terça-feira, 3 de junho de 2014

When life becomes a Tango


Como todos  saberão, adoro Tango. Sinto, por isso, uma imensa tristeza, por ser um pé de chumbo irrevogável . 
Isso não impediu que a Laura insistisse em me introduzir nos meios tangueros quando eu vivia em Buenos Aires. Debalde. O corpo nunca conseguiu sincronizar-se com o ritmo nascido nas tabernas de La Boca.
Não perdi, no entanto, a oportunidade de participar nas  tertúlias  que proliferavam em Buenos Aires, nos anos em que se começou a preparar a candidatura do Tango a Património Mundial da Humanidade. 
Uma noite, veio à baila a discussão sobre eventuais raízes comuns entre o Fado e o Tango, mote que serviu para um trabalho académico que, anos mais tarde, viria a realizar.
Tive oportunidade de esclarecer os meus amigos argentinos que o Fado era considerado, após o 25 de Abril, como manifestação musical fascista e Amália Rodrigues  acusada por alguns grupos intelectualmente diminuídos,  de ter sido informadora  da PIDE.
A minha intervenção caiu como uma bomba no meio tertuliano, maioritariamente constituído por pessoas de esquerda, mas depressa foi assumida como uma das excentricidades das esquerdas fundamentalistas, pouco lúcidas e aniquilosadas. Tango e Fado seguiram o seu percurso, acabando ambos por ser erigidos a Património Imaterial da Humanidade. Merecidamente.
Vem isto a propósito de uma notícia que me chegou esta manhã, enquanto esperava num consultório médico, a vez de ser atendido: na sequência  do Festival do Fado, que se realizou este fim de semana em Buenos Aires, o dia 6 de Outubro, dia da morte de Amália Rodrigues, passará a ser, na Argentina, o Dia do Fado.
 Os fantasmas foram exorcizados- pensei com os meus botões.
Quando a balzaquiana me chamou para ser atendido, estranhou o meu sorriso e a espontaneidade com que abri a boca para que ela a vasculhasse à vontade. Expliquei-lhe então as razões da minha satisfação e devolveu-me o sorriso. Fugaz, como sempre, mas renovando-me a esperança de que um dia possamos dançar o Tango (…)
Quando saí, liguei o telemóvel. Tinha uma mensagem da Laura. Aprestei-me a responder à chamada, para ouvir de viva voz a sua alegria e poder partilhar com ela o momento. Assim foi. O que eu não esperava era que a notícia viesse acoplada com um convite para estar presente no dia 6 de outubro em Buenos Aires.  Hesitei entre começar a fazer as malas ou voltar atrás para dar a notícia à balzaquiana.  Nem uma coisa nem outra. Continuei a descer a Braancamp e, quando cheguei ao Marquês, entrei no Metro a levitar. 

6 comentários:

  1. Hummmmmmmmmmmmm...imagino o teu levitar...mais pela Laura que pela Amália!!! Acertei???

    Prefiro, de longe, o tango ao fado!

    Beijinhos.

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  2. Não Elisa. A Laura é uma argentina amiga de longa data, minha comadre e editora. Não fosse a madrasta da vida seria minha cunhada, mas a ditadura argentina não deixou.
    Já escrevi alguns episódios passados com ela no CR. E também aqui, no resclado de uma noite de Natal:
    http://cronicasontherocks.blogspot.pt/2012/12/noite-de-natal-em-pinamar.html
    Beijinhos

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  3. Ohhhhhhhhhhhhhh...já estava a imaginar uma noite romântica ao som do tango!

    Vou ler o artigo.

    Beijinhos.

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  4. Ou as cáries eram muitas ou o tratamento se arrasta por razões que não vêm ao caso. Dois anos volvidos e ainda anda a escancarar a boca para que a brasa balzaquiana lha escarafunche à vontade?
    Não seria melhor optar pela implantação? É rápido, fácil e definitivo! Pense nisso...desta vez não versejou , mas levitou. Pior um pouco!
    O melhor é fazer as malas e ir dançar ou ouvir o tango acoplado com o fado...em Buenos Aires.

    Desculpe, mas como não quero arriscar levar uma rabecada, vou ficar no semi-anonimato.

    Sou a chata do costume, lá dos Canaviais.

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  5. A Amália informadora da PIDE, a Académica uma instituição ligada ao antigo regime.
    Disse-se cada coisa nesses anos, Carlos!!
    Enfim, já lá vai.
    Mas não se pode esquecer.

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