terça-feira, 25 de março de 2014

Negócio(s) da China

Ainda hoje há quem pesque nestes barcos, mas não é nestes que são transportados os turistas!


Alguns dos leitores que também me acompanham no CR já saberão que estou a mudar de casa.
Ao longo da vida mudei muitas vezes de casa mas, desde que regressei a Portugal definitivamente, instalei-me na minha casa de Lisboa, alternando com permanências cada vez mais esporádicas num rochedo com vista para o mar do Guincho.
Desde que em 1967 abandonei a casa dos meus pais no Porto, para rumar a Lisboa e daqui partir à descoberta do mundo, nunca vivi tanto tempo numa casa, como nesta. Daí que a mudança se tenha transformado numa tarefa hercúlea, mas necessária, porque viver numa casa com mais de 150 m2 é uma trabalheira e uma despesa desnecessária. Além disso, uma janela com vista para o rio é um convite demasiado atraente para ser recusado.
Mas que tem isto a ver com o título do post? Estará já a perguntar um leitor mais impaciente.  Só um bocadinho, que eu já explico, tá?
Como a casa para onde vou é bastante mais pequena,  vejo-me obrigado a aliviar alguma carga. Depois de parte da mobília e dos livros, passei à fase das fotos, que decidi digitalizar. Não é tarefa fácil, quando temos em casa mais de 10 mil fotos em papel, dispersas por álbuns, de forma mais ou menos desordenada.  (Coisas de homens, eu sei !...
Decidi por isso fazer uma selecção que se tem revelado muito complicada porque há fotografias que, mesmo estando más, me recordam situações vividas que quero guardar.
Ora, aqui chegado, vou entrar na matéria que deu o título ao post. Ontem, enquanto folheava álbuns com fotos da China, deparei com algumas que tive dificuldade em identificar porque, além de estarem péssimas, apenas tinham como identificação “ Guillin 2007”. ( Sim, só aderi à fotografia digital ano passado…)
Depois de uma aturada inspecção, consegui  localizar a cena, que reproduz uma prática piscatória antiga por aquelas paragens.
Durante a noite, os pescadores saem nos seus barcos para a faina que consiste em atrair os peixes à superfície, fazendo incidir os focos de lanternas, em locais para onde previamente atiram comida. Na impossibilidade – óbvia- de apanharem os peixes à mão, os pescadores levam consigo patos, a cujos pescoços prendem um fio terminado em laço.
Quando os peixes vêm ao cimo, atraídos pela comida e pelos focos das lanternas, os pescadores lançam os patos que, gulosos,  de imediato abocanham os peixes mas… sem tempo para os engolir porque, assim que o pato fila um peixe, logo o pescador puxa o fio. Com o pescoço quase estrangulado, o pato não consegue engolir o peixe que, por sua vez, também não se consegue livrar do pato. Rebocado até ao barco pelo fio atado ao pescoço, o pato “entrega” a pescaria ao pescador e, quiçá por se sentir aliviado e não perceber a manigância ( por isso é que o bicho se chama pato) reincide sucessivas vezes na tarefa ao longo da noite. 
Ora este método artesanal de pesca começou a atrair  a atenção dos turistas, pelo que hoje em dia os pescadores fazem excursões nocturnas  para mostrar aos turistas esta originalidade de Guillin, mas importada do Japão.  
Claro que eu embarquei nesta aventura mas, só mais tarde, me apercebi que estava a ser ainda tão ( ou mais…) pato como os patos- pescadores. Com efeito, os pescadores sugerem aos turistas que levem consigo comida para dar de comer aos peixes e máquinas fotográficas. Já estão a imaginar o que sucede, não é? Quando os pescadores dão “autorização” para atirar os alimentos à água e os peixes assomam à superfície, os turistas começam a disparar os flashes, tornando quase desnecessária a utilização das lanternas. 
Resumindo: os pescadores cobram o preço da excursão, poupam na alimentação para atrair os peixes e nas pilhas das lanternas. Só têm mesmo é de entrar com o pato. Mas, mesmo este, em muitos casos, é rentabilizado, pois no dia seguinte vai servir de pitéu a muitos turistas, que se deliciam com o “Pato assado à pequinense” Isto sim, é empreendedorismo! 

7 comentários:

  1. Como não sou impaciente, Carlos, li esta crónica duas vezes, ficando com algumas perguntas na mente, mas não quero ser indiscreta.

    Interessante a excursão nocturna e a fotografia é lindíssima.

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    1. Não se acanhe, Ematejoca! Pergunte. Se eu souber, respondo.:-)

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  2. ...mesmo caindo que nem patos deve ser um espectáculo que vale a pene ver!

    Quanto a mudanças...um dia serei eu a mudar aí para baixo, pois isto nada me diz, tendo a família toda aí!
    Nem quero pensar na trabalheira!!!

    Beijinhos.

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  3. Não conhecia este método de pesca, mas certamente que as associações de defesa dos animais não iriam concordar com ele: é de um sadismo a vários níveis!

    O que não impede que a fotografia esteja fantástica!

    Beijocas

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  4. Concordo plenamente com a opinião da Teté, há coisas que me chocam mesmo! Não sei como é que há turistas para esse espectáculo.
    A foto é de facto muito bonita.
    xx

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  5. Vim dos patos da Gulbenkian para os patos da China!
    Como são espertos estes pescadores, com tanto empreendedorismo ainda ganham um visto gold em Portugal! :)

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