quinta-feira, 22 de maio de 2014

O anti-ciclone das emoções

Foto da Net ( Meteo)


Hoje levantei-me cedo. Quando através da janela vi um céu  azul imaculado, pensei que a chuva  decidira partir para outras paragens. Sorri! Liguei a televisão. Desenganou-me. Uma senhora anunciava, com voz triste de proboscídeo no Jardim Zoológico, que Portugal está a ser atravessado por uma depressão e, lá para a tarde, a chuva desabará novamente sobre Lisboa. 
Depressão! Conheço- a desde miúdo, graças ao Anthímio de Azevedo. Percebi que não era boa peça, quando o ouvi dizer que, associada a um anti-ciclone, determinava o estado do tempo em Portugal. Depressão e anti ciclone tornaram-se vocábulos tão familiares, cujos efeitos misteriosos não me cansava de querer desvendar, que me dava ao gozo de anunciar frequentemente aos amigos que a previsão do Anthímio de Azevedo estava errada,já que pelos meus conhecimentos de Meteorologia, adquiridos entre leituras do José Mattoso e sebentas do Soares Martinez, poderia adivinhar, sem receio de erro, que o estado do tempo, no dia seguinte, seria contrário aos que as previsões meteorológicas anunciavam.
O mundo deu muitas voltas desde então. A partir de determinada altura a depressão passou a fazer parte do nosso léxico como uma doença dos tempos modernos, o anticiclone ( nos anos 60 de localização previsível, de acordo com as estações do ano) iniciou-se nas danças dos Alunos de Apolo e passou a vaguear pelas estações do ano, como qualquer meretriz passeia pelos bordéis da vida.
E eu? Eu, feito andarilho, passeei-me pela vida, prevendo o futuro em Londres entre “draughts e fish and chips” com a “Lucy in the Sky with Diamonds” a tiracolo, em “brunches” em Washington, “dulces de leche” ingeridos gulosamente aos sons do tango tocado nas ruas de Buenos Aires, ou na mira de encantar sereias nos “fjords” na Escandinávia. Ainda tive tempo para pressentir “in loco”, entre dois "cevapcici" degustados com avidez pelas ruas de Ljubliana, o descalabro dos Balcãs, os efeitos da queda do muro de Berlim, ou prever o sucesso do “porco preto” em terras lusas, enquanto subia de piroga o rio Sepik, na Papua Nova Guiné.
O meu erro foi pensar que este meu sentido premonitório duraria a vida inteira. Assim fosse, e ainda hoje estaria a passear pelo Camiñito ou no doce remanso de Macau, usufruindo os prazeres do Oriente, entre poemas de Pessanha e o doce convívio com uma chinesa que me falava de Confúcio ( personagem que à época alguns portugueses aí residentes confundiam com uma marca de preservativos).
Mas errei e, recorrendo ao privilégio de que apenas os incautos podem usufruir, decidi regressar a Portugal, num fim de tarde em que o panorama que desfrutava da esplanada do Bela Vista se tornou, subitamente, demasiado curto para mim. Ao princípio, confesso, o prazer de reviver locais noutros tempos frequentados, foi atenuando a mágoa do regresso.  Num átimo, porém, descobri que Portugal já não era mais do que “ um país inventado” que fui construindo ao longo do tempo.
E, de um dia para outro, descobri outro significado da palavra “depressão”.
Hoje em dia, significa um País onde impera a Lei do “salve-se quem puder”. Quando olho o Atlântico a partir das praias do Guincho, já não vislumbro caravelas em busca de novos mundos, mas um mar triste e sem segredos, esventrado por barcos a abarrotar de turistas e baleeiros predadores, ou emporcalhado por petroleiros que se aliviam nas suas águas, com a mesma desfaçatez com que uma prostituta abre as pernas ao camionista na berma de uma estrada.
Aquele meu “País Inventado” a partir das leituras de Isabel Allende, já não existe porque nele se acotovelam, como num mar esquálido, a lixa e a lixinha -da –fundura, lado a lado com o galhudo e a sapata, num frenesim de auto destruição. Como acontece no fundo daquele mar, neste País que reinventei a partir das lonjuras do Oriente e de um passado andarilho, acotovelam-se oportunistas, carreiristas, dirigentes de vão de escada e políticos feitos à pressa com créditos bonificados, circulando em “limousines”, ou acumulando milhas no Qualiflyer, e uma massa imensa e disforme de pequenos irmãos Metralha apenas preocupados em enriquecer a qualquer custo e desprovidos de qualquer lisura ou noção de cidadania que vá para além daquela que lhes confere o cartão de crédito Gold.
O consumismo atascou-os em contos de Aladino com lanternas mágicas por inventar, em Botas de Sete Léguas sem solas para caminhar ou em “Casas de Chocolate” que se derretem no momento em que o dardejar dos primeiros raios solares da inveja atinge as suas janelas.
Percebi, depois de várias voltas ao mundo, que quis regressar a um País de Contos do Fantástico, onde mais vale ser Tio Patinhas dos analistas económicos , Cinderella de revistas cor de rosa, ou Capitão Gancho nas primeiras páginas dos tablóides, do que um dos honestos Três Porquinhos.
Descobri isso ao acordar e percebi o verdadeiro significado da palavra “depressão”. Aguardo, ansiosamente, a chegada do anti-ciclone.

Aos leitores: Texto reeditado e actualizado. O original foi publicado no Crónicas do Rochedo em 2008

4 comentários:

  1. ~ Gostei do seu texto, está muito bom.
    ~ Parabéns pela sua vida de andarilho que faz de si um "tuga" previlegiado.
    ~ Quanto aos valores morais do nosso país, andamos todos com esperança que seja, apenas, uma fase de turbulência e que brevemente voltaremos aos bons costumes. (mas não aos brandos... )

    ~ ~ ~ Continuação de uma vida interessante e bem sucedida. ~ ~ ~

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  2. - Venha, anti ciclone, te espero há tempos!!!
    Sei bem do que fala :o)
    Beijinhos

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  3. O anti-ciclone que chega amanhã é apenas uma variante do anterior...

    Adorei o texto.

    Beijinhos.

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  4. há-de chegar, vem do Atlântico como todas aquelas figuras mitológicas de outrora...

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