quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Respirar fundo




Percorreu uma última vez a casa  vazia.  Deambulou pelos quartos despidos,ocos de recordações. Apenas as marcas de quadros retirados das paredes testemunhavam os vestígios de uma vida.  
Foi até à varanda. Acendeu um cigarro que consumiu em bafuradas lentas e prolongadas, enquanto gravava na memória as últimas imagens  de um passado distante.
Saiu para o jardim. Pegou na mangueira. Regou as roseiras, a buganvília,  os crisântemos, as hidranjas, os aloendros e  acariciou o imponente arbusto da entrada, cujo nome não lhe ocorreu. Queria deixar-lhes uma mensagem de que eles eram agora as suas únicas recordações daquela casa. Os seus guardiões. Assegurou os serviços de um jardineiro que cuidasse deles  e os mantivesse vivos.
 Fechou o portão da casa e deu a volta à chave. Respirou fundo e afastou-se numa passada lenta, vergado ao peso de múltiplas recordações. Resistiu a olhar para trás e lançar um último adeus às memórias de uma vida. 

7 comentários:

  1. O virar de mais uma página do livro da vida.

    Beijinhos,

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  2. Que pena!

    Porquê o esvaziar de toda uma vida de recordações?

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  3. Não é à casa que se diz adeus - é a tudo quanto lá se viveu

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    Respostas

    1. Pedro,
      Eu acho que é precisamente o contrário!
      A despedida é do lugar onde nasceram essas memórias! As nossas memórias não têm de ser corpóreas... e assim podemos levá-las connosco para onde formos!

      Carlos,
      Os objectos que recheiam uma casa, as mobílias, os quadros e outros pertences, são facilmente levados num camião de mudanças... já as plantas do jardim, essas ficarão agarradas à terra, tal como as nossas memórias ficam agarradas a nós... pelo menos enquanto as conseguirmos conservar.
      :((


      Beijinhos sem despedidas

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