segunda-feira, 31 de março de 2014

Dinheiro para os alfinetes



Volto hoje à rubrica sobre a origem de determinadas expressões.
"Ter  dinheiro para os alfinetes" significa ter o indispensável para viver e fazer umas pequenas poupanças.
A expressão remonta ao tempo  em que os alfinetes eram objecto de adorno das mulheres. A frase significava, então, o dinheiro poupado para a sua compra porque os alfinetes eram um produto caro. Os anos passaram e os alfinetes tornaram-se utensílios, já não apenas de enfeite, mas utilitários e acessíveis. Todavia, a expressão chegou a ser acolhida em textos legais.
Por exemplo, o Código Civil Português, aprovado por Carta de Lei de Julho de 1867, por D.Luís, da autoria do Visconde de Seabra, vigente em grande parte até ao Código Civil actual, incluía um artigo, o 1104, que dizia: «A mulher não pode privar o marido, porconvenção antenupcial, da administração dos bens do casal; mas pode reservar para si o direito de receber, a título de alfinetes, uma parte do rendimento dos seus bens, e dispor dela livremente, contanto que não exceda a terça dos ditos rendimentos líquidos.»
Fonte: Internet

sexta-feira, 28 de março de 2014

Mulheres que fizeram Abril



Nas últimas semanas têm-se multiplicado os livros sobre o 25 de Abril. O que escolhi para esta semana não tem sido muito badalado, mas  a originalidade da abordagem merece atenção.
Ana Sofia Fonseca foi falar com algumas mulheres de militares que fizeram o 25 de Abril  e escreveu “Capitãs de Abril, a revolução dos cravos vivida pelas mulheres dos militares”.
Além da divulgação de aspectos curiosos, o livro  revela o comportamento de algumas mulheres nos dias que precederam a Revolução: dentro de casa, organizando jantares de família, dando cobertura às reuniões clandestinas do MFA, ou dando apoio logístico à organização,  estas mulheres foram também protagonistas do 25 de Abril.
Ficámos a saber, por exemplo, que Dina Afonso, mulher de Otelo, acompanhava o marido nas viagens exploratórias a locais que teriam importância para o êxito do 25 de Abril. Enquanto tricotava e via o filho a brincar, desviava a atenção do que o marido andava a urdir.
Natércia Salgueiro Maia conta como ficou com o coração apertado, quando o marido lhe disse “É hoje” e Ana Coucello- mulher de Luís Ferreira de Macedo, adjunto operacional de Otelo-  preparou um jantar para os familiares. “ Era preciso aparentar naturalidade e confundir a PIDE”. Antes, já fora ela a dactilografar o manifesto  do MFA, escrito por Melo Antunes.
Aura Costa Martins e Teresa Alves falam da ansiedade vivida nas últimas horas do regime e das reacções  quando  ouviram João Paulo Dinis anunciar “ E Depois do Adeus”.
Outras histórias nos prendem a atenção e outros pormenores nos são revelados neste livro. Como, por exemplo, a de  Clarisse Guerra- única mulher a ler o comunicado do MFA aos microfones de uma rádio.
Uma das histórias mais vibrantes, porém, é a de Celeste Martins Caeiro. 
Na manhã de 25 de Abril, quando chega ao restaurante onde trabalha, o patrão comunica-lhe que não abrirá as portas nesse dia. Distribui pelas empregadas os cravos que diariamente eram oferecidos aos clientes e Celeste  ruma à baixa, sem fazer a mínima ideia do que se estava a passar.  No Rossio, fica a ver os militares a passarem e, movida pela curiosidade, pergunta a um soldado o que estão ali a fazer. Este é o diálogo que se segue:
Uma revolução!
— E é para melhor ou para pior?
— É para acabar com a guerra e com a PIDE. Saímos do quartel ainda era noite… 
— Então, e precisam de alguma coisa? Como é que posso ajudar?
— Se tiver um cigarrinho… Um cigarro calhava bem.
— Bem gostava de lhe dar um, mas nunca fumei… Olhe, tome lá um cravo que tanto se oferece a uma senhora como a um senhor”.
E com este diálogo espero ter-vos despertado o apetite para a leitura deste livro de Ana Sofia Fonseca, uma jornalista que, em boa hora, decidiu contar-nos o 25 de Abril visto por algumas mulheres que nele também participaram, mas até hoje tinham estado na penumbra.
Boa leitura e bom fim de semana

quinta-feira, 27 de março de 2014

A girafa terá sido um acidente?

Há tempos, o  jornal italiano Corriere della Sera publicou, na sua edição eletrónica de fim de semana, algumas opiniões de crianças sobre o seu relacionamento com Jesus.
As crianças eram convidadas a escolher frases tiradas do livro “ Querido Jesus, você queria a girafa mesmo assim, ou foi um acidente?”  lançado em Itália pela editora Sonzogno.
Aqui ficam alguns exemplos  do que elas  costumam escrever nas redações da escola, nas aulas de religião e moral, ou em cartas natalícias.
Qual é a vossa preferida?
Querido Menino Jesus, obrigado pelo irmãozinho. Mas na  verdade eu tinha rezado pra ganhar um cachorro. (Gianluca)


 Querido Jesus, por que você não está inventando nenhum  animal novo nos últimos tempos?
 A gente vê sempre os mesmos."  (Laura) 

Querido Jesus, eu gosto muito do padre-nosso. 
Você  escreveu tudo de uma só vez, ou você teve que ficar apagando?
Qualquer coisa que eu escrevo eu tenho que refazer um monte de vezes." 
(Franco)

"Querido Jesus, nós estudamos na escola que Thomas Edison inventou a luz.
 Mas no catecismo dizem que foi você. 
Pra mim ele  roubou a sua ideia.“
(Daria) 


"Querido Jesus, você é invisível mesmo ou é só um truque?" 
(Giovanni)


"Querido Jesus, o padre Mário é seu amigo
 ou você conhece-o só do trabalho?“
 (Antonio) 


quarta-feira, 26 de março de 2014

Por falar nisso...

A propósito do post de ontem, lembrei-me de criar uma rubrica  sobre a origem de determinadas  expressões que se tornaram populares. Para começar, nada melhor do que a expressão  “Negócios da China”.
Consensual é que a origem da expressão remonta ao século XIX  e aos lucros exorbitantes que portugueses e ingleses faziam com os produtos trazidos do Oriente.
Com o tempo, a expressão passou a ser utilizada para designar um bom negócio, em que uma das partes tema muito mais vantagens do que a outra.
Exemplo? Os banqueiros. Emprestamos-lhes dinheiro e eles cobram-nos  comissões, em vez de nos pagarem juros.

terça-feira, 25 de março de 2014

Negócio(s) da China

Ainda hoje há quem pesque nestes barcos, mas não é nestes que são transportados os turistas!


Alguns dos leitores que também me acompanham no CR já saberão que estou a mudar de casa.
Ao longo da vida mudei muitas vezes de casa mas, desde que regressei a Portugal definitivamente, instalei-me na minha casa de Lisboa, alternando com permanências cada vez mais esporádicas num rochedo com vista para o mar do Guincho.
Desde que em 1967 abandonei a casa dos meus pais no Porto, para rumar a Lisboa e daqui partir à descoberta do mundo, nunca vivi tanto tempo numa casa, como nesta. Daí que a mudança se tenha transformado numa tarefa hercúlea, mas necessária, porque viver numa casa com mais de 150 m2 é uma trabalheira e uma despesa desnecessária. Além disso, uma janela com vista para o rio é um convite demasiado atraente para ser recusado.
Mas que tem isto a ver com o título do post? Estará já a perguntar um leitor mais impaciente.  Só um bocadinho, que eu já explico, tá?
Como a casa para onde vou é bastante mais pequena,  vejo-me obrigado a aliviar alguma carga. Depois de parte da mobília e dos livros, passei à fase das fotos, que decidi digitalizar. Não é tarefa fácil, quando temos em casa mais de 10 mil fotos em papel, dispersas por álbuns, de forma mais ou menos desordenada.  (Coisas de homens, eu sei !...
Decidi por isso fazer uma selecção que se tem revelado muito complicada porque há fotografias que, mesmo estando más, me recordam situações vividas que quero guardar.
Ora, aqui chegado, vou entrar na matéria que deu o título ao post. Ontem, enquanto folheava álbuns com fotos da China, deparei com algumas que tive dificuldade em identificar porque, além de estarem péssimas, apenas tinham como identificação “ Guillin 2007”. ( Sim, só aderi à fotografia digital ano passado…)
Depois de uma aturada inspecção, consegui  localizar a cena, que reproduz uma prática piscatória antiga por aquelas paragens.
Durante a noite, os pescadores saem nos seus barcos para a faina que consiste em atrair os peixes à superfície, fazendo incidir os focos de lanternas, em locais para onde previamente atiram comida. Na impossibilidade – óbvia- de apanharem os peixes à mão, os pescadores levam consigo patos, a cujos pescoços prendem um fio terminado em laço.
Quando os peixes vêm ao cimo, atraídos pela comida e pelos focos das lanternas, os pescadores lançam os patos que, gulosos,  de imediato abocanham os peixes mas… sem tempo para os engolir porque, assim que o pato fila um peixe, logo o pescador puxa o fio. Com o pescoço quase estrangulado, o pato não consegue engolir o peixe que, por sua vez, também não se consegue livrar do pato. Rebocado até ao barco pelo fio atado ao pescoço, o pato “entrega” a pescaria ao pescador e, quiçá por se sentir aliviado e não perceber a manigância ( por isso é que o bicho se chama pato) reincide sucessivas vezes na tarefa ao longo da noite. 
Ora este método artesanal de pesca começou a atrair  a atenção dos turistas, pelo que hoje em dia os pescadores fazem excursões nocturnas  para mostrar aos turistas esta originalidade de Guillin, mas importada do Japão.  
Claro que eu embarquei nesta aventura mas, só mais tarde, me apercebi que estava a ser ainda tão ( ou mais…) pato como os patos- pescadores. Com efeito, os pescadores sugerem aos turistas que levem consigo comida para dar de comer aos peixes e máquinas fotográficas. Já estão a imaginar o que sucede, não é? Quando os pescadores dão “autorização” para atirar os alimentos à água e os peixes assomam à superfície, os turistas começam a disparar os flashes, tornando quase desnecessária a utilização das lanternas. 
Resumindo: os pescadores cobram o preço da excursão, poupam na alimentação para atrair os peixes e nas pilhas das lanternas. Só têm mesmo é de entrar com o pato. Mas, mesmo este, em muitos casos, é rentabilizado, pois no dia seguinte vai servir de pitéu a muitos turistas, que se deliciam com o “Pato assado à pequinense” Isto sim, é empreendedorismo! 

segunda-feira, 24 de março de 2014

O saber não ocupa lugar

Sabe quem inventou a expressão os homens são todos iguais?
???????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Foi uma chinesa que perdeu o marido no meio de uma multidão...

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dias Exemplares



Raras vezes releio um livro na íntegra.   Um trabalho académico  obrigou-me,  recentemente, a reler   “Dias Exemplares”, de Michael Cunningham, o autor do aclamadíssimo “As Horas” vertido para a tela por  Stephen Daldry e  tendo como protagonistas  Nicole Kidman, Julianne Moore, e Meryl Streep. Um elenco de luxo, para um filme fantástico!
Em “Dias Exemplares”, Michael Cunningham faz uma viagem pela América desde os tempos da revolução industrial até um futuro onde seres humanos convivem com alienígenas. Sempre ancorado na obra poética de  Walt Whitman (Folhas de Erva)  e com Nova Iorque como palco, Cunningham divide “Dias Exemplares” em três histórias distintas, mas que têm como elo comum as mesmas três personagens.
Em “Dentro da Máquina” o autor leva-nos aos tempos da Revolução Industrial e,  embora de forma mitigada, estabelece uma analogia entre o século XVIII e a revolução tecnológica que estamos a viver, ao fazer o enfoque nas questões do emprego, no trabalho quase escravo e no poder do dinheiro.
A segunda história-  "A Cruzada das Crianças" - decorre em pleno século XXI, após os  atentados às Torres Gémeas. Explorando a paranóia securitária que se instalou em Nova Iorque após o 11 de setembro, Cunningham desenvolve uma história com contornos policiais, onde uma psicóloga negra, a trabalhar na polícia de Nova Iorque, procura ajudar os agentes a deslindar uma rede de jovens bombistas suicidas, sendo apanhada num torvelinho de emoções que conduzem a um epílogo inesperado.
Finalmente, em “Uma Espécie de Beleza”,  somos transportados para um futuro em que as preocupações ambientais estão no centro das atenções. Nesse tempo, seres humanos conviverão com  androides  e alienígenas que se refugiam na Terra para fugir a um tirano, passando a ser a classe mais baixa e desfavorecida da pirâmide social.
Mais do que reflectir sobre o futuro dos EUA, nesta última história Cunningham leva-nos a pensar sobre a evolução do mundo e, sub-repticiamente, coloca-nos a questão:  será que estamos mesmo a evoluir como seres humanos? 
Terminada a releitura, fiquei com a sensação de que gostei  mais  de “Dias Exemplares”  agora, do que  quando o li pela primeira vez, mas isso talvez se explique, porque o li com  objectivos  precisos, que vão para lá do entretenimento e prazer da leitura e me ajudaram a ver este livro por um outro prisma.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Street Stores



O conceito  nasceu em Janeiro na África do Sul,  chegou rapidamente ao Brasil e, este mês, a Bélgica fez a sua apresentação à Europa.
As “Street Stores” são  “feiras”  destinadas aos sem abrigo. O objectivo é permitir-lhes “adquirir” gratuitamente novas peças de vestuário, ou  objectos pessoais, sem necessidade de andarem a  procurar nos caixotes do lixo, ou ficarem dependentes das escolhas de outros.
Um do aspectos mais positivos desta iniciativa, é conferir ao sem abrigo  a possibilidade de recuperar um pouco a sua auto estima, porque as suas roupas novas são da sua escolha
As “Street Stores”  já existentes funcionam um dia por mês, em amplos espaços ao ar livre, onde instituições  que têm coisas para distribuir montam as suas bancas. . Os sem abrigo percorrem as bancas e escolhem o que  mais lhes agrada ( no máximo de três peças).
Partindo sempre da iniciativa de uma associação local, ou ONG, as “Street Stores” contam com o apoio das autarquias e de organizações de apoio aos sem abrigo.
Disse-me uma joaninha que o conceito chegará em breve a Portugal por isso, se tem lá em casa peças de vestuário, sapatos ou adereços de que não precisa, guarde-os durante mais algum tempo  e dê-lhes um destino mais personalizado.
Ou que tal ser o caro leitor a tomar a iniciativa de organizar na sua cidade uma "Street Store"? 

terça-feira, 18 de março de 2014

A Porteira

A porteira do meu prédio todos os dias lamenta a carestia da vida e a dificuldade que tem em alimentar e educar os três filhos.
A porteira do meu prédio é madeirense.  Na altura de votar põe a cruz no  PSD por causa do Alberto João.
A porteira do meu prédio não percebe nada de política, nem quer saber de políticos porque os acha todos iguais, mas não perde pitada do boletim meteorológico. Ontem, quando lhe disse que ia estar fora até final da semana, perguntou-me para onde ia. Perante a minha resposta avisou-me:
-Vá bem agasalhado porque lá está muito frio e a partir de quinta-feira vai chover!

segunda-feira, 17 de março de 2014

Ouvido no Metro

Este homem conhece o mundo todo. E ainda mais alguns sítios!...
( Juro que é verdade. Ouvi mesmo, não inventei)

sexta-feira, 14 de março de 2014

A Sentinela



Mais conhecido ( e reconhecido) pelos seus romances históricos, em “A Sentinela” Richard Zimmler  envereda  pelo romance policial  psicológico. Em minha opinião, com grande sucesso. 
Tudo começa  num dia quente de Julho em Lisboa, com o homicídio de um abastado construtor civil. Chamado a investigar o caso, o inspector  da PJ Henrique Monroe  vê-se envolvido numa trama que o conduz ao mundo da pedofilia  e da  corrupção.  À medida que vai seguindo as pistas, vai percebendo que está a desfiar um novelo, onde a cumplicidade entre a  classe política e o mundo da finança dita as regras.   Sabendo os riscos, aceita-as, mas depois entram em cena os seus fantasmas e as suas contradições. Que o conduzirão à descoberta do culpado, mas o deixam preso numa teia de que tem dificuldade em se desenvencilhar.
Um retrato actual e desassombrado do país, com todos  os condimentos de emoção e suspense de um romance policial, que nos deixa agarrado à leitura até ao desfecho.
Sou suspeito, porque Richard Zimmler é um dos meus escritores contemporâneos de eleição, mas este policial ( género de que não sou grande fã)  merece ser lido, pensado e “tertuliado”.
Tenham um excelente fim de semana. Com ou sem leituras. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Saldanha gourmet



O Saldanha é, de há muito, uma nova centralidade de Lisboa. Tenho assistido de perto à sua evolução e, quando regresso a casa depois de um período de ausência, vejo sempre uma nova mudança que aponta sempre no mesmo sentido.
Agora a velha praça  está  a transformar-se numa espécie de centro de comida ambulante. Na ala  nascente, entre o Atrium e a Praia da Vitória,  há um triciclo que vende iogurtes biológicos, uma roulotte que vende batatas fritas e uma caravana que vende sushi.  Com bastante sucesso, dizem-me...
Tenho saudades do velho Saldanha ( na foto) onde pontificavam o Monumental e a casa da condessa da Covilhã ( onde  hoje estão instalados o Centro Europeu do Consumidor e a DGC)  e  havia um alfarrabista que alegrava as minhas tardes de sábado. Um pouco mais adiante,  já na Fontes Pereira de Melo- onde hoje está a Zara- ficava o café-restaurante  Montecarlo, local de animadas tertúlias onde tive a oportunidade de conhecer algumas das figuras do jornalismo e da escrita, mas também excêntricos que não deviam a sua condição ao Euromilhões.  E havia uma menina na tabacaria que nos fazia perder a cabeça e um barbeiro que tratava meter os cabelos na ordem. Para além de um bilhar e de um bife famoso.
Bem, este post era sobre o Saldanha e já vou avenida abaixo. As conversas são como as cerejas, né?

segunda-feira, 10 de março de 2014

Das modas




Nos idos de 80, estava eu a viver o meu exílio oriental.
Numa cinzenta manhã de sábado, em Hong-Kong, desfrutava deliciado os croissants e outros sabores afrancesados numa Delifrance em  Causeway Bay. Aventei, a  uma amiga portuguesa, que poderia ser um sucesso  em Lisboa, uma loja  com aqueles  croissants  folhados e seus apêndices afrancesados.
Meses depois, numa vinda a Portugal, deparei com uma proliferação de croissanterias, que me deixou surpreso. Soube, através de amigos, que  tudo começara  quando uma senhora se lembrou de abrir uma croissanteria  (no Campo Pequeno?)  que foi um sucesso, pois oferecia croissants com recheios doces e salgados que tinham entrado no goto dos lisboetas. Pouco tempo depois, começou o fenómeno mimético tão tipicamente português: “se ela está a ganhar dinheiro, eu também posso ganhar”. E assim se multiplicaram as croissanterias em Lisboa e por todo o país.  
Soube, mais tarde, que a “criadora das croissanterias” se desfizera do seu empreendimento assim que o negócio se estendeu para as zonas limítrofes e as imitações foleiras começaram a descredibilizar o negócio.
Como acontece em muitos sectores de actividade ( com especial incidência no ramo de alimentação e bebidas)  a moda pegou forte, mas pouco duradouro. 
Não sei se porque os lisboetas se cansaram de croissants, ou porque a oferta começou a perder qualidade e as imitações a proliferar como cogumelos, as croissanterias desapareceram quase com a mesma rapidez com que abriram. Não sei mesmo se haverá ainda alguma croissanteria em Lisboa…
Vem isto a propósito de uma nova moda que surgiu recentemente. Quando Zé Diogo Quintela & Friends decidiram abrir a Padaria Portuguesa  e criar um “franchising”, o sucesso foi  enorme. As Padarias Portuguesas ( que em minha opinião, de portuguesas pouco têm…) multiplicam-se por todo o lado não devendo haver já um único bairro em Lisboa onde não se tenha instalado pelo menos uma.
Demonstrando que aprenderam alguma coisa com o (in)sucesso das croissanterias, os empreendedores portugueses criaram novos conceitos de padaria. À volta do pão criaram novas oportunidades de negócio que vão desde o “brunch”  aos lanches “gourmet” mais ou menos elaborados, passando  pelos menus económicos à  base de pão, à hora do almoço.
Hoje em dia- principalmente nas Avenidas Novas, onde há mais padarias do que bancos- é frequente ver as padarias a abarrotar entre as 5 e as 6 da tarde.  Uma amiga , que há dias me levou a lanchar num desses estabelecimentos na Miguel Bombarda, tentava convencer-me que as padarias vieram substituir as pastelarias e os lisboetas estão a aderir de forma entusiástica.
Desconfiado, contei-lhe a história das croissanterias  de que ela, por ser bastante mais jovem, não tem memória  e, num tom pessimista, disse-lhe que augurava a estas padarias o mesmo futuro das extintas croissanterias.  Ela não se deixou convencer:
Pelo que sei, vivemos tempos muito diferentes dos anos 80.  No final dessa década, os portugueses iam beber um copo a um bar ao fim da  tarde e depois iam jantar a restaurantes da moda. Os portugueses agora não jantam e raros são os que vão beber um copo antes do jantar. Saem dos empregos – ou fazem uma pausa- vão lanchar e à noite, em casa,  comem uma sopa ou tomam um chá com qualquer coisa leve. É um estilo de vida diferente- asseverou-me.
Talvez a minha jovem amiga tenha razão. Pelo menos, até que surja um novo conceito capaz de mobilizar os dentes lusos.
E se calhar já está a surgir, mas sobre isso escreverei noutro dia...

sábado, 8 de março de 2014

E a transpiração?



“A minha inspiração é a professora que me batia com o cinto”  revelou  Sir Alex Ferguson em entrevista a um jornal inglês.
Ficou-me a dúvida: o que  fará Ferguson transpirar?

quinta-feira, 6 de março de 2014

A estagiária



Encontrei-a no elevador. Era a nova estagiária. Jovem promissora, afiançaram-me os membros do júri que avaliaram mais de uma centena de candidatos. Cruzara-me com ela uma outra vez, quando ela andava a prestar provas. Reparei no seu ar bamboleante , contrastando com o vestuário super discreto.
 Na  véspera deste segundo encontro, a directora informara-me que no final do mês ela iria transitar para o meu departamento, pois eu era a pessoa indicada para puxar pelas suas potencialidades.
Cumprimentámo-nos circunstancialmente. Eu levava debaixo do braço “Dias Exemplares” do Michael Cunningham.  Mostrando que a diferença de idades para ela não constituía problema,  perguntou com à vontade:
 - Que andas a ler?
Mostrei-lhe o livro.
- Eh! Isso é um livro muito antigo!
Nunca leste o D. Quixote, pois não?
Ela embatucou.
Peguei-lhe no braço e conduzi-a até ao meu gabinete. Estivemos a manhã inteira a falar sobre livros.  Da parte da tarde pedi para falar com a diretora:
- Quem é que contratou esta jovem que não sabe distinguir Nietzsche de Kafka?
A directora baixou os olhos. Depois, a custo, lá me enfrentou e respondeu:
- Foi um erro de casting. Tenho a certeza que você a vai orientar bem e fazer dela uma boa editora. O potencial está lá, só é preciso despoletá-lo.
Tentei. Oh se tentei! Mas de cada vez que tentava meter naquela cabecinha noções sobre as técnicas da edição, recebia apenas como reposta um sorriso idiota e um generoso cruzar de pernas. Fiquei a saber que preferia cuequinhas azuis, mas cheguei a duvidar se ela as usava por saber que eu era adepto portista, ou se o azul, para ela, era uma cor sexy. 
Um dia conseguiu convencer-me a tomar um copo com ela ao fim da tarde. Sem cerimónias, pegou-me na mão e disse:
- Já percebi que te estás a esforçar, mas eu não estou nada interessada na edição. Interessa-me apenas o lugar. O teu lugar. Quando te reformares será meu e não te intrometas.
Eu ainda não me reformei, mas o lugar já é dela.
Ainda bem. É preciso dar lugar aos jovens e, principalmente, muita transparência no recrutamento.

terça-feira, 4 de março de 2014

Do destino dos livros ( depois de lidos)




Não pertenço àquele grupo de pessoas que, depois de lido um livro, lhe traçam como destino o caixote do lixo mas, de quando em vez, sou obrigado a desfazer-me de livros, porque as casas não esticam. 
Sempre que  faço uma limpeza à minha biblioteca, passo por um grande sofrimento.  Faço uma selecção cuidada daqueles com que quero ficar mas, invariavelmente, tenho de fazer uma segunda e terceira triagem, porque na primeira são poucos aqueles de que prescindo.
A primeira vez que decidi abdicar de uma boa parte dos meus livros, procurei que eles ficassem disponíveis para, em qualquer altura, eu poder recorrer a eles para uma consulta. Decidi, por isso, oferecê-los à junta de Freguesia, mediante a promessa de que fariam uma pequena biblioteca aberta à população. Escusado será dizer que a biblioteca nunca viu a luz do dia e eu  nunca mais vi os cerca de 500 livros.
Alguns anos passados voltei a ter de me desfazer de livros mas, dessa vez, optei por oferecê-los a uma instituição que me bateu à porta perguntando se eu tinha livros para oferecer. Segundo me informaram, os livros destinavam-se a uma associação que pretendia criar uma biblioteca para os seus associados. Com a maior das boas vontades abri-lhes a porta e disse “sirvam-se à vontade”, embora tenha tido o cuidado de supervisionar a escolha, para que os meus livros “indispensáveis” continuassem comigo. Cerca de 300 livros saíram de minha casa para a sede da associação que teve a amabilidade de me convidar a visitá-la, para me mostrar onde iria ser instalada a biblioteca. Razões nunca explicadas foram sucessivamente adiando a inauguração da biblioteca, até perceber que, mais uma vez, o destino dos meus livros seria muito diferente daquele que lhes prometera quando me desfiz dele.
Ontem, confiava a uns amigos que tinha de me desfazer de mais umas centenas de livros, mas não sabia o que lhes fazer. Um deles sugeriu-me que os vendesse a uma pessoa que compra livros usados.
Esta manhã  entrei em contacto com essa pessoa. Amavelmente, dispôs-se de imediato a ir a minha casa ver os livros.  Uma hora depois ofereceu-me um montante considerável que me permitiu, contas por alto, concluir que me estava a pagar cerca de 3€ por livro. Não regateei, mas perguntei sobre o destino dos livros. Fiquei a saber que eram para os PALOP. Mais concretamente, bibliotecas escolares.
Expliquei-lhe que não tencionava vender os livros mas, dadas as minhas anteriores experiências, decidi que seria a melhor solução e, com o dinheiro, podia ajudar algumas instituições. Ele sorriu e respondeu: pois, nós costumamos comprar os livros a juntas de freguesia e associações que recebem ofertas de pessoas como o senhor! Nunca compramos a particulares.
Depois de o homem sair pensei para os meus botões. Queres ver que quando chegarem aos PALOP vão ser vendidos e entram de novo no circuito?
Seja como for, a receita que obtive com a venda dos meus livros irá permitir-me ajudar duas associações com algumas centenas de euros. Pelo menos vou apoiar duas associações cujo trabalho aprecio, sabendo assim que o dinheiro é bem aplicado.
E os meus caros leitores, o que costumam fazer aos livros quando se desfazem deles?
Aviso aos leitores: Com este post está de regresso o On the rocks. Não prometo a assiduidade diária dos primeiros tempos, mas estarei aqui sempre que tenha histórias para contar e tempo para as verter em posts. Espero voltar a receber neste espaço as/ os leitoras/es que, durante mais de um ano, foram  clientes habituais e se mostraram tão participativos. Sei que nem todos voltarão mas, certamente, outros irão agora descobrir o On the rocks.
Espalhem a notícia, tá?
Fotos roubadas na NET