sábado, 5 de abril de 2014

Porque hoje é sábado


 Os ombros suportam o mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas dos teus amigos.

Pouco importa que venha a velhice, que é a velhice?
Os teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, acham bárbaro o espectáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

3 comentários:

  1. A vida apenas, sem mistificação é uma aprendizagen solitária.

    ResponderEliminar
  2. Até costumo gostar de Drummond de Andrade, mas aqui parece-.me muito desencantado...

    Vale que hoje já é domingo! :)

    Beijocas

    ResponderEliminar
  3. O desânimo num belo e real poema!

    Não conhecia.

    Beijinhos.

    ResponderEliminar