quarta-feira, 11 de junho de 2014

A ternura dos 40


Uma  amiga completa hoje 40 anos.  À hora do almoço, com vista para o mar da Foz,  dizia-me que  tinha ido ver os Rolling Stones ao Rock in Rio e no dia seguinte, ao  acordar, sentindo-se sem vontade de ir trabalhar, receou  pela primeira vez  entrar nos “entas”, “a fase final da vida”.
Primeiro ri-me. Depois, disse-lhe que estava  na melhor fase da vida e a devia aproveitar bem até aos 60. A partir daí é que as coisas se complicam, pois é raro o dia em que não nos dói qualquer coisa.
Confessei-lhe que  tive o mesmo receio no dia em que fiz 40 anos mas hoje, olhando para trás,  constato que o melhor período da minha vida foi entre os 35 e os 50. Foi a minha fase de ouro, quer em termos profissionais, quer afectivos.
Ela não estava muito convencida. “ Os gajos agora só querem miúdas!  Ninguém liga a quarentonas”- disse-me entre duas gargalhadas.
 Foi então que tirei do bolso um presente que lhe comprara por brincadeira: "A ternura dos 40" do Paco Bandeira. Ela voltou a rir-se e elogiou-me a originalidade. Confessei-lhe que não fui original. Estava em Macau quando fiz 40 anos e duas amigas ofereceram-me uma cassette com gravações de músicas e poemas alusivos aos 40 anos. Paco Bandeira abria o desfile. Fiquei, pois, muito aquém da originalidade das minhas amigas, mas desculpei-me com o facto de hoje em dia já não existirem cassettes.
Depois, mais a sério falei-lhe da  lição que me deu uma namorada vietnamita, quando eu acabara de entrar nos 40

Num amanhecer tropical, entre fogosos amores suados pelo calor húmido de Vanuatu, declarei-lhe fidelidade eterna. Olhou-me com um misto de doçura e compreensão e disse-me no seu linguarejar mesclado de bislama e inglês:
"Depois dos 40 anos podemos amar, dar prazer ao corpo, mas não podemos fazer amigos. Esses são os que cresceram connosco. Eu quero voltar a My Lai, reencontrar os amigos que perdi pelo caminho, tu nunca irias comigo. E se fosses, depressa te vinhas embora, porque não pertences a My Lai, nunca perceberás as pessoas que lá vivem em constante revolta, pelo massacre e abuso de que foram vítimas. Nunca poderás confiar cegamente em pessoas que não fizeram o teu percurso".
Engoli em seco. Lembrei-me que An Mei estava ali comigo, porque na manhã em que os americanos tinham atacado My Lai tinha ido com a mãe ao mercado para comprar comida, escapando assim ao massacre. Meses depois An Mei regressou ao Vietname. Fui até Phukett, durante uma semana,  curtir em álcool as agruras da rejeição. Nunca esqueci aquela manhã. Gostaria de a voltar a encontrar numa dessas curvas da vida. Não por sentir desejo de voltar a amar daquela forma que só a ternura e sabedoria dos 40 alcança, mas para dizer a An Mei que nunca mais esqueci aquela frase e que hoje percebo, melhor do que nunca, que ela tinha razão."

Não sei se consegui convencer a minha amiga de que os 40 são uma idade maravilhosa, mas fez-me bem ter recordado este episódio com An Mei...

9 comentários:

  1. Se a amiga do Carlos não ficou convencida, talvez não consiga perceber ainda que realmente depois dos 40 se começa a ver a vida com olhos de ver, dá-se valor às pequenas (grandes) coisas.
    Quanto ao episódio, penso que An Mei tinha razão, emocionou-me imenso, talvez seja dos "entas", talvez.

    Beijinho e uma flor

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  2. Carlosamigo

    Crónica linda, linda, linda. Recordação de crónica, linda, linda,linda. E já vou a caminho dos 73...

    Abç

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  3. Ah, Carlos, desculpe lá, mas se sossegou a sua amiga, a mim só me inquietou: a partir dos 60 todos os dias dói qualquer coisinha?!? Ui, que essa doeu... e ainda não cheguei lá! :)

    Mas gostei muito do ensinamento da sua namorada vietnamita... ;)

    Beijocas

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  4. Mesmo nos cinquenta, por vezes já dói qualquer coisinha. :)

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  5. Eu gostei dos quarenta e gosto dos sessenta!!!!
    A idade não me preocupa minimamente as dores as aflições, inquietações desilusões há-as em todas as idades.
    Só desejo ter sabedoria para relativizar as coisas...
    Espero que a sua amiga perceba rápidamente que deve escolher ser feliz....
    xx

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  6. Vou completar os 50 daqui a poucos dias.
    E, tal como o Carlos, a melhor fase da minha vida, a nível pessoal e profissional, veio bem depois dos 30.
    Estou cansado de repetir isto.
    Os achaques que vamos tendo, as juntas que precisam de ser oleadas de quando em vez, em nada invalidam esta linda fase da vida.

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  7. Eu já ultrapassei os 70 e continuo amando a vida como quando tinha 40.
    Penso, que os 50 ou mesmo 60 tenham de ser de sofrimento físico. Nós somos aquilo que metemos nesses anos e as juntas doem precisamente por isso.
    Claro que quanto ao amar com a ternura dos 40 já é outra história.

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  8. Pode viver-se bem com qualquer idade, quanto a amores sou pouco versada!
    O homem com quem casei aos 22 continua a ser o mesmo! :)
    E não é que eu gosto muito dessa canção do Paco...tendo deixado de gostar dele por causa das confusões dos seus amores e desamores?!

    Abraço

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  9. Dos 35 aos 60,sem dúvida!!!

    Beijinhos.

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