terça-feira, 22 de abril de 2014

A menina das soquetes

Há dias encontrei-te de novo na Versailles. Como habitualmente, trazias a tua namorada que fica a ver-te comer enquanto tu tomas o pequeno almoço tardio. 
Ao contrário do que é habitual, foste tu a chegar primeiro. Poderias ter escolhido um lugar ao balcão, longe de mim, mas preferiste ficar mesmo a meu lado, oferecendo-me as costas e deixando a tua namorada de frente para mim. Provocação? Talvez…
Aceitei o repto. Enquanto comia a torrada, lentamente, comecei a fazer olhinhos à tua  namorada que ora me fixava, ora desviava o olhar, comprometida.  A determinada altura ela deve ter pensado “basta” e cochichou-te qualquer coisa ao ouvido.
Voltaste-te num repente e vi, por baixo do teu costumeiro tailleur preto, os teus seios moverem-se ao ritmo da tua respiração alterada. Estavas pronta para o ataque mas… hélas... não é possível! Deverei acreditar que não me tinhas mesmo visto? Que  nunca me viste, ou reconheceste, nos dias anteriores quando tomávamos café ao mesmo balcão, por vezes quase lado a lado, como hoje?
Ou encenaste uma bela cena quando me fizeste uma enorme festa e me pregaste dois beijinhos, ou então estás pior do que eu pensava. Ou será que a paixão  te cegou e só tens olhos para ela? 
Refeita a surpresa (?) apresentaste-me a tua amiga. Num tom de voz que te é tão peculiar e sempre soa a reprimenda, advertiste-me:
- Tu nunca vais deixar de fazer olhinhos às mulheres, pois não? Olha que já tens idade para ter juízo e deixares de fazer essas cenas.  Acaso não saibas, a B. é minha  namorada…
Ia ensaiar um ar surpreendido, mas tu atalhaste logo, à tua maneira.
 Não te faças de parvo. Estás farto de saber  que eu deixei o Zé e as razões porque o fiz. Tenho quase a certeza que sabes desde aquela cena em Goa, mas  devo admitir que  sempre foste muito discreto. 
Nunca mais estive com o Zé- respondi de forma evasiva
Coitado… ele nunca encaixou que eu lhe tivesse posto os palitos com uma mulher.  
Eu também pensei que aquilo em Goa tivesse sido apenas uma aventura ocasional. Logo com uma aluna tua?  Só podia ser um bocado de álcool a mais, a droga boa - como em parte nenhuma… Foi o que pensei. E como deixei de te ver, também não liguei mais ao assunto.
 Menti.
Tu fingiste ter acreditado.
Os minutos de conversa que se seguiram foram trocas mútuas de meias verdades, entre duas pessoas que não se viam  falavam há quase duas décadas e esperavam não voltar a encontrar-se tão cedo. Ambos o sabíamos, mas nenhum de nós abandonava o jogo, para não dar parte de fraco.
Olhei para o relógio, afivelei aquele ar mesclado de surpresa ( com as horas) e lamento ( por ter de partir) e desculpei-me com um compromisso para que já estava atrasado.
É uma jovem ainda, mas creio que vai ser escritora de sucesso. Fixa este nome ( pronunciei-o num sussurro junto ao teu ouvido). Repetiste-o também num sussurro.
Vou fixar, podes crer!
Mas não digas nada a ninguém, por favor!
Já sabes que a minha boca é um túmulo
Ok. Adeus. A gente vê-se. Venho cá muitas vezes
Também eu. Quase todos os dias.
Saí reprimindo um sorriso de gozo. Acreditaste em mim e no nome da escritora  inventada no momento, com o único intuito de me ver livre de ti. Estávamos pagos. Tu andaste a fingir durante semanas que não me vias. Ou não me reconhecias.  Empate. Pelo menos até que a tua língua de trapos comece a pronunciar o nome repetidamente em “off”e  acabes por descobrir que a mulher de que te falei não existe. Mas tu não darás nunca parte de fraca. Insistirás junto do teu círculo de amigos/conhecidos que é um segredo muito bem guardado e foi um teu amigo de infância- "ghost writer" responsável por alguns  sucessos editoriais em Portugal-  quem te falou dela.

Cá fora o ar estava quente, mas o  céu toldara-se, escondendo o sol que  iluminara as primeiras horas da manhã. Estuguei o passo. Quando entrei no meu gabinete, fiz rewind. Vi-te  menina de 15, 16, 17  anos, longa cabeleira loira e soquetes, única no grupo a participar com os rapazes nas corridas de carros de sabão e outras brincadeiras onde menina não entrava. Tu eras a excepção. Não só pela coragem que revelavas. Era também uma forma de compensarmos  a tua disponibilidade para nos apagar os ardores juvenis. Enquanto todas as outras se diziam meninas de um homem só, sonhavam com o casamento de véu, grinalda e flor de laranjeira, um marido para toda a vida, resistiam semanas a um beijo e meses a uma mão atrevidota subindo-lhe pelas pernas, tu eras mais aberta. Não só permitias rapidamente generosos momentos de àvontade, como gostavas de ser tocada pelos rapazes que te procuravam, com quem simpatizavas.  Na aldeia onde passávamos alguns dias de férias eras conhecida por menina das soquetes, por seres a única que ainda as usavas naquela idade. Entre os rapazes, por menina das baldas. Mas só aqueles que nunca te tocaram com um dedo e sempre rejeitaste usavam a expressão, como forma de se vangloriarem de feitos nunca conseguidos. Os que sentiram bem de perto o cheiro dos teus cabelos loiros, tocaram os teus mamilos enrijecidos, sentiram o calor dos teus beijos e entrelaçaram a sua língua na tua, em viagem exploratória do amor, nunca ousaram pronunciar tal frase.
Quase meio século depois, tu és uma pessoa de sucesso. Nenhum dos que naquele tempo encontraram no calor do teu corpo forma de aliviar as pulsões juvenis, atingiu qualquer notoriedade. Tudo gente mediana. Talvez a sede de sucesso e a necessidade de protagonismo, tenha sido apenas mais uma forma de te vingares de nós…


8 comentários:

  1. Escritor fantasma?!
    Não foi preciso um para escrever tão bem, estas memorias e reencontro

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  2. A menina dos soquetes é muito parecida com a Maria da Assunção Andrade Esteves!!!

    E o Zé Lamego é um caso para esquecer.

    Realidade ou Poesia?

    Não interessa!

    Uma excelente história como nos velhos tempos em que o Carlos me deliciava com as suas histórias belas e poéticas.

    Beijinho de agradecimento!

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    1. Não conheci essa senhora quando era menina e moça, Ematejoca.
      Vou esforçar-me para voltar a deliciá-la, minha amiga. Vamos lá ver se há tempo e, principalmente, inspiração!

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  3. Confusa e desiludida :)))
    "Engoli" a história como facto verdadeiro e vivido por si!
    Afinal é tudo imaginação...
    xx

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    1. TUDO imaginação não é, Papoila!

      Na escrita do nosso amigo Carlos há sempre um casamento entre a imaginação e a realidade, assim como na escrita dos maiores nomes da literatura mundial.

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    2. Não é tudo imaginação, não, Papoila. A cena foi real, apenas acrescentei uns pozinhos da minha lavra.

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  4. Gostei desta menina dos soquetes. Com ou sem imaginação, pareceu-me real, de carne e osso... :)

    Beijocas

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