terça-feira, 30 de setembro de 2014

Falta justificada



Quando se levantou naquela segunda-feira, Francisco teve a percepção de que algo iria correr mal durante o dia. Era janeiro, fazia um frio de rachar. O dia estava  cinzento e choviscava, O padeiro não lhe levou o pão. O esquentador avariou e teve de tomar o duche frio. 
Apeteceu-lhe fazer gazeta mas, como funcionário público diligente que sempre foi, decidiu enfentar estoicamente o dia e chegar pontualmente  às 9 horas ao local de trabalho.
Quando saiu de casa, a porteira avisou-o de que havia uma fuga de gás no prédio, por isso tinham cortado o gás.  
Francisco suspirou de alívio. Afinal o esquentador não estava avariado. Se era uma fuga de gás a administração que resolvesse o problema. Já não tinha que se chatear a chamar um técnico que reparasse o seu esquentador.
Meteu-se no carro e ligou o rádio na Antena 1.  Um acidente no eixo norte sul ia obrigá-lo a escolher o percurso alternativo, com passagem pelo centro da cidade. Não teve sorte. Um engarrafamento monumental na Padre Cruz, atrasou-o irremediavelmente.
Como se atrasou, já não encontrou o seu lugar habitual no parque do serviço que funciona no sistema "first to come, first to take".  Deu umas voltas pelas redondezas, mas lugares vagos nem vê-los. Não teve outro remédio, senão recorrer a um parque de esatcionamento, ainda um pouco distante do local de trabalho. 
Com todos os contratempos, chegou ao serviço às 9h51m. Colocou o dedo no visor do relógio de ponto e recebeu como resposta: "Não identificado"
Voltou a tentar mais uma vez. E outra. E outra. E ainda uma quinta vez. A resposta do impertinente relógio de ponto era sempre a mesma. A cada colega que chegava, lamentava a sua má sorte. Alguns respondiam com um sorriso e um encolher de ombros, outros respondia: "A mim também já me aconteceu! É uma chatice!"
Francisco olhou uma vez mais para o relógio. Já passava um minuto das 10 horas, por isso teria de justificar o atraso. Lançou uma praga e deu um murro violento no relógio, irado com a sua inabalável  recusa em identificar o funcionário diligente que nunca faltara ao serviço e tantas vezes enfrentara estoicamente o trabalho, apesar de constipações e gripes violentas, que fizeram subir a febre até inimagináveis 37,5º!
 Foi então que reparou na luva que ainda tinha calçada na mão direita. Retirou-a, voltou a colocar o dedo no visor e o relógio deu finalmente como comprovada a sua identidade.
Furioso, recusou o elevador.Subiu as escadas dos três andares que o separavam do gabinete a duas e duas, entrou ofegante no gabinete e ligou o computador.  Acedeu aos registos para justificar a falta. Escolheu a opção: por causa não imputável .  Na parte reservada à justificação escreveu:
" Cheguei ao serviço às 9h51m, como pode ser comprovado por colegas que comigo se cruzaram. O relógio de ponto recusou-se a identificar o meu dedo, apesar de ser o mesmo há uma década. Não consigo controlar a incompetência de uma máquina por isso, se alguém tem de justificar o meu atraso é o relógio de ponto que foi negligente e não cumpriu a sua função. Proponho , portanto, que seja despedido com justa causa".
Dias depois recebeu uma nota de culpa. O director geral  decidira instaurar-lhe um processo disciplinar, por ofensa ao serviço. 

Diva e discípula de Ingmar Bergmann




" Provavelmente , os meus filmes são antiquados , mas é assim que sei fazer cinema e tenho orgulho nisso.Temos ai nos ecrãs filmes com extraterrestres e explosões, mas para ver explosões basta ver as notícias na televisão"
 (Liv Ullmann em entrevista ao DN, durante o festival de cinema de Toronto, onde apresentou o seu filme " Miss Julie")
Já está na minha agenda para Novembro na rubrica " a não perder".

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

De se lhes tirar o chapéu!



Ontem, Portugal sagrou-se campeão europeu de ténis de mesa, ao vencer a Alemanha, na final, por 3-1. Triunfo muito saboroso, tanto mais que a Alemanha detinha o título desde 2007.
Ainda bem que Portugal passou a jogar ténis de mesa, porque um título europeu era impossível no tempo do ping-pong 

George Clooney: uma questão de bom gosto


Acabo de saber que George Clooney foi este fim de semana a Veneza para se casar. Eu nunca escolheria Veneza para casar, mas acho que George Clooney escolheu bem. Grandes acontecimentos, exigem bom gosto.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A verdade da mentira

Um advogado tinha 12 filhos. Precisava de sair da casa onde morava e de alugar outra, mas não conseguia por causa do montão de crianças. Quando dizia que tinha 12 filhos, ninguém queria alugar, pois temiam que a criançada iria destruir a casa. Não podia dizer que não tinha filhos, porque não podia mentir. É que os advogados não podem mentir!
Estava mesmo a desesperar, pois o prazo para mudar já estava quase no fim. Felizmente, porém, ocorreu-lhe uma ideia brilhante: mandou a mulher ir passear no cemitério com 11 filhos. Pegou no filho que sobrou e foi ver casas, juntamente com o agente da imobiliária. Gostou de uma e, quando o agente lhe perguntou quantos filhos tinha, respondeu que tinha 12. O agente indagou:
- Onde estão os outros?!
O advogado respondeu, com um ar muito triste:
- Estão todos no cemitério, mais a mãe.
E foi assim que conseguiu alugar uma casa sem mentir...
Moral da história:
Não é necessário mentir, basta escolher as palavras certas.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A Casa do Lago

Lago do Campo Grande ( foto da Net)

Uma greve de metro é sempre um grande transtorno para mim. Se é parcial, a coisa resolve-se com maior ou menor dificuldade mas, quando se estende por 24 horas, a solução é pegar no carro, ou meter os pés ao caminho.
Esta manhã soalheira estava amena e optei pela segunda hipótese. Saí de casa mais cedo do que o habitual e meti-me ao caminho.  Apoveitei para apreciar o Campo Grande renovado e exultei quando vi que o café da ilha estava aberto e havia barcos no lago. 
Estava hesitante entre fazer uma pausa para tomar o café ou prosseguir o caminho, quando ouvi uma voz familiar:
- Que fazes aqui?
Era a Teresa, ex- colega da faculdade de Direito e minha vizinha na casa do Rochedo.
Contei-lhe a minha hesitação e logo me desafiou para tomar um café  na Casa do Lago ( assim se chama agora o café). 
 Enquanto recordávamos tempos da faculdade e as inúmeras vezes que por ali parávamos  ao final da tarde, para dar uma volta de barco, fomos assaltados pela mesma ideia.  “E se fossemos dar uma volta, como nos velhos tempos?”.
Assim foi. Telefonámos para os nossos escritórios, cada um alegou o impedimento que lhe veio à cabeça e lá ficamos durante uma hora, tentando ver espelhadas na água as imagens da nossa juventude. Não as encontrámos, mas vivemos uma manhã diferente.
 Apesar de sermos vizinhos ocasionais, raras vezes  partilhamos momentos de lazer. Muito menos a sós.  Foi por isso uma manhã especial. Pusemos a conversa em dia e desfrutámos desse prazer que é não cumprir um dever. Como algumas vezes fazíamos, quando faltávamos às aulas para ir andar de barco no Campo Grande, ou apenas tomar um café e dar dois dedos de conversa.
Às vezes é preciso tão pouco para sermos felizes e nos sentirmos mais motivados para o trabalho…


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Evaristo numa mercearia gourmet




O realizador Leonel Vieira vai fazer um remake de três filmes que foram grande sucesso do cinema português e todos os leitores do On the rocks  retêm certamente na memória : O Pátio das Cantigas, O Leão da Estrela e  A Canção de Lisboa
Informa o DN que  os três filmes serão exibidos em 2015, sendo da responsabilidade de Miguel Guilherme e César Mourão desempenhar os papéis de António Silva e Vasco Santana.
De acordo com declarações de Leonel Vieira ao DN as novas versões adaptam- se à Lisboa moderna. Assim, em “O Pátio das Cantigas”, Evaristo  ( António Silva/ Miguel Guilherme)será proprietário de uma mercearia gourmet e Narciso (Vasco Santana / César Mourão)um condutor de tuc-tuc, mas igualmente  boémio e mulherengo, como o original.
Não ouviremos certamente na nova  versão, a célebre frase “ Ó Evaristo, tens cá disto?”, mas espero que  argumentista e realizador consigam imprimir ao filme o mesmo bom humor que caracterizava o original.
À partida são três boas propostas cinéfilas para 2015. Aguardemos pela confirmação, com a certeza de que não será fácil descolar esses monstros sagrados do teatro e cinema português, que foram Vasco Santana e António Silva, das pesronagens originais.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Thanks, Leonard

No dia em que celebra 80 anos, os meus agradecimentos sinceros a Leonard Cohen que, muitas vezes, me fez sentir no Paraíso, nos braços de uma mulher.

Derniers baisers

Todos os anos é a mesma coisa. Quando acabam as férias e o Outono se substitui ao Verão, lembro-me desta canção. Ainda há 48 horas tomava banho no Mediterrâneo com um esplendoroso dia de sol. Chego a Lisboa e é o que se vê... 

sábado, 20 de setembro de 2014

Porque hoje é sábado

Quase...


Um pouco mais de sol — eu era brasa.
Um pouco mais de azul — eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d’espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — ó dor! — quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim — quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
— Ai a dor de ser-quase, dor sem fim… —
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

(…)

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Mário de Sá Carneiro

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O que é ser tripeiro, afinal?




Que vos posso dizer eu dos tripeiros que vocês ainda não saibam? Que, segundo a lenda, os habitantes do Porto passaram a ser assim designados, em virtude do apoio prestado à armada que partiu para a conquista de Ceuta, em 1415, oferecendo aos expedicionários toda a carne disponível, ficando apenas com as tripas para se alimentarem? Mas isso já todos vocês sabem…
 Poderia enaltecer os tripeiros pela sua hospitalidade, pela sua abnegação, pela sua sinceridade e autenticidade, pelo amor desmesurado à cidade que os torna, por vezes, excessivamente bairristas? Mas isso também não é novidade…
Poderia dizer-vos que ser tripeiro é ter o privilégio de passear junto ao Douro, da Ribeira até à Foz, namorar com uma garina na Rua dos Abraços, tropeçar em bueiros entupidos, fechar as malas com aloquetes, tomar cimbalinos e pingos, comer francesinhas ou orelhas, celebrar a noite de S.João lançando balões e saltando a fogueira, ou encher a Avenida dos Aliados para celebrar mais uma vitória do Dragão.
Ou, talvez ainda, que ser tripeiro é ver os putos empolgados em corridas de sameiras, é cerrar fileiras para defender os emblemas da cidade que alguns políticos pretendem destruir ou vender aos interesses dos privados, é o regatear cantado nas manhãs do mercado do Bolhão. Poderia acrescentar que ser tripeiro é chamar paneleiro a um maricas, ou filho da puta a um amigo que nos trai. É ir a um baile para estar no roço com a namorada, passear por uma “ilha” onde as mães gritam para os filhos: "Anda cá meu filho da puta, quem te deu ordem p'ra comeres esse mulete?" ou os admoestam dizendo "vai fazer piruetas nos cornos do teu pai!"
Mas quem sou eu para vos falar dos tripeiros? Já não vivo no Porto há mais de 40 anos pelo que, ao tentar descrevê-los, corro o risco de estar a traçar um perfil desajustado da realidade actual.Na tentativa de ser mais preciso, pedi ao Beto, um amigo dos tempos da escola primária, que se encontrasse comigo num café da Areosa. Não lhe disse qual era o assunto. Disse apenas que tinha urgência em falar com ele.
Já não via o Beto há uns 10 anos e, enquanto esperava, fiz rewind...




Concluída a instrução primária, o Beto abandonou a escola. Tinha então 14 anos e de imediato se iniciou no ofício de trolha. Foi sol de pouca dura. Dois anos mais tarde tornava-se aprendiz de picheleiro, actividade em que desde logo se mostrou hábil, alcançando enorme popularidade na Areosa, onde nascera. Donas de casa a braços com canos entupidos, lavatórios a transbordar ou sanitas renitentes em cumprir a sua função, recorriam aos bons ofícios do Beto que aliava a sua competência profissional a uma enorme simpatia. Mas Beto não era apenas popular entre as donas de casa. Beata sempre apagada nos lábios carnudos, jeans coçados, t –shirt de cor indefinida , onde despontava um Bob Marley desbotado, passeava , gingão, pela rua entoando os últimos sucessos de Rui Veloso e despertando a cobiça das garinas. 
Quando se aproximava da porta do café que diariamente frequentava ao fim do dia, abrandava a marcha, afagava as repas, puxava o blusão comprado em Vandoma a uns ciganos, endireitava as costas e entrava com ar triunfal. Lançava um olhar rápido pelas mesas a avaliar o gado, para marcar a presa e dirigia-se ao balcão. De costas e olhando fixamente a presa, pedia invariavelmente em voz alta: 
“Inácio! Um lanche e um fino.”
Foi neste momento que o Beto entrou. Mantém o andar gingão e o ritual de afagar as repas e endireitar as costas antes de entrar, mas a beata apagada já não baila nos seus lábios. Quando me viu abriu os braços que só se fecharam na troca de um longo abraço.
Da última vez que nos encontrámos, prometeste que quando fosses a Lisboa me ligavas, lembras-te?
"Eu num bou a Lisboa, pá… Tenho medo c'aquilo seja cuntagioso, carago! Se calhar nem debia estar aqui cuntigo, pá. Tás há tantos anos, lá ( na verdade ele diz naquela merda) que já te debe ter pegado a maleita, pá".
Mas nem vais ver os jogos do Dragão a Lisboa,Beto?
"Debes de estar maluco, pá! Bejo pela Sport TV,aqui no café, porque é menos uma hipótese que têm de me cuntaminar, carago! Aquelas multidões num são recomendábeis, pá! Lagartos e águias? Porra, toda a gente sabe que têm peçonha, nem era preciso a gripe dos porcos para os cuntaminar!".
Rimos a bom rir até o Beto me tocar no braço e, aproximando os lábios do meu ouvido, perguntar :
"Já biste aquela garina que tá atrás de ti?
Qual? A da mini-saia?
Exacto. Pena ter um foguete, carago, mas tem umas boas trancas, lá isso tem.
Não ganhas juízo Beto? Como é que a Nanda te atura?
Julgas que estamos em Lisboa, pá? Aqui ainda são os machos quem manda, num birámos copinhos de leite… Olha lá, afinal qu’é que me queres?
Estou a escrever uma coisa e queria saber a tua opinião sobre os tripeiros.
Tripeiros é como bocês nos chamam lá em baixo num é?Tá bem, antes tripeiros qu’ alfacinhas qu’é nome de mouro maricão. Tripas é qu'é comida de gente, alface é p'ós grilos!
Lá estás tu a desancar nos lisboetas, Beto. Isso não é complexo?
Cumplexo de quê? De bos ber todos os dias feitos baratas tontas, cada bez mais parecidos co’as gajas e a querer casar gajos cum gajos? Fosga-se!
Pronto, tá bem, Beto,não batas mais no ceguinho e diz-me lá o que pensas dos tripeiros…
Os tripeiros? Somos os máiores , caral…! Isso toda a gente sabe…
Pois é, o Beto está cheio de razão. Os tripeiros são mesmo os “máiores”, excepto quando emigram para Lisboa e perdem as suas características peculiares. Mas quis que fosse ele a dizer-vos isso, porque a minha opinião pode ser suspeita.

Adenda: escrevi este texto para as Crónicas de Graça, uma rubrica que, durante cerca de um ano mantive às sextas feiras com a minha amiga Paty, no Crónicas do Rochedo e no Ares da Minha Graça.
Lembrei-me de a recuperar, a propósito do post que amanhã publico no CR, na rubrica "Bibó Porto"

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Um erro nunca vem só...

Escolher a Alemanha como destino de férias, pode não ser uma boa ideia. Muito pior, porém, é levar na bagagem " A Sétima Porta" de Richard Zimmler. 
O livro é excelente, mas quando o viajante está em Berlim nas portas de Bradenburgo, tem mais tendência a recear o futuro, do que a lamentar o passado.

Ilusões de óptica (7)


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Saiba se é um sexalescente


"Se estivermos atentos, podemos notar que está surgindo uma nova faixa social, a das pessoas que estão em torno dos sessenta/setenta anos de idade, os sexalescentes é a geração que rejeita a palavra "sexagenário", porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer.
Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica, parecida com a que em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.
Este novo grupo humano, que hoje ronda os sessenta/setenta, teve uma vida razoavelmente satisfatória.
São homens e mulheres independentes, que trabalham há muitos anos e que conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram, durante décadas, ao conceito de trabalho. Que procuraram e encontraram há muito a atividade de que mais gostavam e que com ela ganharam a vida.Talvez seja por isso que se sentem realizados... Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram gozam plenamente cada dia sem medo do ócio ou solidão. Desfrutam a situação, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabe bem olhar para o mar sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro da janela de um 5.º andar....
Neste universo de pessoas saudáveis, curiosas e ativas, a mulher tem um papel destacado. Traz décadas de experiência de fazer a sua vontade, quando as suas mães só podiam obedecer, e de ocupar lugares na sociedade que as suas mães nem tinham sonhado ocupar.
Esta mulher sexalescente sobreviveu à bebedeira de poder que lhe deu o feminismo dos anos 60. Naqueles momentos da sua juventude em que eram tantas as mudanças, parou e refletiu sobre o que na realidade queria.
Algumas optaram por viver sozinhas, outras fizeram carreiras que sempre tinham sido exclusivamente para homens, outras escolheram ter filhos, outras não, foram jornalistas, atletas, juízas, médicas, diplomatas... 
Mas cada uma fez o que quis. Reconheçamos que não foi fácil e, no entanto, continuam a fazê-lo todos os dias.
Algumas coisas podem dar-se por adquiridas.
Por exemplo, não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos "sessenta/setenta", homens e mulheres, lida com o computador como se o tivesse feito toda a vida. Escrevem aos filhos que estão longe e até se esquecem do velho telefone para contatar os amigos - mandam e-mails com as suas notícias, ideias e vivências.
De uma maneira geral estão satisfeitos com o seu estado civil e quando não estão, não se conformam e procuram mudá-lo. Raramente se desfazem em prantos sentimentais. Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos.Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflete, toma nota, e parte para outra...
... Os homens não invejam a aparência das jovens estrelas do desporto, ou dos que ostentam um fato Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de uma modelo. Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência.
Hoje, as pessoas na década dos sessenta/setenta, como tem sido seu costume ao longo da sua vida, estão estreando uma idade que não tem nome. Antes seriam velhos e agora já não o são. Hoje estão de boa saúde, física e mental, recordam a juventude mas sem nostalgias parvas, porque a juventude ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas.
Celebram o sol em cada manhã e sorriem para si próprios...Talvez por alguma secreta razão que só sabem e saberão os que chegam aos 60/70 no século XXI!"
Artigo de Mirian Goldenberg

sábado, 13 de setembro de 2014

Porque hoje é sábado



Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando a janela abre.

Alberto Caeiro

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

En blue jeans et blouson de cuir



Aviso prévio: recupero este texto, publicado na revista "o Consumidor" em 1999, para assinalar os 80 anos do aparecimento dos primeiros jeans para mulheres

“Entrem na lenda" dizia o anúncio publicitário às calças Levis. Desconheço quem inventou o"slogan", mas a verdade é que poucas vezes uma mensagem publicitária terá expressado de forma tão sintética uma realidade universal. Os jeans provocaram uma autêntica revolução na moda, desafiando os códigos, invertendo a piriâmide mimética e abrindo caminho à moda unissexo.
De calças utilizadas por marinheiros e mineiros, chegaram às "festas de sociedade", conquistando o jet set e ganhando espaço nas revistas de moda e de curiosidades mundanas. Os jovens terão sido, no entanto, os grandes responsáveis pelo triunfo dos jeans, nomeadamente na Europa, onde o seu uso foi identificado como rompimento com as normas convencionais e rejeição dos códigos estabelecidos, uma expressão de liberdade, flexibilidade e sedução. Os jeans atentaram também contra a lógica da hierarquia descendente, já que em vez de se imporem a partir das classes superiores, atingem o estrelato começando por vestir as classes mais desfavorecidas. A explicação do fenómeno reside, na opinião de alguns especialistas, na resistência do tecido, de não necessitar de ser passado a ferro e se sujar pouco.
Invertendo a mimética pirâmide tradicional, a "calça à vaqueiro" chega à alta sociedade onde permite as combinações mais díspares. Alia-se com blusas e camisolas de tecidos "ricos", virando mesmo "toilette"; associado a um blusão de couro, torna-se uma farda (quem não se lembra de Adamo cantando "En blue jeans et blouson de cuir" a farda jovem dos anos 60?) .

O êxito dos jeans provocou a cobiça da Alta Costura. Incapaz de resistir ao seu sucesso, apõe-Ihe etiquetas, sofistica-lhe as formas, enriquece-Ihe a personalidade, adicionando lantejoulas e outros artefactos, rubricando os bolsos com a sua assinatura e, claro ... inflacionado-Ihe o preço na tentativa de o desdemocratizar. A tudo isto os jeans resistem e os jovens passam a usá-los cada vez mais coçados e desbotados, deixando entreabrir pequenas porções do corpo através de rasgões propositados. Abandona o tradicional azul indigo e lança-se nas mais variegadas cores. Sempre irreverente, utilitário e prático.
Os jeans desafiam também as regras do mercado e a lógica da sociedade de consumo, graças à sua durabilidade e resistência. Deles se diz, como do vinho do Porto, quanto mais velhos e gastos melhor. Se já nenhuma fábrica de automóveis, por exemplo, lança um modelo sem pensar nos lucros provenientes de componentes cada vez menos duradoiras, nem resiste à mudança de pormenor, mas frequente, das linhas, ou a introdução de pequenas alterações tecnológicas, para que o consumidor seja atraído pela novidade, nenhuma marca nem nenhum costureiro se atreve a adulterar as características que contribuíram para o sucesso das "calças à vaqueiro". Parafraseando o "slogan" publicitário do sabonete Lux, pode dizer-se que 9 em cada 10 pessoas usavam jeans.

Com uma imagem ainda mais forte do que aquela que a publicidade ajudou a criar, os jeans permanecem indiferentes e incólumes a quaisquer críticas, mesmo quando acusados de afectar a saúde dos consumidores. Veja-se, a prop6sito, uma notícia publicada em 1981 na revista "Come & Cala": "…Não vale a pena, aceitando a opinião do dr. Joachim Jensen (medico norueguês) acompanhar a ditadura anti - fisiológica dos jeans colados à cintura ... estas calças deformam a cintura pélvica às mulheres, aumentando espectacularmente o número de cesarianas."
Indiferentes a este alerta as mulheres continuam, mais de duas décadas depois deste aviso, a usar jeans bem justos, um dos produtos mais eficazes e económicos no efeito da sedução, um dos símbolos mais característicos da moda do pós-guerra, cujo fenómeno de perenidade só é comparável ao da mini-saia.
Convém, no entanto, referir que os jeans não são um produto do século XX. Com-efeito, foi já em meados do século XIX (precisamente em 1850) que um jovem emigrante bávaro chegou a S. Francisco em plena época da corrida ao ouro. Tinha apenas 20 anos, chamava-se Loeb Strauss ( mas assim que chegou a S. Francisco mudou o seu nome para Levi) e preferiu correr atrás do filão de uma tela fina e desbotada que era usada para as velas dos barcos e se produzia em França, do que atrás do metal precioso.
Nem por isso o sucesso dos jeans deixou de ficar ligado à corrida ao ouro, já que foi um garimpeiro quem propôs a Levi (Loeb) Strauss que lhe fabricasse umas calças daquele tecido. O jovem aceitou o desafio: tingiu o tecido de azul "indigo" e alcandorou-se a um lugar na História, conquistando em poucos anos o Oeste americano.
O resto da história faz-se já com os seus sobrinhos, a quem deixou a herança, pois nunca casara. Herança que começa a dar os seus frutos com a Grande Depressão de 1929 e a atracção provocada nos citadinos pelas calças dos "vaqueiros". É, no entanto, durante a 2.a Guerra Mundial, que se dá a expansão: os marines passam a usá-las e rapidamente as fazem entrar na Europa, juntamente com a Coca Cola, as pastilhas elásticas, os cigarros com filtro e ... o Plano MarshalI.
James Dean, Marilin Monroe e Marlon Brando dão-lhe o toque final para a eternidade. O fenómeno é de tal maneira impressionante, que nem os países de Leste - sempre renitentes a aceitar as modas ocidentais, símbolo de capitalismo e devassa - escapam à euforia. Qualquer turista que tenha visitado algum daqueles países, envergando umas calças Levis, não deixou certamente de ser assediado por jovens sedentos de as possuir, fazendo propostas de compra magnânimas. Em Portugal, nos anos 60, "as verdadeiras Levis" eram compradas a marinheiros de ocasião, perante o ar reprovador das autoridades e de adultos mais conservadores. Nas escolas chegaram mesmo a ser proibidas, a pretexto de os seus arrebiques em metal destruirem o material escolar.
Os jeans não morreram com o século XX , nem a lenda se esfumou ao virar do século. É, no entanto, notória a desagregação das marcas e as Levi Strauss (apesar do êxito de alguns dos seus modelos, como o 501), são já muitas vezes preteridas por outras, que a publicidade promoveu e a Alta Costura sofisticou, ou a contrafacção tornou mais acessíveis.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Isto não é publicidade...




Se virem por aí uma carrinha destas a circular, há uma forte probabilidade de eu estar ao volante. Mas só até amanhã, porque no domingo  atravesso a fronteira.
Pronto, já perceberam que estou em férias. Sempre que puder, vou dando notícias.
Fiquem bem.


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Respirar fundo




Percorreu uma última vez a casa  vazia.  Deambulou pelos quartos despidos,ocos de recordações. Apenas as marcas de quadros retirados das paredes testemunhavam os vestígios de uma vida.  
Foi até à varanda. Acendeu um cigarro que consumiu em bafuradas lentas e prolongadas, enquanto gravava na memória as últimas imagens  de um passado distante.
Saiu para o jardim. Pegou na mangueira. Regou as roseiras, a buganvília,  os crisântemos, as hidranjas, os aloendros e  acariciou o imponente arbusto da entrada, cujo nome não lhe ocorreu. Queria deixar-lhes uma mensagem de que eles eram agora as suas únicas recordações daquela casa. Os seus guardiões. Assegurou os serviços de um jardineiro que cuidasse deles  e os mantivesse vivos.
 Fechou o portão da casa e deu a volta à chave. Respirou fundo e afastou-se numa passada lenta, vergado ao peso de múltiplas recordações. Resistiu a olhar para trás e lançar um último adeus às memórias de uma vida. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Cenas de taxis (10)



Eu sei que há taxistas burlões em todo o lado mas, talvez por já estar em “modo férias” este que me caiu em sorte no Porto, na ultima sexta –feira, irritou-me ferozmente.
Chegado a Campanhã, apanhei um táxi. Levava a pasta-mala habitual por cujo transporte nunca me cobraram, mas o taxista ( é quase um pleonasmo, porque mais de 90% dos taxistas sofrem desse mal) obrigou-me  a pô-la na bagageira, alegando que ultrapassava as dimensões mínimas regulamentares.
Decidi não protestar porque o homem era demasiado mal encarado  ( é quase um pleonasmo, porque mais de 90% dos taxistas sofrem desse mal) e não me apetecia arranjar discussões.  Mentalmente, decidi imediatamente que ia apresentar queixa dele, mas entrei no carro disposto a pagar o que ele me cobrasse. 
Enquanto ele subia a Fernão de Magalhães a uma velocidade louca, cometendo várias transgressões, apercebi-me que ia ter problemas quando chegasse, porque o homem não marcou no taxímetro o 1,60€ do transporte da bagagem.
Assim que cheguei às Antas, as minhas suspeitas confirmaram-se. Quando ia pagar o que estava marcado no taxímetro, o homem  lançou um “Ah! Esqueci-me de marcar o transporte da bagagem!”
Azar seu- respondi. Só pago o que estiver marcado.  
Felizmente tinha dinheiro certo sem precisar de troco. Pedi recibo  e entreguei-lhe o dinheiro certo. Depois de ter a mala comigo, obviamente
Então e o transporte da bagagem?- perguntou o mal encarado
Já lhe disse que não pago mas, se quiser, chame um polícia.
Meteu-se imediatamente no carro enquanto vociferava  em altos berros: Grande FDP, vai para a PQP!
Entrado em casa, telefonei para a radio táxi e apresentei queixa. Obviamente que não dará em nada e o ToZé ( assim se chamava o motorista) vai continuar pelo país a roubar os clientes e o patrão.
De qualquer modo, fica aqui um aviso aos leitores do Porto ( ou que se deloquem ao Porto de comboio)
Se encontrarem um táxi com a matrícula 00-EV- 29, pertencente à Auto Taxis Clesil,  de Vermoim- Maia, perguntem ao condutor se se chama Tozé. Se for, o melhor é não entrarem, porque o homem, além de antipático, é um grande vigarista!
Adenda:  Já o taxista que me trouxe hoje a Campanhã para apanhar o comboio de regresso a Lisboa era de uma extrema simpatia e educação. E, obviamente, nada me cobrou pelo transporte da pasta-mala.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A espada




Era uma vez um grupo de  jovens que decidiu divertir-se numa noite de sábado. Depois de emborcarem uns copos, ficaram sem   nada para fazer, nem vontade de regressarem a casa, apesar de a noite ir alta e o alvorecer já despontar no horizonte. Foram, por isso, dar uma volta pela cidade.
A determinada altura um jovem  de 26 anos ( no meu tempo aos 26 anos já eramos adultos e tínhamos responsabilidades, mas enfim, os tempos evoluem e quanto mais tarde as pessoas deixarem de ser jovens melhor) achou piada a uma estátua de um tipo com uma espada de bronze e resolveu  desafiá-lo para um duelo.  Como se estivesse num qualquer jogo da Internet. Enfastiada com a postura do jovem e recusando-se a dar-lhe réplica, a estátua ignorou-o. 
O jovem, desafiante, decidiu  sentar-se em cima da espada, na vã tentativa de obrigar a estátua a responder ao desafio. O melhor que conseguiu foi partir a espada. Sem saber o que fazer com aquele bocado de metal foleiro que cedera ao seu peso, o jovem pegou na lâmina da espada e rumou finalmente a casa. Talvez, ao chegar, decidisse assaltar o frigorífico e partir uns bifes com a lâmina da espada do Fundador.  Talvez até fizesse uma selfie, para mais tarde recordar.
Não teve sorte. Pelo caminho, a polícia interceptou-o. Lá se foi o prego  e a selfie
Esta manhã o jovem foi presente a tribunal. No final da audiência fugiu em louca correria dos jornalistas que o aguardavam, depois de a juíza ter determinado que aguardaria julgamento com termo de identidade e residência.
Dentro de dias a  juíza mandá-lo-á em paz. Afinal é apenas um jovem, por isso, os pais que paguem os prejuízos. Não tendo estes recursos para pagar, paga o contribuinte, porque é para isso que ele existe. Para pagar as irreverências dos jovens. 
Amen
Para quem não leu ou ouviu a notícia, deixo os links:
Aqui e aqui ( este com video)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Entradas e saídas

Foi desta forma que decidi dar este ano as boas vindas aos que regressaram agora de férias e desejar, àqueles que ainda vão partir, umas férias excelentes.

Está nos livros (10)




" O meu marido trata-me bem  e gosto da minha filha"- dizia ela. "Pode dizer-se que sou feliz"
" Nesse caso, por que carga de água é que ela anda a dormir comigo?" Era essa a pergunta que ele fazia muitas vezes a si próprio. Por mais que pensasse no assunto, não chegava a qualquer conclusão.De resto, nem sequer era capaz de perceber o que queria ela dizer quando dizia que não tinha problemas de espécie alguma. 
Por mais de uma vez, chegou a pensar em ter uma conversa com ela sobre o assunto, mas não sabia bem como abordar a questão. "Visto que és assim tão feliz com ele, porque é que vais para a cama comigo?" Obviamente  que não era pergunta que se fizesse. O mais certo era ela desatar num pranto.
( Haruki Murakami in "A Rapariga que inventou um sonho")