terça-feira, 30 de setembro de 2014

Falta justificada



Quando se levantou naquela segunda-feira, Francisco teve a percepção de que algo iria correr mal durante o dia. Era janeiro, fazia um frio de rachar. O dia estava  cinzento e choviscava, O padeiro não lhe levou o pão. O esquentador avariou e teve de tomar o duche frio. 
Apeteceu-lhe fazer gazeta mas, como funcionário público diligente que sempre foi, decidiu enfentar estoicamente o dia e chegar pontualmente  às 9 horas ao local de trabalho.
Quando saiu de casa, a porteira avisou-o de que havia uma fuga de gás no prédio, por isso tinham cortado o gás.  
Francisco suspirou de alívio. Afinal o esquentador não estava avariado. Se era uma fuga de gás a administração que resolvesse o problema. Já não tinha que se chatear a chamar um técnico que reparasse o seu esquentador.
Meteu-se no carro e ligou o rádio na Antena 1.  Um acidente no eixo norte sul ia obrigá-lo a escolher o percurso alternativo, com passagem pelo centro da cidade. Não teve sorte. Um engarrafamento monumental na Padre Cruz, atrasou-o irremediavelmente.
Como se atrasou, já não encontrou o seu lugar habitual no parque do serviço que funciona no sistema "first to come, first to take".  Deu umas voltas pelas redondezas, mas lugares vagos nem vê-los. Não teve outro remédio, senão recorrer a um parque de esatcionamento, ainda um pouco distante do local de trabalho. 
Com todos os contratempos, chegou ao serviço às 9h51m. Colocou o dedo no visor do relógio de ponto e recebeu como resposta: "Não identificado"
Voltou a tentar mais uma vez. E outra. E outra. E ainda uma quinta vez. A resposta do impertinente relógio de ponto era sempre a mesma. A cada colega que chegava, lamentava a sua má sorte. Alguns respondiam com um sorriso e um encolher de ombros, outros respondia: "A mim também já me aconteceu! É uma chatice!"
Francisco olhou uma vez mais para o relógio. Já passava um minuto das 10 horas, por isso teria de justificar o atraso. Lançou uma praga e deu um murro violento no relógio, irado com a sua inabalável  recusa em identificar o funcionário diligente que nunca faltara ao serviço e tantas vezes enfrentara estoicamente o trabalho, apesar de constipações e gripes violentas, que fizeram subir a febre até inimagináveis 37,5º!
 Foi então que reparou na luva que ainda tinha calçada na mão direita. Retirou-a, voltou a colocar o dedo no visor e o relógio deu finalmente como comprovada a sua identidade.
Furioso, recusou o elevador.Subiu as escadas dos três andares que o separavam do gabinete a duas e duas, entrou ofegante no gabinete e ligou o computador.  Acedeu aos registos para justificar a falta. Escolheu a opção: por causa não imputável .  Na parte reservada à justificação escreveu:
" Cheguei ao serviço às 9h51m, como pode ser comprovado por colegas que comigo se cruzaram. O relógio de ponto recusou-se a identificar o meu dedo, apesar de ser o mesmo há uma década. Não consigo controlar a incompetência de uma máquina por isso, se alguém tem de justificar o meu atraso é o relógio de ponto que foi negligente e não cumpriu a sua função. Proponho , portanto, que seja despedido com justa causa".
Dias depois recebeu uma nota de culpa. O director geral  decidira instaurar-lhe um processo disciplinar, por ofensa ao serviço. 

7 comentários:

  1. Respostas
    1. Verdade, Papoila. Excepto o processo disciplinar, que foi a resposta que dei ao Francisco quando me contou o episódio.

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  2. Ainda bem - pelo que entendi da resposta ao comentário anterior - que não lhe terá sido instaurado processo disciplinar...nem ao relógio de ponto

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  3. De jeito nenhum!
    Se o funcionário era identificado pela impressão digital e ele carregava no botão com a luva calçada, obviamente que o relógio de ponto nunca poderia ser acusado de negligência, quanto mais ser 'demitido'.
    Acho que o Francisco quis arranjar um bode expiatório para arcar com a culpa de todos os contratempos que lhe aconteceram, desde que pôs os pés no chão, ao sair da cama, nesse dia.
    Ainda por cima é um piegas! Com 37,5 de febre - temperatura normal- já pensava que estava com uma gripe de caixão à cova.

    Como diria António Lobo Antunes:

    Ai, Francisco, Francisco, não vales nada!

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  4. Cada leitura uma interpretação_ li um conto bem humorado onde Francisco desde que abriu os olhos naquele dia tudo lhe andou as avessas e para se dar bem pelo menos uma vez no dia lança mão de uma boa desculpa culpando o relógio de ponto de forma brilhante rsrsrs visto que ninguém em perfeito juízo consideraria essa justificativa válida .Merecia um elogio pela desfaçatez e bom humor rsrs
    Um 'gozador' o Francisco.
    meu abraço,Carlos e boa semana.

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  5. Com tantos contratempos era normal que estivesse ansioso, baralhado...ou seria a idade???

    Gostei do texto...ri-me!

    Beijinhos,

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