terça-feira, 29 de abril de 2014

Recalcamento, ou catarse?



Os habitantes da vila inglesa de Brampton andaram em polvorosa durante seis meses, por causa de um vândalo que, todas as noites, se dedicava a furar pneus dos automóveis. Esgotadas todas as tentativas para apanhar em flagrante o delinquente, uma mulher  decidiu instalar uma câmara de vigilância.
Não demorou muito até que se descobrisse que o autor da proeza era um sem abrigo, que tinha sido atropelado. Só que se tratava de um sem abrigo muito especial. Nada mais, nada menos, do que um cão que depois de ter sido atropelado, terá desenvolvido um ódio peculiar aos pneus dos automóveis.

 Fonte: JN 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Rush Hour



Trabalho normalmente madrugada dentro. Não tenho, por isso, hábito de me levantar muito cedo, excepto quando estou de férias em locais onde valha a pena respirar as primeiras horas da manhã e ver os primeiros raios de sol dardejarem o mar ou o arvoredo denso.
Há dias, porém, tive de me levantar cedo e enfrentar a “rush hour” matinal. Estava uma manhã límpida e apetecia-me percorrer a pé  a distância entre minha casa e o local onde me aguardavam.  Não tinha tempo, pelo que não tive outro remédio senão apanhar o metro.  A minha disposição era excelente mas ao ver o ar amarrado das pessoas, as correrias desenfreadas, o desrespeito dos que usam mochila às costas  como arma de arremesso  e o  alvoroço no café onde tomei a primeira bica do dia, quase perdia a boa disposição.
Fiz a última parte do percurso a pé. Apetecia-me perguntar a cada pessoa apressada com que me cruzava, por que razão não se levantava 10 ou 15 minutos mais cedo, para evitar correrias e poder apreciar a esplendorosa manhã, antes de mergulhar  num escritório asséptico onde a maioria das pessoas é obrigada a deixar escoar entre papéis, telefonemas,  emails , contas de subtrair, ou atendimento a pessoas mal humoradas, os melhores momentos da vida.
Apeteceu-me perguntar mas não o fiz por uma razão óbvia: se me devolvessem a pergunta, iria perder muito tempo a explicar a razão de ter de trabalhar de noite e não poder levantar-me cedo. Por outro lado, também   me seria difícil  compreender as explicações que me dessem para todos os dias se levantarem em cima da hora. Apesar de a rush hour ser um fenómeno comum a quase todo o mundo dito civilizado, que não me devia surpreender nem provocar angústias existenciais. E muito menos ser pretexto para escrever um post…ainda mais porque sou um privilegiado que consegue escapar à doideira matinal que diariamente nos envolve na engrenagem.
Rush hour em Buenos Aires

Tóquio

Londres

Hong Kong


sábado, 26 de abril de 2014

Porque hoje é sábado (3)

"Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: «Fulano de tal
comunica a V. Ex.ª que vai transformar-se em nuvem
hoje às 9 horas. Traje de passeio».
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos
todos assistir à despedida.
Apertos de mão quentes. Ternura de calafrio.
«Adeus! Adeus!»
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes... (primeiro, os olhos...
em seguida, os lábios... depois, os cabelos...) a carne,
em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis..."

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Abril no feminino: conta-me como foi!


Porto, 25 de Abril de 2014
Ana celebra hoje o  60º aniversário. Assinala a data organizando um jantar em sua casa, para o qual convida as mulheres da sua vida:  mãe,  filha, neta, melhor amiga, sobrinha e  criada que servia em casa da mãe e a viu crescer.
Quando já estão todas sentadas à mesa, Luísa ( a amiga de toda uma vida) oferece o seu presente: uma fotografia tirada na Praça dos Leões, na manhã de 25 de abril de 1974, quando Ana saía do eléctrico para ir para a Faculdade.
A fotografia desperta uma série de recordações nas duas amigas, na mãe de Ana e na empregada Rosa.   É  entre estas recordações cruzadas do final dos anos 60 e da década de 70 ( as jovens ficam perfeitamente aturdidas e embasbacadas com os relatos)  que decorre grande  parte da trama da série “Mulheres de Abril” em exibição desde segunda –feira na RTP 1.
Produzida com fracos recursos,  espécie de prolongamento de “Conta-me como foi”,  esta série que passou quase despercebida retrata um certo estilo de vida portuense  antes e depois do 25 de Abril de 74.  As diferenças entre “Mulheres de Abril” e  “ Conta-me como foi” são marcantes.  Não só porque as  vivências  no Porto e Lisboa eram, à época,  separadas por abissais diferenças de mentalidade, mas também porque os  protagonistas centrais são descendentes de uma familia de comerciantes transmontanos de sucesso. Novos ricos com outro tipo de problemas e diferentes experiências de vida da família central de "Conta-me como foi".
Apesar de todas as limitações,  “Mulheres de Abril” – cujo último episódio será exibido esta noite- é uma agradável viagem de quase cinquenta anos centrada nas mulheres, que retrata a evolução das mentalidades e das formas de vida, mas também dos direitos das mulheres portuguesas. Particularmente impressivo foi o terceiro episódio ( o quarto não vi, porque estava a celebrar Abril na rua). As desavenças  provocadas  pela consciencialização opção política desuniram famílias e ceifaram amizades que pareciam ser eternas; a contradição entre as opções políticas e os comportamentos machistas dos jovens de extrema-esquerda; a revolução sexual; a  incapacidade de assumir  algumas responsabilidades ou o comportamento "revolucionário" de saudosos do salazarismo são alguns dos temas abordados neste episódio.
Quanto à limitação das liberdades antes do 25 de Abril, é  provável que as mais jovens pensem que se trata de ficção e não será caso para menos. Quem vai hoje acreditar que era obrigatório ter licença de isqueiro, que as mulheres não se podiam ausentar do país sem autorização dos maridos, ou  mesmo que atravessar a fronteira para ir comprar caramelos Solano a Espanha era uma aventura que poderia durar um dia inteiro?
Todas as semanas, nas minhas tertúlias com jovens sobre o século XX, os vejo abrirem a boca de espanto. Incrédulos com tanto atraso, tanta proibição e mentalidades tão tacanhas...
Apesar de alguma superficialidade na abordagem dos temas - admissível numa série de cinco episódios-  "Mulheres de Abril"  vê-se com agrado e cumpre a sua função: avivar a memória dos que viveram o 25 de Abril e mostrar aos mais jovens ( especialmente a elas) como era diferente a vida  em Portugal antes da Democracia.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Provérbios do mundo (14)

Duas coisas indicam fraqueza:
calar-se quando é preciso falar
e falar quando é preciso calar-se

Provérbio persa

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Aventura na biblioteca




No Verão passado, em viagem pelo Norte, fui surpreendido por  uma velha  cabine telefónica  plantada junto ao rio Cávado.  Mais me surpreendeu,  ainda,  que aquela  cabine pintada de branco  estivesse a escassos metros  de uma daquelas modernaças, sem portas, avessas à privacidade das conversas.
Por momentos, pensei que a Junta de Freguesia de Barcelinhos tivesse inaugurado um espaço museológico  naquele parque à beira rio, com vista para a ponte romana e o castelo medieval. Movido pela curiosidade do turista aproximei-me. Lá dentro não havia um telefone! Só livros, revistas e jornais. Um quiosque de venda de publicações?-pensei
Percebendo a minha curiosidade, uma jovem que  estava a ler sentada num banco do jardim  dirigiu-se-me e apresentou-se.  Funcionária da biblioteca da junta, ali estava para atender os pedidos de quem queira ler algum dos livros ali expostos, ou outros  que façam parte do catálogo da biblioteca local.
 A cabine telefónica- explicou-me- tem uma dupla função: convidar os passantes à leitura e promover a biblioteca da junta, funcionando como uma montra “front desk” .
 A ideia, interessante, espicaçou-me a curiosidade jornalística. Fiquei a saber que a iniciativa de criar  este espaço  foi do presidente da junta, mas materializada com o apoio da Fundação PT que  recuperou uma velha cabine telefónica lisboeta e a transportou para Barcelinhos. Parte dos livros foi adquirida com apoio da Fundação Gulbenkian, mas também  os cidadãos locais e passantes oferecem livros, enriquecendo assim o catálogo da biblioteca local. 
Entre os passantes que recorrem aos serviços desta mini biblioteca, destacam-se os caminheiros que rumam a Santiago de Compostela. 
Portanto, caro leitor, já sabe. Se um dia destes estiver a passear por Barcelinhos e lhe apetecer  ficar uns momentos a desfrutar da paisagem, na companhia de um livro, ou ler as notícias do dia, dirija-se à cabine telefónica.  Se lá dentro não estiver ninguém, não desista.  Toque à campainha e, momentos depois, uma funcionária virá ao seu encontro. Já agora, leve  um livro consigo e ofereça-o à junta. Utentes e prestador do serviço agradecem.


terça-feira, 22 de abril de 2014

A menina das soquetes

Há dias encontrei-te de novo na Versailles. Como habitualmente, trazias a tua namorada que fica a ver-te comer enquanto tu tomas o pequeno almoço tardio. 
Ao contrário do que é habitual, foste tu a chegar primeiro. Poderias ter escolhido um lugar ao balcão, longe de mim, mas preferiste ficar mesmo a meu lado, oferecendo-me as costas e deixando a tua namorada de frente para mim. Provocação? Talvez…
Aceitei o repto. Enquanto comia a torrada, lentamente, comecei a fazer olhinhos à tua  namorada que ora me fixava, ora desviava o olhar, comprometida.  A determinada altura ela deve ter pensado “basta” e cochichou-te qualquer coisa ao ouvido.
Voltaste-te num repente e vi, por baixo do teu costumeiro tailleur preto, os teus seios moverem-se ao ritmo da tua respiração alterada. Estavas pronta para o ataque mas… hélas... não é possível! Deverei acreditar que não me tinhas mesmo visto? Que  nunca me viste, ou reconheceste, nos dias anteriores quando tomávamos café ao mesmo balcão, por vezes quase lado a lado, como hoje?
Ou encenaste uma bela cena quando me fizeste uma enorme festa e me pregaste dois beijinhos, ou então estás pior do que eu pensava. Ou será que a paixão  te cegou e só tens olhos para ela? 
Refeita a surpresa (?) apresentaste-me a tua amiga. Num tom de voz que te é tão peculiar e sempre soa a reprimenda, advertiste-me:
- Tu nunca vais deixar de fazer olhinhos às mulheres, pois não? Olha que já tens idade para ter juízo e deixares de fazer essas cenas.  Acaso não saibas, a B. é minha  namorada…
Ia ensaiar um ar surpreendido, mas tu atalhaste logo, à tua maneira.
 Não te faças de parvo. Estás farto de saber  que eu deixei o Zé e as razões porque o fiz. Tenho quase a certeza que sabes desde aquela cena em Goa, mas  devo admitir que  sempre foste muito discreto. 
Nunca mais estive com o Zé- respondi de forma evasiva
Coitado… ele nunca encaixou que eu lhe tivesse posto os palitos com uma mulher.  
Eu também pensei que aquilo em Goa tivesse sido apenas uma aventura ocasional. Logo com uma aluna tua?  Só podia ser um bocado de álcool a mais, a droga boa - como em parte nenhuma… Foi o que pensei. E como deixei de te ver, também não liguei mais ao assunto.
 Menti.
Tu fingiste ter acreditado.
Os minutos de conversa que se seguiram foram trocas mútuas de meias verdades, entre duas pessoas que não se viam  falavam há quase duas décadas e esperavam não voltar a encontrar-se tão cedo. Ambos o sabíamos, mas nenhum de nós abandonava o jogo, para não dar parte de fraco.
Olhei para o relógio, afivelei aquele ar mesclado de surpresa ( com as horas) e lamento ( por ter de partir) e desculpei-me com um compromisso para que já estava atrasado.
É uma jovem ainda, mas creio que vai ser escritora de sucesso. Fixa este nome ( pronunciei-o num sussurro junto ao teu ouvido). Repetiste-o também num sussurro.
Vou fixar, podes crer!
Mas não digas nada a ninguém, por favor!
Já sabes que a minha boca é um túmulo
Ok. Adeus. A gente vê-se. Venho cá muitas vezes
Também eu. Quase todos os dias.
Saí reprimindo um sorriso de gozo. Acreditaste em mim e no nome da escritora  inventada no momento, com o único intuito de me ver livre de ti. Estávamos pagos. Tu andaste a fingir durante semanas que não me vias. Ou não me reconhecias.  Empate. Pelo menos até que a tua língua de trapos comece a pronunciar o nome repetidamente em “off”e  acabes por descobrir que a mulher de que te falei não existe. Mas tu não darás nunca parte de fraca. Insistirás junto do teu círculo de amigos/conhecidos que é um segredo muito bem guardado e foi um teu amigo de infância- "ghost writer" responsável por alguns  sucessos editoriais em Portugal-  quem te falou dela.

Cá fora o ar estava quente, mas o  céu toldara-se, escondendo o sol que  iluminara as primeiras horas da manhã. Estuguei o passo. Quando entrei no meu gabinete, fiz rewind. Vi-te  menina de 15, 16, 17  anos, longa cabeleira loira e soquetes, única no grupo a participar com os rapazes nas corridas de carros de sabão e outras brincadeiras onde menina não entrava. Tu eras a excepção. Não só pela coragem que revelavas. Era também uma forma de compensarmos  a tua disponibilidade para nos apagar os ardores juvenis. Enquanto todas as outras se diziam meninas de um homem só, sonhavam com o casamento de véu, grinalda e flor de laranjeira, um marido para toda a vida, resistiam semanas a um beijo e meses a uma mão atrevidota subindo-lhe pelas pernas, tu eras mais aberta. Não só permitias rapidamente generosos momentos de àvontade, como gostavas de ser tocada pelos rapazes que te procuravam, com quem simpatizavas.  Na aldeia onde passávamos alguns dias de férias eras conhecida por menina das soquetes, por seres a única que ainda as usavas naquela idade. Entre os rapazes, por menina das baldas. Mas só aqueles que nunca te tocaram com um dedo e sempre rejeitaste usavam a expressão, como forma de se vangloriarem de feitos nunca conseguidos. Os que sentiram bem de perto o cheiro dos teus cabelos loiros, tocaram os teus mamilos enrijecidos, sentiram o calor dos teus beijos e entrelaçaram a sua língua na tua, em viagem exploratória do amor, nunca ousaram pronunciar tal frase.
Quase meio século depois, tu és uma pessoa de sucesso. Nenhum dos que naquele tempo encontraram no calor do teu corpo forma de aliviar as pulsões juvenis, atingiu qualquer notoriedade. Tudo gente mediana. Talvez a sede de sucesso e a necessidade de protagonismo, tenha sido apenas mais uma forma de te vingares de nós…


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Está nos livros (2)

" É um romance autobiográfico sobre uma jovem revolucionária, ingénua mas bem intencionada, que se apaixona loucamente por um jovem estudante de Genética( depois de acabar com um estudante de História fisicamente atraente mas tacanho!). Para sua grande surpresa e repugnância, descobre que o novo namorado anda a enganá-la com um homem. Denuncia-o imediatamente à polícia como homossexual e simpatizante comunista. O rapaz é preso, pendurado pelos pés numa velha refinaria de açúcar em Santos e assassinado"

Richard Zimmler in  " Confundir a cidade com o mar" pg 154

Coisas que me irritam

Pessoas a falarem ao telemóvel em altos berros. Seja na rua, nos transportes ou nos restaurantes, são gente indesejável, cujo comportamento me irrita. 

sábado, 19 de abril de 2014

Páscoa Feliz

Na impossibilidade de fazer a habitual visita pascal pelos vossos blogs, deixo-vos aqui os votos de
PASCOA FELIZ

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Os Memoráveis



No último mês li quatro livros sobre o 25 de Abril e espero ler mais um até  domingo de Páscoa. A profusão de títulos sobre a data aconselha uma certa selectividade nas escolhas, mas não sei se terei conseguido fazer as melhores.
O livro de que hoje vos falo enquadra-se dentro dos critérios que à partida determinei. Gosto da autora ( Lídia Jorge) e a abordagem pareceu-me, desde logo, bastante original.
Em 2003, poucos meses antes do 30º aniversário do 25 de Abril, um ex-embaixador americano em Lisboa convence uma jornalista  portuguesa, a viver em Washington, a passar uns tempos em Portugal, para fazer um documentário sobre a Revolução dos Cravos.
A princípio renitente,  a jovem jornalista ( Ana Machado) acaba por se deixar convencer, depois de ter lido uma série de cartas do espólio do embaixador, que este colocou à sua disposição.
Ana desembarca em Lisboa com uma conversa que tivera com o embaixador, antes da partida, a bailar-lhe na cabeça:

“Pode crer, miss Machado, que nunca encontrei ao longo do meu percurso um povo tão sensato como aquele a que pertence. Um povo pobre, sem álgebra, sem letras, cinquenta anos de ditadura sobre as costas, o pé amarrado à terra, e de repente acontece um golpe de Estado, todos vêm para a rua gritar, cada um com sua alucinação, seu projeto e seu interesse, uns ameaçando os outros, corpo a corpo, cara a cara, muitos têm armas na mão, e ao fim ao cabo insultam-se, batem-se, prendem-se, e não se matam. Eu vi, eu assisti. É esta realidade que é preciso contar antes que seja tarde”.

Quando chega a casa do pai, jornalista  reconhecido entre os seus pares, pela perspicácia  e capacidade para antever o futuro da Revolução dos Cravos, com décadas de antecedência, descobre uma fotografia que vai servir de mote para a sua reportagem. Tirada num restaurante muito badalado em Lisboa durante o Estado Novo e pós Abril  frequentado por grandes figuras da Revolução, nela figuram as pessoas que considera poderem prestar os depoimentos mais importantes sobre o 25 de Abril e os meses que se lhe seguiram.
Tião Dolores, um fotógrafo que deambulou  várias horas entre as chaimites, sem conseguir tirar uma única foto, mas acabou por tirar algumas das fotografias mais emblemáticas  lendárias que percorreram mundo.  O oficial de Bronze, Charlie 8, El Campeador - figuras que facilmente ligamos  a militares de Abril-  Nunes, o proprietário e chef do restaurante, mas também os pais de Ana, António Machado e Rosie- uma belga que veio a Portugal ver a Revolução e tão empolgada  ficou  que se deixou por cá ficar. Até que o frémito  revolucionário foi esmaecendo e outros empolgamentos a levaram de regresso “à Europa”.
Este pormenor das relações familiares  entre os Machados é importante para se perceber a razão de Ana, apesar de ter em casa um manancial de  informação “viva” que lhe permitiria reconstruir a História e fazer o guião para o seu documentário, opta por pedir a colaboração de dois colegas de curso, sem uma única vez ter pedido a opinião do pai- de quem aliás, esconde o trabalho que anda a fazer.
O trio parte então ao encontro das personagens da foto e, em cada conversa com os entrevistados, vai descobrindo pedaços de uma revolução, esqueletos de protagonistas, memórias “Do dia mais feliz das vidas dos personagens”.
Vagueando por um labirinto de emoções, entre a verdade e o mito, a realidade e a ficção, os três jovens –  ainda por  nascer no 25 de Abril de 74-  vão  “interpretar” a História , à medida que  fixam em imagens os testemunhos dos que viveram e protagonizaram aquele dia, que hoje mais lhes parecem “exilados da democracia”. Há momentos em que se surpreendem porque muito do que leram, ouviram falar, ou lhes foi ensinado na escola, não cola com alguns depoimentos. E põe-se a dúvida… afinal o que resta da História de Abril e dos seus protagonistas será realidade, mito, ficção, ou reconstituição da verdade?
 Será um  pouco de tudo isso, mas  a dúvida que se coloca é:como preservar o que resta da “VERDADE” de Abril e dos tempos que se lhe seguiram, sem abalar alguns mitos criados em volta de alguns dos protagonistas de Abril?
O romance de Lídia Jorge é, em termos literários, irrepreensível. Em termos de narrativa  é absorvente, obriga o leitor  a reflexões constantes das quais a principal me parece ser esta: há muitas interpretações sobre o 25 de Abril, mas muito do que se passou naquele dia e nos meses seguintes não se conhece. Ou, pior ainda, foi deliberadamente adulterado.
No fundo, todos nos comportamos um pouco como Ana Machado. Poderia, através da experiência vivida e dos relatos escritos pelo pai, prenunciando o futuro dos heróis de Abril, ter escrito um guião sem mácula. Ao optar por escrever ela o seu próprio guião, terá contribuído para fixar a História real, ou para a adulterar?  Creio ter encontrado a resposta nas páginas finais do livro- quando o leitor fica a conhecer o guião final do documentário- mas deixo essa tarefa aos leitores. 
Esta é a minha sugestão de leitura para esta Páscoa. 


quarta-feira, 16 de abril de 2014

O prometido é devido..

... por isso, aqui estou a tentar explicar o que é a tal folha de parra de que falava  no post de ontem. Se tivesse encontrado uma foto, era mais fácil, mas para a próxima faço uma "Selfie"...
Folha de parra é, essencialmente, um doce de chocolate com a forma que se vê na foto. Duas folhas de chocolate crocante, em forma de parra, recheadas com mousse de chocolate!
Quando era miúdo, comia uma e ficava a chorar por mais. Agora como metade e a outra metade partilho com quem estiver comigo, ou levo para casa para comer no dia seguinte. Resta dizer que é uma especialidade da confeitaria Ateneia, no Porto. Há uns meses apareceu uma imitação no Lima 5 ( também no Porto) mas não chega aos calcanhares da original.
Mistério esclarecido, amanhã haverá sugestão de leituras para a Páscoa.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Chá das cinco

Ritz Hotel (Londres) à hora do chá
Aguarela  John V.Healey


No sábado fui lanchar a uma conhecida pastelaria  do Porto. Estava a saborear uma folha de parra ( quem não souber o que é faça o favor de dizer que eu explico mais tarde...) quando entra um cliente apressado
Estou com pressa. Traga-me  um muskoglossavitzakafkaski com cogumelos, por favor.
Pergunta a empregada:
Um muskoglossavitzakafkaski com quê?

sábado, 12 de abril de 2014

Porque hoje é sabado (2)

Como desenhar uma casa                              


Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

manuel antónio pina

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Coisas do Arco da Velha



A expressão é utilizada quando queremos qualificar situações inacreditáveis, absurdas, espantosas, inverosímeis. Simplificando: algumas decisões deste governo são tão absurdas e inacreditáveis, que só podem ser coisas do Arco da Velha ( Alguns dirão que são coisas que não lembram ao careca, mas a explicação dessa frase fica para outras núpcias)...
Ao que consta a  expressão"Arco da Velha" tem origem no Antigo Testamento. O arco-da-velha é o arco-íris, ali referido como o sinal do pacto que Deus fez com Noé: "Estando o arco nas nuvens, Eu ao vê-lo recordar-Me-ei da aliança eterna concluída entre Deus e todos os seres vivos de toda a espécie que há na terra." (Génesis 9:16).
Há também diversas histórias populares que defendem outra origem da expressão, como a da existência de uma velha no arco-íris, sendo a curvatura do arco a curvatura das costas provocada pela velhice, ou devido a uma das propriedades mágicas do arco-íris_ beber a água num lugar e enviá-la para outro-  pelo que velha poderá ter vindo do italiano bere (beber).
Mas isto já são lucubrações recolhidas no espaço virtual, às quais não convém dar muito crédito.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Da menosprezação do pedal



Ao final da tarde estava eu no  bar, à espera do entrevistado. Fora o próprio a sugerir que a entrevista se realizasse ali, por ser um local sossegado onde poderíamos conversar à vontade.
Pedi um ginger ale com gelo e uma rodela de limão. ( Nunca bebo álcool antes de uma entrevista) O empregado fez acompanhar o pedido de uma generosa dose de amendoins e pipocas.  Como complemento, aumentou o volume de som do televisor, para que eu pudesse desfrutar melhor o momento. Nada de notícias. Pela pantalha, desfilavam apenas ciclistas esforçados por pavées  sinuosos e um carrocel de estradas lamacentas.  A prova entrara nos derradeiros dez quilómetros e o esgar de esforço do grupo da frente denotava o desgaste a que os ciclistas já tinham sido submetidos. A câmara mudou de plano e focou demoradamente dois ciclistas que se tinham adiantado ao grupo perseguidor, onde não se encontravam os favoritos. Esses iam no grupo que acelerava o ritmo na tentativa de apanhar os fugitivos.
O jornalista, apostado em mostrar aos telespectadores  conhecimentos  sobre a matéria, ia debitando dados estatísticos. Para ele era dado adquirido que os fugitivos não seriam apanhados na escassa dezena de quilómetros que os separavam da meta.
Mais comedido, o comentador-  ex-ciclista- asseverava que não se podia menosprezar o valor e a combatividade de dois dos favoritos que iam no encalço dos fugitivos e ainda por cima contavam com a colaboração dos restantes elementos do grupo perseguidor.
Não convencido, o jornalista ripostou: Não é um problema de menosprezação
Eu, telespectador pouco familiarizado com estas coisas, respondi:
- Pois não filho…o problema é mesmo não saberes falar português.
O empregado riu-se. O entrevistado chegou. O televisor emudeceu. A música de fundo entrou em cena.
Poucos minutos depois começámos a entrevista. Pelo canto do olho ainda pude ver os fugitivos  serem apanhados pelos perseguidores, a escassos metros da meta.
Não sei se foi um dos favoritos a ganhar a prova, mas sei que o comentador ganhou ao jornalista. Terá admitido que afinal o problema estava mesmo na menosprezação?

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Está nos livros (1)



Creio que todos nós, durante a leitura de um livro, experimentamos a sensação de ler frases em que paramos, repetimos a leitura e ficamos alguns instantes a reflectir sobre ela. Alguns são mesmo tentados a sublinhá-las, ou  a dobrar o canto da página para, eventualmente, regressar à sua leitura noutra oportunidade.
A mim acontece-me com frequência e, com base nessa experiência, inicio uma rubrica com frases de livros que li, vou lendo ou virei a ler, que de uma ou outra maneira me marcaram.
Para começo de conversa aqui fica esta:
" Cuidado, Ana Maria, que há muito sedentário cuja cabeça é nómada e muito nómada cuja cabeça é sedentária, e estes, que a si mesmo se enganam, pensando que conhecem o mundo inteiro por lá terem ido com os pés são os piores."
( Lídia Jorge in "Os Memoráveis, pg 132)
Agora, aqui fica o desafio. A caixa de comentários é vossa, para opinarem.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Bolo de chocolate ( amargo)




Os velhos estão na sala, cosidos aos sofás, cumprindo mais uma etapa da viagem que  terminará, inevitavelmente, numa etapa com meta na morte. 
A assistente social e a psicóloga estão numa acção de formação, por isso, naquela tarde, os velhos ficam entregues a si próprios. Uns dormem  sob o efeito de analgésicos, ou do tédio; outros têm o olhar fixo num ponto distante, onde  projectam memórias do passado. De um passado em que também foram jovens com tantas ambições como os jovens de hoje, mas sem recursos para as concretizarem.  Ou sem direitos para as exigirem…
Na sala há dois televisores mudos, suspensos das paredes, que vão emitindo imagens. Alguns velhos olham para os televisores sem verem as imagens. Outros olham para a chuva a bater na vidraça.
Há também um velho que se descoseu do sofá e deambula pela sala numa cadeira de rodas. Aproxima-se de um dos televisores e pára.
 O televisor vai "sobrevoando" uma ponte, quando a coordenadora do Lar entra na sala. Decide fazer um número de animação – quiçá para impressionar o único visitante que se encontra na sala- e pergunta ao velho de olhos fixos no televisor:
- Está a gostar do programa? Então diga lá como se chama esta ponte?
- 25 de Abril- responde o velho sem hesitar
- Ah!Ah!Ah! 25 de Abril? Então acha que essa ponte se chama 25 de Abril? Ei, meninos e meninas, quem é que sabe como se chama esta ponte?
Alguns olhos abrem-se. Olham para  o televisor, para a mulher loira e voltam a fechar-se.
Frustrada, a mulher insiste:
- Então não conhecem esta ponte? Nem sabem qual é o rio?
....
 O rio é o Tejo. E a ponte?
....
É a ponte Salazar, não é?
- O homem da cadeira de rodas resiste.
- Não! É a ponte 25 de Abril!
- Ó senhor! Então o 25 de Abril fez alguma ponte? Quem fez a ponte foi o Salazar!
O homem da cadeira de rodas vira as costas ao televisor enfrenta a mulher loira, eleva a voz rouca e replica:
- O Salazar não fez ponte nenhuma! Quem fez a ponte foram os trabalhadores!
A mulher loira, traída pela perspicácia do velho, não desarma:
- Está bem, foram os trabalhadores. Mas quem pagou aos trabalhadores para fazerem a ponte?
O homem da cadeira de rodas vira-lhe ostensivamente as costas. Uma mulher abre os olhos e, interrompendo o silêncio, responde:
- Fomos nós!
O visitante esboça um sorriso que se transforma numa gargalhada. A coordenadora ruboresce. Volta à carga, desafiando ostensivamente o visitante:
- Os comunistas é que lhe chamaram 25 de Abril, mas a ponte é Salazar. Foi o único político que entrou para lá  pobre e saiu  de lá tão pobre como entrou. 
Depois interpelou a sala à procura de apoios:
- Ora digam lá! Houve mais algum político em Portugal- e se calhar até no mundo-  tão honesto como Salazar?
Ninguém respondeu.
A mulher loira lançou um olhar de desafio ao visitante
-É assim mesmo! Quem cala consente, não é verdade?
O visitante sorriu. Um sorriso de desdém e compaixão, que a mulher loira percebeu ser-lhe dirigido.
- Pronto, são quase horas de jantar. Hoje há bolo de chocolate.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Memória de elefante



Costuma dizer-se de uma pessoa com boa memória que se recorda de tudo, que tem memória de elefante. A minha mãe, que fixava as datas de todos os aniversários, os números dos telefones de toda a gente,os nomes das ruas, mesmo que raramente passasse por lá, ou os números de todos os documentos pessoais, era conhecida no seio familiar por "Agenda" e por alguns como tendo memória de elefante.
A expressão radica na ideia de que o elefante  fixa tudo aquilo que aprende mas, sabe-se hoje, afinal o elefante não tem tão boa memória como a fama que granjeia.
O golfinho é reconhecido como o animal com melhor memória, seguido do leão marinho. O elefante fica apenas no top 10 dos animais com melhor memória do universo.
A indústria farmacêutica continua a utilizar o elefante para promoção de medicamentos que avivam a memória, como o Memofante. Se os consumidores soubessem a verdade sobre os animais com mais capacidade para reter informação, certamente não se deixariam iludir pela publicidade...

sábado, 5 de abril de 2014

Porque hoje é sábado


 Os ombros suportam o mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas dos teus amigos.

Pouco importa que venha a velhice, que é a velhice?
Os teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, acham bárbaro o espectáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Provérbios do mundo (12)

" Por causa da rosa, a erva daninha acaba por ser regada"
(Provérbio árabe)

Vai um cheirinho?



A Vista Alegre  concretizou um contrato histórico com a prestigiada destilaria escocesa Dalmore: a produção das três garrafas de cristal que contêm o mais caro e raro whisky do mundo - o Trinitas 64.
 Trata-se de um malte escocês excepcional cujo preço de venda ao público ronda os 145 mil euros, numa edição limitada a apenas três  exemplares. A bebida inédita resulta de uma combinação única de vintages espirituosos das colheitas de 1868, 1878, 1926 e 1939, sendo adicionado um toque final com o vintage de 1940.
 Cada uma das três produções deste precioso malte foi armazenada num frasco de cristal português de alta qualidade, no qual foi incrustado o símbolo em prata da Destilaria Dalmore  (o veado).
A pureza e a qualidade do cristal  produzido pela Vista Alegre Atlantis conquistaram a confiança da empresa escocesa, que acabou por deixar aos portugueses também a produção de 200 frascos de edição limitada do whisky Dalmore Aurora 45 - um malte raro da colheita de 1964, cujo preço de venda ascende aos seis mil euros.
Vai um cheirinho?

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Erro crasso


Está-se mesmo a ver qual deles é, não está?


A expressão "erro crasso" significa um erro grosseiro, incompreensível ou indesculpável.
De acordo com a pesquisa que efectuei, a expressão terá tido origem em Roma durante o primeiro Triunvirato,  formado pelos generais Caio, Pompeu e Crasso.
Este último terá sido incumbido de atacar  os Partos, tarefa que não exigia grande esforço, pois tratava-se de um pequeno povo com poucos argumentos para resistir ao poderio romano.
Crasso partiu para a sua tarefa tão confiante na vitória, que prescindiu de atacar da forma convencional utilizada pelos exércitos romanos. Além disso, para atalhar caminho,  escolheu uma passagem estreita e  com pouca visibilidade. Resultado: os romanos foram vencidos pelos Partos, envergonhando o poderio de Roma.
Desde essa pequena batalha, perdida  pelos romanos por  incúria, quando alguém com todas as condições para ter sucesso comete um erro  estúpido ( seja por soberba ou ignorância), passou a dizer-se que cometeu  um erro crasso 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Esperteza alentejana

Repartição de Finanças de Redondo.
Realmente o espírito do alentejano é muito à frente.

Pura Inteligência. Para quê estar de pé?
(recebida por mail)

Coisas que me irritam


Querer sair do metro e, quando a porta se abre, ver uma multidão a querer entrar, antes de deixar as pessoas sair.