sexta-feira, 30 de maio de 2014

Já não há praias debaixo da calçada



Maio chegou ao fim e, pela primeira vez desde que ando na blogosfera, não li um único post sobre o Maio de 68 - apesar de ter sido neste mês de Maio de 2014 que Cohn Bendit  anunciou a sua retirada da vida política.
Não sou  saudosista. Muito menos em relação àquele mês que a geração de 60 içou ao altar do mito. Mas, porque hoje ao almoço tive uma conversa sobre esse mês que perdura na memória de muitos, decidi que o post de hoje lhe seria dedicado.
O  “movimento libertador de Maio de 68” acabou com uma gigantesca manifestação de apoio a De Gaulle e isso diz quase tudo acerca dos seus resultados em termos políticos. Poder-se-á dizer que, acima de tudo, Maio de 68 foi uma revolução cultural. Igualmente discordo, pelo menos enquanto português. Os efeitos do Maio de 68 só se sentiriam muito levemente em Portugal no ano seguinte e a liberdade cultural que trouxe a Portugal foi rapidamente cerceada com um conjunto de medidas legislativas de Marcelo Caetano, que culminaria com a publicação do Decreto-Lei 520/71.
O nosso Maio de 68 foi o PREC, sete anos mais tarde. A minha revolução foi o 25 de Abril de 74. Do Maio de 68 preservo a estética. Não tanto pelos cartazes ( fez-se por cá muito melhor durante o PREC e alguns murais são autênticas obras de arte), mas sim pelas fotografias. (As duas que eventualmente mais me marcaram foram as que servem de abertura a este post e retratam Caroline de Bendern – o verdadeiro espírito da revolução- e Cohn-Bendit- o símbolo da irreverência).
Quanto ao resto, estou do lado de Cohn-Bendit. “É preferível esquecê-lo, a lembrá-lo”, escreve ele em “Forget 68”.
Não poderia estar mais de acordo. Ao recordar Maio de 68 parece haver uma tendência para adulterar a realidade e conferir-lhe uma dimensão que nunca teve. Na verdade nunca houve “ uma praia debaixo da calçada”. Houve apenas uma amálgama de irreverência e devaneios juvenis, com consequências que não merecem muito a pena ser lembradas, salvo se pretendermos “dourar a pílula”.
Querem apenas um exemplo? Então aqui vai. No Maio de 68, gritavam-se “slogans” sobre a liberdade sexual. Quarenta anos mais tarde, é mais fácil acabar com a carreira de um político ( ou uma figura pública) denunciando a sua infidelidade amorosa, do que acusando-o de corrupção.
Pensar sobre o que se terá perdido, entre duas gerações, é o desafio que vos deixo para o fim de semana.
(Aproveitem, porque vai estar sol e calorzinho!)

2 comentários:

  1. Caro CBO,
    sob o meu ponto de vista, creio que não houve nada perdido entre as duas gerações que mediaram as manifestações de Maio de 68 e o tempo actual. Os slogans gritados, maioritariamente, pelas mulheres de então, foram um grito de revolta e o tentar quebrar a 'castração' sexual que diferenciava o homem da mulher.
    Ora, isso, parece-me não ter nada a ver com o adultério, a traição e deslealdade conjugal, certo?
    Nem em 68 nem em 2014...

    E, agora, vou aproveitar o sol e o calorzinho. Vá também!

    A Morgadinha

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  2. Maio de 68 passou-me ao lado, pois vivia em Luanda.

    Beijinhos.

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