terça-feira, 26 de agosto de 2014

Mergulhado num diálogo zen que terminou com uma dúvida!


Depois dos mergulhos as crianças ficam assim

No sábado, seguindo o ritual de todos os dias, a minha mãe perguntou-me:
- Quantos são hoje?
- 24 de Agosto, mãe.
- Tomaste banho?
- Claro que tomei! Porque perguntas? Cheiro mal?
Riu-se. Depois continuou
- A água estava fria?
- Como sempre no Verão, a princípio estava quente, mas no final estava fria. Não dispenso uns segundos de água fria no final do banho, quando estamos no Verão.
- Tomaste banho aqui em Cascais?
- Não, mãe, tomei em Lisboa!
- Em Lisboa? Onde é que tomas banho em Lisboa?
- Em casa, na banheira, mãe... onde havia de ser! 
Voltou a rir-se
- Não era desses banhos que estava a falar. Era do banho de mar!
-  É muito raro tomar banho de mar nestas águas frias, mãe. Em miúdo ainda lá ia, mas agora...
- Então não tomaste banho hoje...
- Não! Porque é que havia de tomar?
- Não disseste que hoje é dia de S. Bartolomeu?
- Não sei, mãe. Sei que é 24 de Agosto...
O semblante dela fechou-se num misto de tristeza e reprovação. 
-Já esqueceste o que te ensinei?
- O quê mãe?
- No dia de S. Bartolomeu deve-se tomar  banho de mar.
- Porquê, mãe?
(Pausa
- Não sei, já me esqueci!

Dez minutos depois voltou a perguntar-me que dia era. O diálogo podia ter-se repetido, mas optei por mentir-lhe. Disse que tinha tomado banho e queixei-me que a água estava gelada. 
- Mas faz-te bem, meu filho. Daqui a uns anos  vais agradecer à tua mãe ter insistido para que tomasses banho neste dia.
Chegou a minha vez de fazer uma pausa. O meu rosto deve ter-se fechado, mas disso não me apercebi.
No domingo fui procurar informações sobre o dia de S. Bartolomeu e fiquei a saber o seguinte:
No dia 24 de Agosto, dia de S. Bartolomeu,  é tradição que todas as crianças sejam obrigadas a dar um número ímpar de mergulhos no mar, para afastar males como a gaguez, a epilepsia e o próprio medo. 
Lembro-me de ter sido sujeito a essas sevícias em miúdo, nas águas geladas de Miramar.  Mas a tradição tem uma segunda parte a que não me lembro de alguma vez ter sido submetido. Depois dos mergulhos, as crianças têm que dar três voltas à igreja, segurando um galo preto.
Pelo que percebi, esta segunda parte só se aplica na povoação de S. Bartolomeu do Mar ( perto de Esposende) mas agradecia aos leitores que pudessem confirmar ou desmentir a  minha suspeita.

19 comentários:

  1. Fico a aguardar pelo esclarecimento.
    : )

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  2. Como fui para Macau com 2 anos nem sei se em Cortegaça havia essa tradição horrorosa!

    Usos e costumes de antanho, alguns a serem recuperados.

    Beijinhos.

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    1. Pelo que li no Google, esta tradição aberrante remonta ao século XIX e mantém-se viva!

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  3. O que sei sobre isso, foi o que vi no telejornal (como se fosse noticia) e foi em Esposende darem banho às crianças no mar, diziam ser "banho santo" não dou importância, nem acredito a essas coisas, que me desculpem aqueles que acreditam, respeito as crenças de cada um.

    Vou aguardar por algum esclarecimento.

    Beijinho e uma flor

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    1. O quê' Esta aberração até teve direito a notícia de telejornal? Minha alma está parva!
      Beijinho

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  4. Não conhecia essa tradição... Curioso é que a sua mãe se tenha lembrado dela, tantos anos depois! Mas dizem que as pessoas de idade se lembram mais de coisas de quando eram novas, do que aquilo que comeram ao almoço...

    Beijocas

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    1. O Alzheimer é mesmo assim, infelizmente, Teté.Lidar com esta situação diariamente não é nada fácil, mas fui-me habituando. E é como diz. Ela não só se lembra do que comeu, como também 10 minutos depois de almoçar, diz que não almoçou. É triste, mas é assim...
      Beijinhos

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  5. Acho muita graça ás coisas que conta da sua mãe. Não conheço essa tradição talvez o Rui do Coisas da Fonte nos saiba esclarecer...
    xx

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  6. Estive aqui a consultar o meu "cara metade" e ele diz que sim, que esse ritual da galinha preta é um uso dessa freguesia... agora se é só lá que se verifica, isso já não sei. O que sei é que naquela freguesia é costume acontecerem algumas coisas bem estranhas... e que têm a ver com práticas que envolvem a morte de galinhas, práticas essas que o pároco local tem tentado erradicar recorrendo a câmaras de vigilância e outras medidas de segurança.

    Beijinhos sem gaguejar
    (^^)

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    1. Obrigado pela informação. Afrodite! Vou ter mais cuidado quando voltar a passar por lá
      Beijinhos amedronrtados

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  7. Eu só respeito Carlos _ mas não acredito e muito menos daria um choque frio nas crianças rs
    O que gostei mesmo foi do diálogo com sua mãe ( não sei se o texto é ficção ), mas que é bonito é.
    E essas coisinhas que elas sabem e curtem também as torna bem interessantes.
    meu abraço

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  8. Não quero que me responda, por favor!

    Só lhe quero dizer o quanto me emocionou esse diálogo que manteve com a senhora sua Mãe.
    Apesar da doença, desejo que Deus lhe conceda, ainda por muitos anos, a imensa
    alegria de a ouvir perguntar-lhe que dia é hoje e se tomou banho...

    A falta de lucidez poupa-o à dor de a ouvir lamentar-se e preocupar-se por si.

    " Não queiras ser velho, meu filho"_ A velhice também pode ser um castigo"

    Nunca esqueci esta vossa conversa, aqui, na casa do Porto.

    Lembra-se daquele fado do Fernando Farinha?

    "Pela mão da minha mãezinha
    Andei em tempos de então
    Hoje, como está velhinha
    É ela que anda p'la minha
    Faço a minha obrigação..."

    Peço desculpa, mas tive de escrever isto.

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  9. O diálogo é enternecedor, Carlos.
    E faz sombra a tudo o resto.

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  10. O diálogo é um mimo, amigo.


    Quanto aos banhos, será que ainda submetem as crianças a essa barbaridade?!

    Bom resto de dia

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    1. Ainda, amiga. E os homens encarregados de dar os mergulhos levam 5€ por criança. Presumo que os galos também tenham um preço...
      ~Uma boa noite, amiga

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