quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Alma Minha Gentil que te partiste(...)


Já vos disse que tive um professor de português  no liceu que, apesar de ser um bocado louco, tornava as aulas fantásticas.  Interpretava a  História de Portugal à sua maneira,  sempre muito diferente do que líamos nos livros oficiais. Enquadrava obras literárias no contexto histórico e punha-nos a representá-las. Era, ainda, um fanático por Camões. Lembro-me de ver as lágrimas correrem-lhe pela face quando dizia, de cor, longas estrofes de “Os Lusíadas” e declamava os  sonetos de uma forma teatral, que nos deixava abismados.
Lembro-me de um dia nos ter deixado completamente estupefactos quando, numa aula, afirmou que o poema “Alma minha gentil que te partiste” não fora dedicado  a Dinamene … nem sequer a uma mulher.
Do alto dos seus quase dois metros de altura, o professor Gamboa asseverava que Camões o escrevera para um jovem  fidalgo por quem se apaixonara.  O problema- segundo Gamboa- é que também D. João, pai de D. Sebastião, se apaixonara pelo jovem, o que levou os pais  a mandá-lo combater para o norte de África, onde viria a falecer. 
Roído pela paixão, Camões partiu  para o Extremo Oriente, onde viria a saber da morte da sua paixão. Terá sido a dor provocada pela notícia, que motivou o poeta a escrever o tão badalado poema.
Perante o nosso ar estupefacto, o professor Gamboa rematou: Não pensem que Camões era maricas! Ele apaixonou-se por várias mulheres, era um boémio, mas tinha um coração onde cabia  o amor por toda a beleza, fosse ela masculina ou feminina. Só os bissexuais podem aspirar a ser poetas, porque  a sensibilidade dos seus corações recebe o amor, sem especificação do género.
Claro que, nesse dia, todos concordámos que o Gamboa era mesmo maluco e, durante muito tempo, esse episódio não deixou de ser tema de conversa entre nós.
Durante uns dias, aproveitei as viagens de Metro para ir lendo o “Botequim da Liberdade”.  Nem imaginam a cara de espanto que fiz quando, a páginas tantas, Fernando Dacosta relata uma noite épica no Botequim, em que este assunto foi amplamente discutido, tendo provocado em Natália Correia, também ela estupefacta, a seguinte reacção:
“ Merece uma peça de teatro, um poema épico, uma sinfonia!”.
Voltei a sentir a mesma surpresa daqueles tempos dos bancos do liceu ao ler, pela pena de Dacosta, que  Carolina Michaelis ( uma referência sempre presente no professor Gamboa) foi a primeira a sugerir a versão sobre a homossexualidade em "Alma Minha", tendo sido secundada pelo dramaturgo Mário Sério, pelo historiador Oliveira Martins e por Teixeira de Pascoaes.
Eu aprendi muita coisa nas noites de tertúlia do Botequim, mas não tive oportunidade de assistir a essa acalorada discussão, caso contrário, não me teria espantado com a revelação, quase cinco décadas depois.  Nem com outras que Fernando Dacosta faz ao longo das mais de 300 páginas, numa escrita escorreita  que nos prende a atenção.

5 comentários:

  1. Estou com sérios problemas, Carlos, vamos lá ver se consigo comentar esta sua crónica 100% ao meu gosto.

    Já tinha ouvido falar da bissexualidade do nosso MAIOR POETA, porque como dizia o professor Gamboa, só os bissexuais podem aspirar a ser poetas...

    Como eu gostaria de ter conhecido o professor Gamboa, uma brisa poética e fresca no meio de um bando de machistas.

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  2. Acredito piamente na versão do professor Gamboa!

    Beijinhos.


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  3. É a primeira vez que vejo essa interpretação.
    Porque não??

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  4. Não deixa de ser interessante! sim muito interessante...
    Existem pessoas que realmente superam nossas expectativas mesmo que as vezes assustando os convencionais.
    beijos
    Joelma

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  5. Também é a primeira vez que leio sobre a bissexualidade de Camões...
    Um amante do género humano...independentemente do género!

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