sábado, 9 de agosto de 2014

Porque hoje é sábado

A bilha de gás

A última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aquie
só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
Se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já não me fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

Herberto Hélder

5 comentários:

  1. Carlosamigo

    O HH é lixado. Eu, porém, focava com a jovem e devolvia a bilha - não a da menina...

    Abç

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  2. Desta vez , embora a ferros, consegui adquirir uma obra do pai de Daniel Oliveira!!

    E este é um dos poemas que lê no CD,.

    Se fosse palestiniano e vivesse no gueto de Gaza os judeus nazis também o assassinariam - mas com bombas do proibido fósforo branco...

    Amigo, bom domingo.

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  3. Um texto muito profundo, dá que pensar!

    Bom domingo Carlos.

    Beijinho e uma flor

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  4. Deixou-me mais apreensiva do que ando.

    Um texto real, infelizmente.

    Beijinhos.

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