segunda-feira, 10 de março de 2014

Das modas




Nos idos de 80, estava eu a viver o meu exílio oriental.
Numa cinzenta manhã de sábado, em Hong-Kong, desfrutava deliciado os croissants e outros sabores afrancesados numa Delifrance em  Causeway Bay. Aventei, a  uma amiga portuguesa, que poderia ser um sucesso  em Lisboa, uma loja  com aqueles  croissants  folhados e seus apêndices afrancesados.
Meses depois, numa vinda a Portugal, deparei com uma proliferação de croissanterias, que me deixou surpreso. Soube, através de amigos, que  tudo começara  quando uma senhora se lembrou de abrir uma croissanteria  (no Campo Pequeno?)  que foi um sucesso, pois oferecia croissants com recheios doces e salgados que tinham entrado no goto dos lisboetas. Pouco tempo depois, começou o fenómeno mimético tão tipicamente português: “se ela está a ganhar dinheiro, eu também posso ganhar”. E assim se multiplicaram as croissanterias em Lisboa e por todo o país.  
Soube, mais tarde, que a “criadora das croissanterias” se desfizera do seu empreendimento assim que o negócio se estendeu para as zonas limítrofes e as imitações foleiras começaram a descredibilizar o negócio.
Como acontece em muitos sectores de actividade ( com especial incidência no ramo de alimentação e bebidas)  a moda pegou forte, mas pouco duradouro. 
Não sei se porque os lisboetas se cansaram de croissants, ou porque a oferta começou a perder qualidade e as imitações a proliferar como cogumelos, as croissanterias desapareceram quase com a mesma rapidez com que abriram. Não sei mesmo se haverá ainda alguma croissanteria em Lisboa…
Vem isto a propósito de uma nova moda que surgiu recentemente. Quando Zé Diogo Quintela & Friends decidiram abrir a Padaria Portuguesa  e criar um “franchising”, o sucesso foi  enorme. As Padarias Portuguesas ( que em minha opinião, de portuguesas pouco têm…) multiplicam-se por todo o lado não devendo haver já um único bairro em Lisboa onde não se tenha instalado pelo menos uma.
Demonstrando que aprenderam alguma coisa com o (in)sucesso das croissanterias, os empreendedores portugueses criaram novos conceitos de padaria. À volta do pão criaram novas oportunidades de negócio que vão desde o “brunch”  aos lanches “gourmet” mais ou menos elaborados, passando  pelos menus económicos à  base de pão, à hora do almoço.
Hoje em dia- principalmente nas Avenidas Novas, onde há mais padarias do que bancos- é frequente ver as padarias a abarrotar entre as 5 e as 6 da tarde.  Uma amiga , que há dias me levou a lanchar num desses estabelecimentos na Miguel Bombarda, tentava convencer-me que as padarias vieram substituir as pastelarias e os lisboetas estão a aderir de forma entusiástica.
Desconfiado, contei-lhe a história das croissanterias  de que ela, por ser bastante mais jovem, não tem memória  e, num tom pessimista, disse-lhe que augurava a estas padarias o mesmo futuro das extintas croissanterias.  Ela não se deixou convencer:
Pelo que sei, vivemos tempos muito diferentes dos anos 80.  No final dessa década, os portugueses iam beber um copo a um bar ao fim da  tarde e depois iam jantar a restaurantes da moda. Os portugueses agora não jantam e raros são os que vão beber um copo antes do jantar. Saem dos empregos – ou fazem uma pausa- vão lanchar e à noite, em casa,  comem uma sopa ou tomam um chá com qualquer coisa leve. É um estilo de vida diferente- asseverou-me.
Talvez a minha jovem amiga tenha razão. Pelo menos, até que surja um novo conceito capaz de mobilizar os dentes lusos.
E se calhar já está a surgir, mas sobre isso escreverei noutro dia...

8 comentários:

  1. Croissants já não têm o sabor dos anos 80 e só saem do emprego aqueles que ainda o têm!
    Da Padaria Portuguesa do meu bairro gosto!

    Abraço

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  2. Eu adoro croissants folhados simples e agora descobri uns bem bons no Lidl.
    Para mim não passarão de moda...:)
    xx

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  3. Croissants folhados ,bons, tenho em Santo Tirso na padaria Pimenta cujo dono era padeiro em Paris e abriu há temos 2 padarias aqui na terrinha. Espero que a crise não acabe com elas.

    Só conheço a Padaria Portuguesa de Telheiras , em Lisboa, e não gostei.

    Veremos se têm sucesso.

    Beijinhos.

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  4. Lembro-me tão bem das croissanterias.
    Havia uma mesmo em frente do escritório de advocacia onde eu trabalhava na Rua da Sofia.

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  5. Lembro-me bem dessa moda das croissanteries, que surgiram como cogumelos no campo e depois desapareceram. Mas aqui ao pé de mim ainda há uma que ostenta o letreiro croissanterie (conjuntamente com snack-bar, café ou outro), que obviamente é mais um café lisboeta, mas que suponho que ainda tem dos famigerados croissants. Agora a moda para exportação parece ser mais a do 'pastel de nata... ;)

    Quanto às padarias portuguesas, pois, imagino que se a falta de qualidade for igual à das múltiplas croissanteries daquele tempo, o seu destino esteja simetricamente traçado...

    Beijocas

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  6. Carlos hoje não são tão saborosos, na Marinha Grande existe uma padaria que ainda coze o pão no forno aquecido a lenha, fabrica todo o tipo de doceria e os Croissants folhados são maravilhosos.

    beijinho e uma flor

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  7. as padarias a sério, as de antigamente acabaram! já quase não se encontra pão quente (só num super ou hiper)

    Em Coimbra descobri uma Padaria antiga a 'Mimosa' porque estava a passar pela rua às 4h (madrugada) e senti o cheiro a pão acabado de cozer

    soube-me muito bem!

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