quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A (minha) última noite de Lisboa



Sempre fui ave nocturna. Aprendi, desde cedo, que a noite é melhor conselheira.Pelo  silêncio que nos permite trabalhar com mais serenidade e convida a meditar e a encontrar-nos, mas também pelo bulício, tão diferente e tão mais diversificado, do rotineiro zumbido diurno dos transportes, dos automóveis ou de gente apressada entrando e saindo dos  empregos, onde consome os dias.
Gosto de ver circular transportes públicos quase vazios. Das ruas quase despidas de automóveis e de gente. De tentar decifrar o enigma de homens procurando prostitutas de rua. Dos bêbados  com assento fixo em bares, de onde são enxotados depois da saída do último cliente.
Tempos houve em que a noite- já  madrugada- terminava num convívio entre jornalistas nas tascas do Bairro Alto. Uma ou outra vez no Parque Mayer entre coristas de revista, whiskeys e alguma boémia.
Nunca fui  amante de discotecas. Para dizer a verdade, só lá entrava empurrado por namoradas de ocasião. Foi assim que me tornei frequentador do Stones ou do Ad Lib, únicas discotecas onde ia com algum prazer. Mais pelo convívio, do que pela dança. Sempre gostei de tertuliar à volta de um copo e, já adulto, gostava de prolongar o trabalho, até os primeiros raios  de sol dardejarem as janelas de Lisboa.  
Não tendo em Lisboa uma casa com um amplo espaço onde receber os amigos, acabei por me tornar co-proprietário de um bar perto do Marquês de Pombal,  onde desaguavam figuras do teatro, do cinema, da televisão e das letras que por ali ficavam  a  fazer horas até que os primeiros assomos do dia os conduzissem  aos braços de Morfeu.
A partida para os Estados Unidos  - e outras razões que agora não vêm ao caso – ditaram o fim da minha relação com aquele bar que, poucos anos mais tarde, acabaria por encerrar.
Alguns dias depois de regressar a Portugal, Fernando Ferreira da Costa- príncipe de uma tribo são-tomense-  desafiou-me a integrar um grupo que nessa noite ia ao bar de uma sua amiga.

O bar era na Graça, chamava-se Botequim e a sua proprietária era… Natália Correia! Eu não a conhecia, a não ser dos discos de poesia que havia em  casa dos meus pais e de a ver uma ou outra tarde na SMARTA mas, assim que entrei naquele espaço, percebi que tinha encontrado o meu poiso noturno, no  regresso a Lisboa.
O Botequim era, já por essa altura, um local de culto. Espaço exíguo onde apenas cabiam duas ou três dezenas de pessoas, mas que em algumas noites albergava uma centena ou mais. Nessas noites o ambiente de fumo quase não permitia ver o piano de onde se soltavam notas ora melodiosas ora em fúria, tricotadas por Maria João Pires ou António Vitorino de Almeida.
Por essa  altura Natália já não era a mulher de beleza esplendorosa que deixava os homens loucos e  levava muitos estudantes a ir à SMARTA só para…lhe verem as pernas!  Muitos  ainda iam lá só para lhe apreciar a beleza física, mas a maioria pretendia partilhar uns momentos de convívio com a mulher desbragada,  excessiva, controversa,  por vezes  petulante a que ninguém ficava indiferente.
O que mais me fascinou de imediato naquele espaço- para além da personalidade vincada de Natália -  foi  o facto de ali se reunirem pessoas dos mais diversos quadrantes políticos e das mais diversas áreas.  Militares de Abril, actores, músicos, editores, jornalistas, poetas, escritores, pintores e políticos para ali convergiam  atraídos por uma estranha magia que  Natália espalhava em seu redor ou, em alguns casos, em busca da sua protecção para se projectarem.
Durante  três anos fui frequentador assíduo do Botequim. Depois voltei a partir mas, sempre  que vinha a Portugal , não deixava de passar por lá.  Estava em Macau quando Natália morreu.   Hoje, não tenho dúvidas que com ela morreu a última  tertúlia de Lisboa. O Botequim foi  o último espaço em Lisboa onde se reuniam para conversar e discutir abertamente, pessoas tão diferentes como Arnaldo de Matos e Ramalho Eanes, Lurdes Pintassilgo  ou Eunice Muñoz, Henrique Neto ou Maria Lúcia Lepecki e muitas outras figuras conhecidas que seria fastidioso aqui enunciar. Em comum, apenas uma admiração enorme por Natália. Embora, nem sempre, fosse uma admiração desprendida ( mas isso, são contas de outro rosário)
Foi por isso com  muita curiosidade  que assisti na terça-feira, na biblioteca José Saramago, à apresentação do livro de Fernando Dacosta ( O Botequim da Liberdade) de que vos falo aqui. 
Lê-lo é fazer uma viagem pela Lisboa dos anos 70 e 80. Um regresso ao passado, ou a descoberta de episódios que Fernando da Costa retirou das páginas do seu Moleskine e, em boa hora nos deu a conhecer. Uma bela homenagem a Natália, mesmo quando discordemos dela.

8 comentários:

  1. Hábitos próprios dos noctívagos.

    A noite tem a sua magia...o amanhecer...também.

    Beijos

    ResponderEliminar
  2. Infelizmente também eu sou um rouxinol, o que é uma chatice, quando se está casada com uma cotovia.

    Ja agora, vou ler um poema da Natália, uma vez que não tenho a oportunidade de ler O Botequim da Liberdade.

    ResponderEliminar
  3. Acho Natália interessante e gosto razoavelmente da sua poesia , admirando-a pelo desassombro. Mas acho que era petulante e que apreciava demais ser reverenciada..Aliás, com Amália, que também gostava muito de ter uma corte. Talvez esteja a ser injusta...

    Abraço, amigo

    ResponderEliminar
  4. Sou apreciadora da poesia de Natália Correia.

    Fiquei curiosa quanto ao livro!

    Beijinhos.

    ResponderEliminar
  5. Eu sou pouco ( ou nada) noctívaga mas esse seu post passa uma imagem bem atrativa de noites de tertúlia. Conheço mal Natália Correia (shame on me...) e esse livro que sugere deve ser um bom caminho para me ambientar. :)

    ResponderEliminar
  6. Esta é, sem dúvida, uma Lisboa Desaparecida...

    ResponderEliminar