terça-feira, 8 de abril de 2014

Bolo de chocolate ( amargo)




Os velhos estão na sala, cosidos aos sofás, cumprindo mais uma etapa da viagem que  terminará, inevitavelmente, numa etapa com meta na morte. 
A assistente social e a psicóloga estão numa acção de formação, por isso, naquela tarde, os velhos ficam entregues a si próprios. Uns dormem  sob o efeito de analgésicos, ou do tédio; outros têm o olhar fixo num ponto distante, onde  projectam memórias do passado. De um passado em que também foram jovens com tantas ambições como os jovens de hoje, mas sem recursos para as concretizarem.  Ou sem direitos para as exigirem…
Na sala há dois televisores mudos, suspensos das paredes, que vão emitindo imagens. Alguns velhos olham para os televisores sem verem as imagens. Outros olham para a chuva a bater na vidraça.
Há também um velho que se descoseu do sofá e deambula pela sala numa cadeira de rodas. Aproxima-se de um dos televisores e pára.
 O televisor vai "sobrevoando" uma ponte, quando a coordenadora do Lar entra na sala. Decide fazer um número de animação – quiçá para impressionar o único visitante que se encontra na sala- e pergunta ao velho de olhos fixos no televisor:
- Está a gostar do programa? Então diga lá como se chama esta ponte?
- 25 de Abril- responde o velho sem hesitar
- Ah!Ah!Ah! 25 de Abril? Então acha que essa ponte se chama 25 de Abril? Ei, meninos e meninas, quem é que sabe como se chama esta ponte?
Alguns olhos abrem-se. Olham para  o televisor, para a mulher loira e voltam a fechar-se.
Frustrada, a mulher insiste:
- Então não conhecem esta ponte? Nem sabem qual é o rio?
....
 O rio é o Tejo. E a ponte?
....
É a ponte Salazar, não é?
- O homem da cadeira de rodas resiste.
- Não! É a ponte 25 de Abril!
- Ó senhor! Então o 25 de Abril fez alguma ponte? Quem fez a ponte foi o Salazar!
O homem da cadeira de rodas vira as costas ao televisor enfrenta a mulher loira, eleva a voz rouca e replica:
- O Salazar não fez ponte nenhuma! Quem fez a ponte foram os trabalhadores!
A mulher loira, traída pela perspicácia do velho, não desarma:
- Está bem, foram os trabalhadores. Mas quem pagou aos trabalhadores para fazerem a ponte?
O homem da cadeira de rodas vira-lhe ostensivamente as costas. Uma mulher abre os olhos e, interrompendo o silêncio, responde:
- Fomos nós!
O visitante esboça um sorriso que se transforma numa gargalhada. A coordenadora ruboresce. Volta à carga, desafiando ostensivamente o visitante:
- Os comunistas é que lhe chamaram 25 de Abril, mas a ponte é Salazar. Foi o único político que entrou para lá  pobre e saiu  de lá tão pobre como entrou. 
Depois interpelou a sala à procura de apoios:
- Ora digam lá! Houve mais algum político em Portugal- e se calhar até no mundo-  tão honesto como Salazar?
Ninguém respondeu.
A mulher loira lançou um olhar de desafio ao visitante
-É assim mesmo! Quem cala consente, não é verdade?
O visitante sorriu. Um sorriso de desdém e compaixão, que a mulher loira percebeu ser-lhe dirigido.
- Pronto, são quase horas de jantar. Hoje há bolo de chocolate.

5 comentários:

  1. Velhos mas lúcidos. Ao resto, sorrir. Mais, nem vale a pena.

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  2. Eu não gosto de bolo de chocolate, mas então deste é que não gosto mesmo nada.

    MUITÍSSIMO AMARGO!!!

    "O Salazar não fez ponte nenhuma! Quem fez a ponte foram os trabalhadores!"

    Lembra-me um poema do Bertold Brecht.

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  3. Mas ainda hoje há quem suspire (MUITO!!!) pelo senhor de Santa Comba, Carlos :(

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  4. ~ Mas não concordo com o nome da ponte, parece anedota.
    ~ Dar o nome a uma anedota, não dignifica o nosso o 25 de Abril!
    ~ Eu batizar-la-ia como Ponte da Memória, da Tristeza, do Trabalhador...
    ~ Pormenoes de sentido estético...

    ~ ~ ~ Um bom dia. ~ ~ ~

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  5. Um post que me tocou!

    Bolo de chocolate amargo.

    Beijinhos.

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