer alguns, estas cenas tornar-se-ão triviais)
Já se andava a prever há alguns anos, mas só acontece nos finais de 1989: o Muro de Berlim cai e atrás dele caem os regimes comunistas.A informação volta-se toda para leste e a televisão assenta arraiais do lado de lá da "Cortina de Ferro". Inconsciente, pérfida e gulosa apresenta ao mundo o primeiro "reality show" ao transmitir em directo a morte do ditador romeno Ceausescu. O mundo mostra-se chocado, mas no fundo não esconde a sua tendência "voyeurista", por isso, não resiste a rever a cena em diferido. A televisão inicia uma nova era.
Para contrabalançar, na Checoslováquia a poesia chega ao Poder. Vaclav Havel é eleito presidente, pondo ponto final na “Revolução de Veludo”. 
A queda do Muro ocorreu em Novembro mas, em Maio, abrira-se a primeira brecha, com a Hungria a abrir as suas fronteiras com a Áustria, proporcionando assim a fuga de milhares de húngaros para a Europa Ocidental.
Os americanos não gostam de estar quietos, por isso invadem o Panamá, no intuito de depôr Noriega e festejar, à sua maneira, o fim do comunismo. Não impedem, porém, que na América Latina, as ditaduras sejam derrubadas uma a uma.
As convulsões chegam também à América Latina. Os ditadores sul-americanos começam a ser derrubados. No Paraguai , Stroessner é destituído por um golpe de estado e foge para o Brasil, onde a eleição do presidente Collor de Melo abria sinais de esperança. O bárbaro Pinochet, que durante 16 anos inundou de sangue o Chile, é finalmente arredado do poder pelo democrata-cristão Patrício Aylwin. Não se pode ainda falar de democracia no Chile, mas a ditadura de Pinochet terminara e o povo chileno respirava de alívio. Também na Argentina, Carlos Menem- presidente que apesar de tudo não deixaria saudades na pátria azul-celeste- coloca fim às sucessivas tentativas golpistas da direita.
.(No século XXI os sul-americanos poderão respirar de alívio. Vêem-se livres dos papagaios dos americanos, mas Bush ( filho) manterá um fiel aliado como guardião dos interesses americanos na região. Chama-se Uribe e dirige os destinos da Colômbia. Uma espécie de “Fiel Jardineiro” de Bush, que trata de preservar o “quintal da América”)
Em Inglaterra, “ Os 4 de Guilford” tornam-se protagonistas do maior escândalo judicial na terra de Sua Majestade. Condenados a prisão perpétua, em 1975, quatro irlandeses são finalmente libertados, depois de conseguirem provar a sua inocência. O caso foi rocambolesco, com a justiça inglesa a recusar, durante 12 anos, aceitar o seu erro, apesar de os verdadeiros autores dos atentados terem confessado a autoria. Dava-se início a uma série de casos de erros judiciais que colocam em causa a isenção da justiça nos regimes democráticos.
A eleição de Bush pai, nos EUA, representa o início de uma época de rejeição das questões ambientais. Deixará de ser possível sonhar com o desenvolvimento sustentável.
Os jovens do mundo ocidental (ainda fará sentido a expressão?) vivem empolgados o desenrolar dos acontecimentos de 89. (Alguém, reparou que lido ao contrário é 68?) Mas os ídolos e os ícones são diferentes. Cohn Bendit é preterido em favor de Karl Popper, em vez de flores na cabeça usam cartões de crédito nos bolsos, e trocam a leitura de Salut Les Copains pelo Financial Times. Ao interesse pela evolução dos tops musicais, sucede-se uma crescente atenção às cotações da bolsa. É que os jovens do final dos anos oitenta já não são hippies. São yuppies e em vez dos jeans coçados envergam gravatas de padrões psicadélicos, fatos de marca e circulam em carros topo de gama, de telemóvel em riste.
Khomeiny apela à condenação à morte Salmon Rushdie, autor de "Versículos Satânicos", mas quem morre é o ayatollah.
Mais um desastre ecológico de grandes proporções é protagonizado pelo petroleiro Exon Valdez, ao derramar 42 mil toneladas de petróleo no Alasca. Em Espanha regista-se, em Outubro, um grave acidente na central nuclear de Tarragona. Quem já não assiste ao incidente é Salvador Dali que meses antes ( em Janeiro) morrera em Figueres, a escassas centenas de quilómetros da central nuclear. Entretanto começa a falar-se que em Inglaterra e na Holanda as vacas estão a ficar loucas. Para muitos trata-se de mera ficção, mas em breve vão perceber que estavam enganados.
A costa alentejana é atingida por uma maré negra, enquanto o País dança nas discotecas ao ritmo da Lambada. O telemóvel chega a Portugal e os portugueses lêem a "Crónica do Rei Pasmado". O novo aparelho é muito caro, apenas ao alcance de bolsas mais abonadas, mas não tardará que se transforme numa praga e um restaurante lisboeta afixe à porta: "Proibida a entrada a cães e a telemóveis".
A Revisão Constitucional permite as nacionalizações totais de várias empresas e com três letras apenas se passa a escrever a palavra imposto (IRS).

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