sexta-feira, 25 de abril de 2014

Abril no feminino: conta-me como foi!


Porto, 25 de Abril de 2014
Ana celebra hoje o  60º aniversário. Assinala a data organizando um jantar em sua casa, para o qual convida as mulheres da sua vida:  mãe,  filha, neta, melhor amiga, sobrinha e  criada que servia em casa da mãe e a viu crescer.
Quando já estão todas sentadas à mesa, Luísa ( a amiga de toda uma vida) oferece o seu presente: uma fotografia tirada na Praça dos Leões, na manhã de 25 de abril de 1974, quando Ana saía do eléctrico para ir para a Faculdade.
A fotografia desperta uma série de recordações nas duas amigas, na mãe de Ana e na empregada Rosa.   É  entre estas recordações cruzadas do final dos anos 60 e da década de 70 ( as jovens ficam perfeitamente aturdidas e embasbacadas com os relatos)  que decorre grande  parte da trama da série “Mulheres de Abril” em exibição desde segunda –feira na RTP 1.
Produzida com fracos recursos,  espécie de prolongamento de “Conta-me como foi”,  esta série que passou quase despercebida retrata um certo estilo de vida portuense  antes e depois do 25 de Abril de 74.  As diferenças entre “Mulheres de Abril” e  “ Conta-me como foi” são marcantes.  Não só porque as  vivências  no Porto e Lisboa eram, à época,  separadas por abissais diferenças de mentalidade, mas também porque os  protagonistas centrais são descendentes de uma familia de comerciantes transmontanos de sucesso. Novos ricos com outro tipo de problemas e diferentes experiências de vida da família central de "Conta-me como foi".
Apesar de todas as limitações,  “Mulheres de Abril” – cujo último episódio será exibido esta noite- é uma agradável viagem de quase cinquenta anos centrada nas mulheres, que retrata a evolução das mentalidades e das formas de vida, mas também dos direitos das mulheres portuguesas. Particularmente impressivo foi o terceiro episódio ( o quarto não vi, porque estava a celebrar Abril na rua). As desavenças  provocadas  pela consciencialização opção política desuniram famílias e ceifaram amizades que pareciam ser eternas; a contradição entre as opções políticas e os comportamentos machistas dos jovens de extrema-esquerda; a revolução sexual; a  incapacidade de assumir  algumas responsabilidades ou o comportamento "revolucionário" de saudosos do salazarismo são alguns dos temas abordados neste episódio.
Quanto à limitação das liberdades antes do 25 de Abril, é  provável que as mais jovens pensem que se trata de ficção e não será caso para menos. Quem vai hoje acreditar que era obrigatório ter licença de isqueiro, que as mulheres não se podiam ausentar do país sem autorização dos maridos, ou  mesmo que atravessar a fronteira para ir comprar caramelos Solano a Espanha era uma aventura que poderia durar um dia inteiro?
Todas as semanas, nas minhas tertúlias com jovens sobre o século XX, os vejo abrirem a boca de espanto. Incrédulos com tanto atraso, tanta proibição e mentalidades tão tacanhas...
Apesar de alguma superficialidade na abordagem dos temas - admissível numa série de cinco episódios-  "Mulheres de Abril"  vê-se com agrado e cumpre a sua função: avivar a memória dos que viveram o 25 de Abril e mostrar aos mais jovens ( especialmente a elas) como era diferente a vida  em Portugal antes da Democracia.

7 comentários:

  1. Lamento não ter visto.
    Na RTP 1 apenas tenho visto "Quem quer ser milionário".

    Beijinhos.

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  2. Também eu tenho muitíssima pena de não visto.

    Há ainda muitas mentalidades tacanhas por aí, meu caro Carlos, e a situação da MULHER não melhorou muito com a Revolução dos Cravos.

    Porém, 25 de ABRIL SEMPRE!!!

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  3. Nestes dias de férias tenho visto ainda menos TV e também não vi esta série.

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  4. Também me passou ao lado...vou ver se ainda se pode repescar!
    Obg, Carlos.
    xx

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  5. Estou como a Papoila...passou-me ao lado!

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  6. Pelos comentários anteriores parece que pouca gente viu o documentário citado, também não vi... é o resultado de quase não ligar a televisão e muito menos ter paciência para "espreitar" qualquer um dos nossos 4 canais... um desencanto.

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  7. Eu vi todos os dias, gravado porque já tinha terminado quando chegava a casa do trabalho (conquista de Abril, talvez) gostei na generalidade. Há uma coisa que me incomoda um pouco nestas celebrações de suposta memória nacional que é precisamente o facto de não se levarem em contas as diferenças regionais, de classes, de acesso à informação...
    Achei que a bordagem foi, de facto, superficial, mas para ficção a dose não foi má, achei que as duplas de actores para cada personagem (jovem e idade adulta) deviam ter sido melhor trabalhadas mas no geral gostei ... mais produção nacional, fora de Lisboa é o que desejo

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