quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Pelo afinar da viola se conhece o tocador


Quando entro num transporte público, fujo de alguém que esteja a comer. Não é por nada… mas não gosto de correr riscos.
Na terça -feira, porém, aconteceu aquilo que receava há muito. A carruagem do metropolitano onde  vinha confortavelmente sentado, encheu nas estações seguintes. Numa das paragens, entrou uma jovem, na casa dos vinte e muitos, vistosa e generosamente despida. A blusa  decotada subida na cintura e as calças descidas, mostravam  deliberadamente a lingerie rendada que lhe acariciava os glúteos. 
Na mão trazia um  copo de café fumegante.  Ficou de pé junto a mim. Tirou da carteira o iphone , que segurou com a outra mão.  Comecei a temer o pior.  Receios que aumentaram, quando percebi que a jovem ia completamente absorvida na sua tarefa de teclar, que acompanhava com goles de café absorvidos através de uma palhinha.  
Aquela postura fez-me recuperar a confiança. A miúda tinha experiência  na matéria e dali não vinha qualquer perigo.  Tranquilizado, mergulhei novamente na leitura. Ao chegar ao Saldanha, o  metro não travou com a suavidade habitual. Não foi uma travagem brusca, mas o suficiente para que a miúda se desequilibrasse e  quase caísse no meu colo. Daí não viria grande mal ao mundo… o problema é que  ela conseguiu manter-se em pé, mas o mesmo não aconteceu com o café que se esparramou em cima das minhas calças e da camisa. 
Explodi! Ia ter uma reunião dali a uma hora, não tinha tempo de voltar a casa para me mudar. Vi a atrapalhação dela. As lágrimas  vieram-lhe aos olhos e deve ter feito um enorme esforço para as conter no dique das glândulas lacrimais. Pediu-me mil vezes desculpa, mas  isso de nada me servia. Chamei-lhe inconsciente, por colocar em risco a tranquilidade dos passageiros, com aquele equilíbrio instável.
- Para se andar de transportes públicos também é preciso um bocadinho de civismo e consciência,sabe?
Não respondeu.
Saiu comigo no Saldanha. Pediu-me que esperasse um segundo. Fez uma chamada. Enquanto falava, olhava para mim e dizia qualquer coisa que eu não consegui perceber. Quando desligou, perguntou-me se podia esperar 10 minutos, para ela me resolver o assunto. Perguntei-lhe em tom meio irado, meio jocoso:
Não me diga que me vai lavar e secar a roupa em 10 minutos!
Não. Só lhe peço que tenha calma. Vem aí uma pessoa que lhe vai resolver o problema.  Vamos esperar aqui ao pé das bilheteiras.
- Trabalha longe daqui?- perguntou-me.
- Não!  É só subir as escadas e atravessar a rua. Mas neste estado… 
- Ah! Óptimo!
Passaram pouco mais de 10 minutos. Um homem mais ou menos da minha idade aproximou-se em passo de corrida. 
O motorista vai levá-lo a casa, espera que mude de roupa e depois trá-lo de volta. Entregue-lhe também a roupa que eu encarrego-me de lha mandar entregar onde quiser. No seu escritório, ou em casa. Desculpe, mas é o máximo que posso fazer.
Agradeci a boleia. Despedimo-nos sem acrimónia e dei-lhe o endereço do meu escritório, embora  já tivesse decidido que eu próprio mandaria lavar a roupa. Sentia-me recompensado com a boleia.
A viagem até minha casa decorreu em silêncio. Aproveitei para telefonar, avisando que iria chegar ligeiramente atrasado à reunião.
No regresso, o motorista perguntou-me:
- O senhor conhece a menina há muito tempo?
- Há meia hora- respondi. 
Contei-lhe o que se tinha passado.
“ Coitadinha da menina. Anda muito destrambelhada. O namorado morreu num acidente de automóvel há um mês. Iam casar em Outubro. O senhor doutor era uma joia de pessoa e a menina nem se fala. Conheço-a desde pequenina. Eu era motorista do pai, o senhor doutor F…., não sei se conhecia …faleceu ano passado. 
Não, não conhecia...
Foi a menina que me levou para a empresa, mas quase nunca usa o carro. Gosta de andar nos transportes públicos (risos) Até  me admirei quando ela me chamou com muita urgência!  
Cheguei à reunião ainda a tempo. À hora do almoço, contei o episódio a dois colegas. Já me consegui rir da situação.
Hoje, ao fim da tarde, vieram entregar-me uma encomenda. Um envelope. Abri. 
Ex.mo senhor:
“ Peço mil desculpas pelo incómodo que lhe causei. Se algum dia quiser passar um fim de semana num dos hotéis da cadeia (…)  não hesite em contactar-me. Terei o maior prazer  em conseguir uma tarifa especial. Nunca mais volto a tomar café nos transportes públicos.
Linda menina!

10 comentários:

  1. Acontece cada uma!!!
    Concluindo: não há mal que sempre dure...
    xx

    ResponderEliminar
  2. Começamos a achar que ela é uma menina mimada e idiota.
    Acabamos a simpatizar com ela.

    ResponderEliminar
  3. Tadinha... Não é que simpatizei com a rapariga. Mas a culpa é do Carlos. O Carlos é que contou a história. :)

    ResponderEliminar
  4. Uma história que valeu a pena ler!

    Um abraço.

    ResponderEliminar
  5. Estes acasos são fantásticos!!!

    ResponderEliminar
  6. Lindíssima!!
    gostei demais dessa menina! e escreves muito bem,Carlos.
    Assim vale a pena se encharcar de cafe´... rs

    ResponderEliminar