quinta-feira, 10 de abril de 2014

Da menosprezação do pedal



Ao final da tarde estava eu no  bar, à espera do entrevistado. Fora o próprio a sugerir que a entrevista se realizasse ali, por ser um local sossegado onde poderíamos conversar à vontade.
Pedi um ginger ale com gelo e uma rodela de limão. ( Nunca bebo álcool antes de uma entrevista) O empregado fez acompanhar o pedido de uma generosa dose de amendoins e pipocas.  Como complemento, aumentou o volume de som do televisor, para que eu pudesse desfrutar melhor o momento. Nada de notícias. Pela pantalha, desfilavam apenas ciclistas esforçados por pavées  sinuosos e um carrocel de estradas lamacentas.  A prova entrara nos derradeiros dez quilómetros e o esgar de esforço do grupo da frente denotava o desgaste a que os ciclistas já tinham sido submetidos. A câmara mudou de plano e focou demoradamente dois ciclistas que se tinham adiantado ao grupo perseguidor, onde não se encontravam os favoritos. Esses iam no grupo que acelerava o ritmo na tentativa de apanhar os fugitivos.
O jornalista, apostado em mostrar aos telespectadores  conhecimentos  sobre a matéria, ia debitando dados estatísticos. Para ele era dado adquirido que os fugitivos não seriam apanhados na escassa dezena de quilómetros que os separavam da meta.
Mais comedido, o comentador-  ex-ciclista- asseverava que não se podia menosprezar o valor e a combatividade de dois dos favoritos que iam no encalço dos fugitivos e ainda por cima contavam com a colaboração dos restantes elementos do grupo perseguidor.
Não convencido, o jornalista ripostou: Não é um problema de menosprezação
Eu, telespectador pouco familiarizado com estas coisas, respondi:
- Pois não filho…o problema é mesmo não saberes falar português.
O empregado riu-se. O entrevistado chegou. O televisor emudeceu. A música de fundo entrou em cena.
Poucos minutos depois começámos a entrevista. Pelo canto do olho ainda pude ver os fugitivos  serem apanhados pelos perseguidores, a escassos metros da meta.
Não sei se foi um dos favoritos a ganhar a prova, mas sei que o comentador ganhou ao jornalista. Terá admitido que afinal o problema estava mesmo na menosprezação?

5 comentários:

  1. Depois da Assunção falar em inconseguimento, qualquer jornalista se sente tentado a inventar a sua própria palavra. São todos assim uns Mias Coutos, mas a dar para a cópia barata... :)

    Beijocas

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  2. eu respeito muito os pedais,
    tanto que não ouso desafiá-los

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  3. Não sabia que o Jorge Jesus comentava ciclismo :)))

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  4. Nem sempre quem ganha é quem se esforça a pedalar :)

    beijinho e bom fim de semana

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  5. Efeitos do acordo ortográfico :):):)...

    Beijinhos.

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