sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A dificuldade da escolha



Andava a queixar-se de algumas maleitas há coisa de um ano. Não tinha luzinhas a piscar, avisando a tipologia da enfermidade. Era à antiga. Apenas emitia uns gemidos estranhos ou começava a tremer furiosamente, abalando o chão da cozinha, quando alguma coisa estava mal. Lá fui tentando aliviar-lhe a dor e adiar o estertor mas, na semana passada, despediu-se com um último suspiro, enquanto o técnico que entretanto chamara numa última tentativa  para a curar, me desenganava e lhe dava a extrema-unção. 
Preparei-lhe o funeral, em cerimónia simples. Agradeci-lhe, uma última vez, a forma dedicada como sempre se entregou ao trabalho, sem um único lamento. Já sabia que o passo seguinte seria doloroso. Colocava-se de imediato uma questão: como substituir aquela fiel companheira ? Quem estará melhor habilitado para fazer esquecer os bons serviços que a máquina de lavar de linha branca, comprada no saudoso Carrefour me prestou de forma zelosa e eficiente, ao longo de quase duas  décadas?
Nesta sociedade da hiperescolha, onde cada marca apresenta uma panóplia diversificada de modelos para cada produto, com o objectivo de penetrar em todos os  nichos de mercado, escolher uma máquina  é, por vezes, tarefa ciclópica. Principalmente para leigos em novas tecnologias, como eu, que fico com a cabeça a andar à roda, cada vez que vejo luzinhas a piscar num visor, sem saber se aquilo significa que o aparelho está a dar o berro ou em perfeito estado de funcionamento.
 Como distinguir o modelo XPTO 17, do seu concorrente, da mesma marca, XPTO 17 SP? Muitas vezes os modelos distinguem-se apenas por pormenores só perceptíveis a especialistas na matéria e não ao consumidor comum. 
E como saber se a marca que mais se adequa às minhas necessidades é a ZPLR Hidromatic ou a mais singela (pelo menos em nomenclatura baptismal)  ZETA?
Eu sei que há testes comparativos que nos podem ajudar e que podemos pedir a opinião dos amigos mas, na generalidade, cada um sempre enaltece as características da marca e modelo que tem em casa, para justificar o acerto da sua opção. A consulta a amigos também pode ter a vantagem de eliminar à partida  algumas marcas mas, caramba, nem os meus amigos são tantos que me permitam uma escolha por amostragem, nem estava na disposição de me colar ao telefone a perguntar-lhes: 
“Olha lá, estás satisfeito com a tua máquina de lavar? Parece-te que é o modelo ideal para mim?” 
Decidi, por isso, meter-me ao caminho e dirigir-me a uma loja onde a oferta de marcas fosse variada e tivesse aconselhamento técnico na escolha. Fui. 
Comecei por deambular entre marcas e modelos olhando para os preços e tentando decifrar o que se escondia por detrás da designação de cada marca e modelo. Ao fim de cinco minutos, pedi a ajuda de um funcionário. Afoito, contei-lhe a história:
Olhe, vim cá porque a minha máquina pifou e preciso de uma nova, mas não sei o que hei-de comprar. Pode dar-me uma ajuda?”
Qual era a marca da máquina que tinha?” – perguntou-me o funcionário, certamente já apontado para me indicar a compra de um modelo da mesma marca.
Desiludi-o. Percebi-o na reacção estampada na face, quando lhe respondi  “a minha máquina de lavar era de marca branca”. Olhou-me com ar superior de quem vê entrar um pelintra,num estabelecimento onde se vendem produtos com “pedigree” e disse:
“Pois, nós aqui só temos produtos de marca. Se quer uma máquina dessa linha, terá de procurar noutro sítio”.
Perguntei-lhe se sabia onde poderia encontrar uma máquina, igualzinha à minha, porque era isso que queria.
Começou por encolher os ombros e depois, a custo, lá disse que não fazia ideia. 
Expliquei-lhe então que,  não tendo tempo para andar a procurar um estabelecimento onde vendessem máquinas de marca branca, queria uma máquina que durasse os mesmos 20 anos de vida da defunta.
Escapou-se-lhe um sorriso. “A sua máquina tinha 20 anos? Hoje já não arranja disso. Se aguentar 10, já é muito bom!”
Conformei-me. Pedi-lhe um conselho. Acabou por me indicar três modelos de duas marcas diferentes. Optei por um, que me pareceu adequado às minhas necessidades, e cujo preço era atraente.
 Agora tenho lá em casa uma máquina cheia de luzinhas a piscar, que me fazem lembrar o cockpit de um avião. Não percebo para o que servem, nem consigo decifrar os seus sinais. Entreguei essa tarefa à empregada que me pareceu entusiasmada com a nova hóspede, tal a forma carinhosa como a recebeu. 
Eu continuo com saudades da minha máquina de lavar de marca branca. Baratucha e fiel. 
Os tempos são outros, claro. Vivemos no tempo  de um mercado sujeito a grande pressão, onde anualmente desaparecem 8 em cada 10 produtos lançados como novidades, onde em cada 1000 ideias, apenas 35 vêem a luz do dia, e só 19 obtêm sucesso.  
A pressão  dos mercados alterou profundamente as regras do jogo publicitário que até há cerca de 30 anos se resumia a propostas inocentes como “Omo lava mais branco” ou “Vaqueiro torna tudo mais apetitoso”. Mas alterou também a forma de nos relacionarmos com os produtos e dificultou a forma de fazer as nossas escolhas.  Já não procuramos o duradouro. Somos seduzidos pelas novas tecnologias que apenas nos prometem o prazer efémero de comprar hoje a última novidade mas, passados poucos meses, somos obrigados a admitir que temos em casa uma velharia.

Aviso: Hoje é o Dia Mundial da Poupança. Recuperei este texto, que  há tempos  escrevi para a revista Tempo Livre, porque me parece enquadrar-se dentro do espírito do que deve ser um consumidor sustentável

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Eu que o diga!

Há poucos minutos pude comprovar a veracidade desta definição e estou apto a acrescentar mais um pequeno detalhe:
E até se podem ver estrelas em noite nublada.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

It´s magic!

Desta vez trouxe-vos um pequeno souvenir da minha viagem. Espero que gostem. Carreguem no tablet e desfrutem.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Just arrived

Regressei a Lisboa ao princípio da noite. Como não levei comigo nenhum aparato tecnológico, para além do velhinho telemóvel, quando cheguei a casa, liguei-me à Net.
Agradeço a todos/as amigos/as que me enviaram os parabéns aqui, no On the rocks no FB e no Twitter. Amanhã visitarei cada um de vocês para agradecer individualmente a vossa simpatia e amizade. Bem hajam!

De pequenino...





... se começa a treinar para ser Homem

sábado, 25 de outubro de 2014

Porque hoje é sábado

 Picnic
Julius Leblanc Stewart
Pintor norte americano (1855-1919)


De tarde

Naquele pique-nique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O mundo mudou!

Desde o dia em que nasci muita coisa mudou!



O Capuchinho Vermelho  é uma  psicanalista de sucesso e vive com o Lobo Mau. Mas ainda não conseguiu concordar com nenhuma das   154 765 interpretações que já fizeram da história


 A Branca de Neve trocou os 7 anões por um marido e uma catrefa de filhos

 A Bela Adormecida  não quer nem ouvir falar de Príncipes Encantados...


 A Barbie engordou

 O Super homem  ganhou barriga

 Estes dois continuam a divertir-se, mas agora num asilo
 O Homem Aranha  está ligado à máquina



A Gata Borralheira divorciou-se e  passa a vida em bares, à espera que alguém lhe pague um copo

E eu?



 Nunca fui personagem de banda desenhada, nem de contos infantis, adquiri finalmente  o estatuto de sénior, mas continuo à espera da reforma. Enquanto não chega, vim para aqui passar uns dias.  É uma forma de aproveitar os descontos nos transportes....

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Obrigado, ACP!

ACP: a servir os automobilistas desde 1903


Sou sócio do ACP desde um dia de Janeiro, de um qualquer ano da década de 90. Estava de passagem por Lisboa e fui apanhado por um temporal desgraçado. A intensidade da chuva e a imperícia de uma condutora deixaram o meu carro atascado na Rainha D. Amélia. (Nos anos 90, apesar de António Cosat ainda não ser presidente da câmara,  já havia inundações em Lisboa, imaginem só!)  Foi o ACP que me socorreu e tirou de apuros. Como o tem feito diversas vezes, desde que regressei a Portugal. 
Tenho uma grande dívida de gratidão pelo ACP. Pelos serviços que presta, pela prontidão com que me tirou de apuros, sempre que precisei de recorrer ao seu reboque, pela simpatia do pessoal que lá trabalha.
Este ano  tive de revalidar a carta. O mais provável era ter-me esquecido de  o fazer, não fosse ter recebido em Maio ou Junho uma carta do ACP, alertando-me para cumprir essa obrigação e disponibilizando os serviços para me prestar o apoio nessa tarefa. 
Por estes tempos, o IMT é uma balbúrdia pegada, ainda pior que uma Repartição de Finanças. A culpa não é dos funcionários, mas sim de quem teve a ideia de tornar os serviços quase inoperacionais, com a desculpa habitual da necessidade de os rentabilizar  e  tornar mais eficazes. 
Como aconteceu noutros serviços, o resultado foi transformarem o IMT num pandemónio.
Foi por isso, com grande alívio e sem a mínima hesitação, que decidi aceitar a “oferta”do ACP.
Marquei por telefone o exame médico para uma manhã de Julho. Poucos minutos depois da hora marcada era atendido por um médico simpático que me observou e fez alguns testes, para ver se estava apto para conduzir. 
Aprovado nos testes, os serviços administrativos comunicaram-me que a nova carta seguiria para minha casa mas avisaram-me, desde logo, que se em meados de Outubro não a tivesse ainda recebido deveria contactar com o ACP.
No dia 20 de outubro, poucos dias antes do meu aniversário, telefonei a informar que ainda não havia vestígios de uma carta de condução renovada na minha caixa do correio.  Disseram-me, então, para ir a uma qualquer delegação do ACP e pedir uma guia de substituição, porque o IMT ainda não tinha emitido a carta. Aproveitei a hora do almoço e fui à Av da República onde, mais uma vez, pessoal solícito e disponível me emitiu uma guia que me permite conduzir até Abril de 2015. 
Resumindo: com toda a comodidade tratei das burocracias inerentes à renovação da carta de condução. Sem filas de espera e com celeridade. Se tivesse optado por ir ao IMT, teria perdido horas em filas e levaria na mão um atestado médico, confirmando a minha capacidade para conduzir, pelo qual teria de desembolsar umas dezenas de euros. O ACP tornou-me a vida muito mais fácil e por isso lhe agradeço. 
Lamento é que o IMT, outrora um serviço de qualidade, se tenha transformado, graças à acção destruidora deste governo, num embaraço para os cidadãos que querem cumprir os seus deveres.   

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Às vezes passam-me estas coisas pela cabeça Deve ser do calor!

Pegando no exemplo dos juizes do Supremo Tribunal Administrativo, que reduziram o valor de uma indemnização, alegando que a lesada, tendo já mais de 50 anos e dois filhos, não tinha  muitas necessidades sexuais, lembrei-me que o princípio pode ser aplicado a outras situações.
Apenas um exemplo:
Um homem ( filho) que matou uma velhinha (mãe) de 80 anos para a roubar, pode ver a sua sentença reduzida, se o juiz  alegar que aos 80 a vida já não tem o mesmo sabor...

terça-feira, 21 de outubro de 2014

O lado B da violência doméstica



A violência doméstica tornou-se um tema comum dos noticiários.
As notícias mais relevantes e que mais inflamam a opinião pública,  centram-se essencialmente em mulheres assassinadas pelos maridos ( Embora, nos últimos tempos, tenham sido frequentes as notícias sobre crimes que atingem também as/os filhas/os, que saíram em defesa das mães).
A violência doméstica, porém, não se restringe à violência entre marido e mulher, tendo quase sempre como móbil o ciúme ou a rejeição.
Há outro tipo de violência doméstica que nos deve fazer pensar maduramente sobre o modelo de sociedade que estamos a construir. Refiro-me à violência exercida por filhos contra as mães.
Normalmente são homens que, em idade adulta, continuam a viver com as mães, por uma questão de comodidade ou puro egoísmo/oportunismo. Conheço alguns casos.  
Muitas destas relações entre filhos e mães são vidas de violência permanente. Tudo começa quando os filhos assumem a predominância  da relação, exercendo  partir de determinado momento, uma impiedosa chantagem  emocional sobre as mães. Tudo começa com insultos e ameaças. Depois, estas situações evoluem rapidamente para a violência física, sempre escamoteada pelas mães que tendem a tudo perdoar. 
Só este ano. lembro-me de três casos em que os filhos assassinaram- ou feriram gravemente-as mães. O móbil dos crimes foi sempre o dinheiro.
A comunicação social não dá o devido relevo a estas situações e também não vejo/ouço/ leio comentadores a abordarem estes casos, com a profundidade que mereciam. No entanto eles existem e estão a aumentar. E não se culpe apenas a crise. O modelo educacional e civilizacional que construímos nas últimas décadas, em que a criança passou a ser o centro do mundo, é o principal responsável pelo desrespeito dos filhos em relação às mães com quem viveram numa família quase sempre monoparental.
As crianças têm direitos, mas desobrigá-las dos seus deveres, não me parece ser ajuizado. Quando isso não acontece, sucedem situações, logo na adolescência, que fomentam a criação de pequenos monstros.
Estou a lembrar-me, por exemplo, do caso do filho da porteira da minha falecida irmã. Estávamos nos anos 90, década do consumismo exacerbado, onde cada jovem já se impunha no seu círculo de amigos, pelo vestuário de marca ou gadgets da moda.
 Jovem que nunca ultrapassou os problemas da desestruturação familiar,  foi educado pela mãe, com quem vivia, mas teve sempre como ídolo o pai bêbado que batia na mãe , por razões fúteis como o ciúme, ou porque que o seu clube perdia.
Aos 19 anos surpreendeu  o prédio inteiro com uma algazarra. De faca em riste, exigia à mãe que lhe desse dinheiro para a entrada de um carro, senão matava-a. 
A intervenção pronta dos vizinhos evitou uma tragédia. Foi apresentada queixa à polícia. A mãe saiu em defesa do filho e tudo ficou sanado. Até ao dia em que, imitando o pai, o jovem puxou do cinto e deu uma tareia na mãe. Nesse dia a mulher foi parar ao hospital e a polícia agiu em conformidade.
Não são raros estes casos e não se restringem à classe média baixa. É muito mais abrangente, mas todos fecham os olhos. Basta , no entanto, ir a um supermercado e ver uma criancinha a fazer birra, porque a mãe lhe recusou uma gulodice ou um brinquedo, para vermos o futuro. 
Devíamos estar mais atentos, para evitar esse futuro.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Desbloqueador de conversa



Estes dias de calor são um excelente desbloqueador para conversas nos elevadores.  Foi isso que fiz quando entrei em casa ao princípio da tarde. Comigo subiu no elevador a vizinha do 9º andar, senhora de grandes atributos físicos. Acabara de sair da piscina e, contrariando as regras do condomínio, ia em biquini.
Cumprimentei-a como habitualmente mas, em vez de lhe perguntar "Como está" ( para que havia eu de perguntar se estava a ver que ela estava em excelente forma física?), disse sem pensar:
- Está um calor de ananases! Se tivesse tempo, também ia dar um mergulho.
Ela olhou para mim de sobrolho franzido e respondeu:
- Tem bom remédio. Basta ficar no desemprego como eu, que tem tempo para dar muitos mergulhos.
Embatuqiei, mas recompus-me rapidamente e derivei a conversa  para esse outro  tema quente que incendeia a sociedade portuguesa. Quando chegámos ao 9º andar e ela saiu, a temperatura baixou consideravelmente dentro do elevador.

O tempo das maçãs


Qual será a próxima?

sábado, 18 de outubro de 2014

Porque hoje é sábado



Um camionista parou num restaurante para tomar o pequeno almoço. Pede uma sandwich, un café e uma fatia de bolo.
Quando a empregada lhe traz o pedido, entram três  motoqueiros “en blue jeans et blouson de cuir” que se sentam na mesa ao  lado.
Um come a sandwich, outro bebe o café e o terceiro abotoa-se com a fatia de bolo.
O camionista levanta-se sem dizer uma palavra e sai.
Um dos motoqueiros diz entre risos:
- Aquele gajo não é homem nem é nada!
Os outros acompanham-no na galhofa
Atrás do balcão, a empregada acrescenta:
- E também me parece que não é lá grande condutor. Vejam lá como ele passou com o camião por cima das vossas motos!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Cuidado com a língua!




Na semana passada uma amiga publicou algumas fotografias dela no FB. A cada uma respondi com um piropo.(Ela parece mesmo um helicóptero- é gira e... boa. Além disso, consta-me que é filha de um terrorista, porque é cá uma bomba!...)
Ainda bem que a proposta do Bloco de Esquerda para criminalizar o piropo  foi chumbada, senão já estava a contas com tantos processos, que  saía da cadeia directamente para o cemitério.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Aula de oftalmologia

Não fumava. Não bebia. Era tímido no contacto com as mulheres. Uma tarde, na Ateneia, deixou-se enfeitiçar pelos óculos pendurados num nariz protuberante. Casaram. Nasceram três dioptrias.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Excentricidades



Acabo de ir apostar no Euromilhões. A fila é grande. Há muita gente a tentar a sorte. Se ganhar, faz como eu. Vai receber o dinheiro, entrega  o quinhão legal à fulana que faz as contas do bordel e pira-se para um país decente, antes que a fulana chame o chefe do gang para confiscar a totalidade do prémio. 
A fila vai avançando a bom ritmo mas o fulano à minha frente tem uma surpresa reservada. Puxa de um maço de talões e pede à empregada que confira se têm prémio.  Começo a pensar numa alternativa mas já são quase seis da tarde e não há nenhum outro local por perto onde possa registar o meu palpite.
Decido aguentar firme. A operação prolonga-se por quase meia hora ( a empregada dir-me-á mais tarde que eram 96 os talões), a máquina regista prémios no valor de 127€.
 Há gente a bufar atrás de mim. Conferidos os prémios, segue-se a fase de registo dos boletins. Comparativamente, muito rápida No final, a empregada entrega-lhe um papel com a quantia a pagar. 
Lentamente, o homem mete a mão no bolso e saca de um maço de notas enroladas num elástico. Começa a contar o dinheiro em voz alta.  Paga. A custo não abro a boca de espanto, quando percebo a quantia que vai pagar Recebe o troco e vai à vida.
Deixo sair um suspiro de alívio. Entrego um boletim para registo no valor de 2€ e peço à funcionária que me dê mais uma aposta escolhida aleatoriamente pela máquina.
Saio do centro comercial e sigo pela rua a pensar que excentricidade era eu ganhar o Euromilhões com 4€, depois de o tipo à minha frente ter pago 3 mil!
(Ainda mais excêntrico era poder meter o boletim à hora a que acabo de escrever este post)

Vamos fazer amigos?


Ontem publiquei isto no FB mas, como ainda me estou a rir, pensei que valia a pena partilhá-lo convosco.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Em Parte Incerta...





Não classificaria o filme como um “thriller” e muito menos como um policial, como já por aí vi escrito. Até eu percebi, desde o início, que David Fincher me pretendia vender uma  “Gone Girl” ( título original) muito certinha, mas não me deixei ir na conversa deles.
“Em Parte Incerta” é um filme sobre a sociedade actual, onde as pessoas se deixam manipular pelos media e vertem as suas emoções em função do que eles nos querem vender. Nada melhor do que explorar a violência doméstica para “obrigar” as pessoas a tomarem partido pela vítima.  E se no argumento houver uma tontinha,  capaz de proclamar a amizada para disseminar a calúnia e  dar mais veracidade à história, tanto melhor.
David Fincher brinca com o espectador até à exaustão, trocando-lhe as voltas, de cada vez que  pensa ter descoberto a verdade.
Envolvido num permanente jogo de enganos, o espectador vai caindo nas ratoeiras que ardilosamente Fincher lhe coloca e só perto do final começa a perceber que foi “gozado”. É nesse momento que muitos pensarão no ditado “ Entre marido e mulher não metas a colher” e se arrependerão de ter seguido o caminho mais fácil, que lhes é sugerido. As aparências iludem mesmo!
Claro que Fincher tem em Ben Affleck um compincha de peso para a sua estratégia. Com aquele ar de sonso mal disfarçado, facilmente cria uma antipatia no espectador que não hesita em afirmar, inequivocamente “ Guilty!” , depois de "perceber" que o gajo é um escroque 
O ar ingénuo e delicodoce de Rosamund Pike contém, por outro lado, os ingredientes necessários para a tornar uma vítima apreciada e apaparicada pelos espectadores. Não me espantarei, se o papel lhe valer um Óscar…
Quando a maioria descobre o logro, já é tarde. David Fincher já os fez corar de vergonha, por terem feito juízos precipitados.  Quanto àqueles como eu, que  se julgam vivaços  e estão a rebolar-se de gozo na cadeira, murmurando entre dentes  a mim já não me enganas pá! Vi os filmes do Hitchcock todos e já sabia que isto ia acabar assim, também têm boas razões para se envergonharem e meterem a viola no saco. 
É que ainda faltam  20 minutos de filme e o maquiavélico realizador  de Se7en  tem mais uma surpresa reservada para eles. Este americano é tramado. As voltas que ele dá para nos dizer que o casamento é um contrato de risco e dá muito trabalho!
Em resumo: um filme que vale a pena ver, mesmo que já tenha lido o livro. Disse-me, quem o leu, que o final de Fincher nada tem a ver com o do livro de Gillian Flynn. E outra coisa não seria de esperar…

Chega!

Ó S. Pedro:
Eu sei que andas com problemas  de incontinência urinária, mas....
Não podes ir mijar para outro lado?
É que já estamos fartos, pôxa!

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Conselhos para o fim de semana



Se está a pensar correr uma meia maratona ( ou vá lá uma mini) durante o fim desemana, para preservar a saúde e se manter em forma, lembre-se disto:

1. Se andar a pé fosse bom para a saúde o carteiro seria  imortal.

2. Uma baleia nada todo o dia, só come peixe, só bebe água e no entanto é gorda.

3. Um coelho corre, salta e vive ao ar livre, mas só dura 15 anos.

4. Uma tartaruga não corre, não faz nada... e vive até aos 450 anos.

Ou então faça como eu. Se o tempo o permitir, borrifo-me para os conselhos e vou dar uma bela passeata. A pé...
Tenham um excelente fim de semana.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Os gatos não têm vertigens




Durante mais de 100 minutos o filme prendeu-me. António Pedro Vasconcelos dilacerou-me com dramas transversais à sociedade portuguesa: a solidão dos idosos, a delinquência juvenil, as famílias disfuncionais. A amizade improvável entre uma idosa  que acabara de enviuvar e um jovem desenraizado que se refugia na escrita para fugir à delinquência está bem urdida, prende a atenção, desperta emoções e alguns sorrisos.
A partir de determinada altura comecei a imaginar os diversos finais possíveis. Todos mais ou menos trágicos.  Previsíveis. Reais.  
Nos últimos  15/20 minutos, porém, António Pedro Vasconcelos cedeu às audiências e optou por um final feliz. Improvável. Pouco credível. Moralista.
Se te portares bem e tiveres um poucochinho de sorte, podes passar de um potencial bandido a escritor de sucesso e, como brinde, ainda arranjas uma namorada bonita com uma profissão improvável para a idade que tem.
Para telenovela, talvez não esteja mal. Para um filme sério, o final é descoroçoante. Irreal e lamechas. Se a vida fosse assim, viveríamos no Paraíso. Os maus eram expulsos e os arrependidos ficavam no Limbo à espera da recuperação completa. Infelizmente, a vida é totalmente ao contrário. António Pedro Vasconcelos sabe-o muito bem, mas também sabe que se o  final fosse realista , o filme não seria um êxito de bilheteira.

Compreendo a cedência mas, em vez de ser tão explícito, poderia deixar os espectadores na dúvida. Os finais felizes ficam bem nos contos de fadas. Num filme sério que por vezes nos vergasta com o lado mais sórdido da vida real, não deveria haver espaço para facilitismos que conduzem a finais felizes. 
Mesmo quando um potencial sem abrigo tem a sorte de encontrar refúgio numa varanda com uma vista soberba sobre Lisboa, a vida não é assim. Infelizmente. 
Resumindo: se forem ver o filme, saiam no momento em que comecem a perceber que aquilo vai descambar para conto de fadas, livro de cordel ou telenovela. Depois,quando regressarem a casa,entretenham-se a construir um final  realista.  

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

La solitude, ça n'existe pas?




"Chez moi il n'y a plus que moi
Et pourtant ça ne me fait pas peur
La radio, la télé sont là
Pour me donner le temps et l'heure
J'ai ma chaise au Café du Nord
J'ai mes compagnons de flipper
Et quand il fait trop froid dehors
Je vais chez les petites sœurs des cœurs

La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas"
(Gilbert Bécaud)

Só ouvi falar dele no dia da sua morte. Erro meu, que não perco um minuto a ver telenovelas. Fiquei a saber que Rodrigo Meneses  era actor de telenovela e foi encontrado morto em casa no sábado. Ou, como escrevia o Correio da Manha: 
“ Rodrigo Menezes acordou morto. Autoridades estão no local a apurar as causas da morte do ator que esta manhã acordou morto” 
Eu sei que é um bocado tétrico estar a gozar com a javardice de jornalistas, que escrevem textos assim e de editores que deixam  passar notícias destas,  quando se está a falar de alguém que morreu e, ainda por cima, parece colher a simpatia de milhões de portugueses. Mas nos funerais  parece que é  normal contar anedotas para descontrair e eu estou a fazer o mesmo, porque o que vem a seguir é  ( pelo menos para mim) um assunto bastante sério.
Rodrigo Meneses era actor de telenovela e tinha apenas 40 anos. Colegas e público não se cansaram de enaltecer as suas qualidade de actor e de ser humano. Razões suficientes para lamentar a sua morte, mesmo não o conhecendo nem nunca o tendo visto actuar.  Mas não é a idade ou as qualidades de Rodrigo Meneses que me levam a escrever este post.  É o que soube a seguir: estava morto em casa desde quinta- feira! Foi então que me arrepiei.
Como é que uma pessoa admirada e elogiada pelos amigos e colegas de trabalho, permaneceu dois dias morto em casa, sem que ninguém se tivesse apercebido?  Como é que uma pessoa aparentemente popular, sociável e estimada por amigos e colegas, consegue fugir ao escrutínio da morte e só é encontrado dois dias depois?
Que haja velhos que morrem e só são encontrados  semanas, meses, ou anos depois  impressiona-me, custa-me a aceitar, mas compreendo, porque  os velhos têm tendência a isolar-se progressivamente, principalmente quando não têm família chegada por perto.  Agora, quando isso acontece com uma pessoa de sucesso,  na flor da idade, popular , “ com muitos amigos”  causa-me muita impressão e perplexidade.
Só a solidão pode explicar que uma pessoa sociável, com um círculo vasto de “amigos”,  seja encontrada em sua casa, cadáver, apenas dois dias após a sua morte. Isso assusta-me, mas é a realidade deste mundo individualista onde se cultivam as aparências.
La solitude, ça n'existe pas? As aparências iludem, mon cher Gilbert Bécaud!

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Uma boa razão ( ou talvez não...)

- Porque nunca te casaste?
- Porque nunca suportei a ideia do divórcio
- Sempre pessimista. Se tivesse de te divorciar, qual era o problema?
- Nunca mais podia voltar a ser solteiro.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Não sou puritano mas...



Detesto o palavrão gratuito.
Pousar numa esplanada para ler um livro tranquilamente e ter um grupo de jovens por perto é, hoje em dia, uma actividade de risco.
Quando era jovem também tinha conversas acaloradas  em esplanadas, onde o vernáculo entrava com frequência mas, assim que se aproximavam  adultos, o tom da conversa baixava de tom e se alguém largava um palavrão, fazia-o sempre num sussurro, de modo a que os decibéis não ultrapassassem o perímetro das nossas mesas.
Hoje em dia, o palavrão tornou-se democrático e, pior do que isso, quem os profere faz gala nisso. Nas conversas entre jovens, em cada três palavras entra um palavrão. Os jovens parecem fazer gala do uso do palavrão e de o exibir como prova de maturidade.
 Não estou a generalizar. Há jovens educados e respeitadores mas seja em Camarate, na Picheleira, no Parque das Nações ou na marina de Cascais, o palavrão não escolhe lugares nem classes sociais.
 Ah, por falar na marina de Cascais... ontem à hora do almoço assiti a uma conversa familiar entre uma jovem, o pai e outra pessoa de idade a quem ela chamava "tiuu" com aquele sotaque próprio das "meninas da Linha", de fazer corar as pedras da calçada. 
Bem, mas essa história fica para outro dia. Hoje, fico-me pela manifestação de repúdio à democraticidade do palavrão.

Está nos livros (11)

" Na adolescência, recordo-me muito bem, a palavra "homem" era uma família de palavras: viril, capaz, forte, dominador,controlador,responsável. Considerando a nossa família, o whisky era a única forma de fazer do meu Pai um homem"
( Patrícia Reis in "o que nos separa dos outros por causa de um copo de whisky")

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Give me a break!




Não sei se isto acontece em todo o país mas, pelo menos na zona de Cascais e Estoril, é cada vez mais difícil ir a um supermercado e respeitar escrupulosamente a lista de compras. 
Não é que me deixe seduzir pelas promoções. Sou imune a essa técnica de marketing, quando não preciso de um produto.
O que me obriga a gastar sempre mais do que o previsto são os peditórios à entrada dos supermercados. A princípio era só o Banco Alimentar Contra a Fome, duas vezes por ano, mas agora  a moda proliferou e, desde centros de apoio aos sem abrigo,  a associações da mais diversa índole ( contra o cancro, contra a sida, contra a leucemia, etc. etc. etc.), mais a AMI a Caritas e outras instituições que dizem praticar o bem,  há sempre alguém à minha espera nos fins de semana em que tenho de ir ao supermercado. 
É uma prática que chega a ser incentivada pelas próprias cadeias de supermercados, que são quem mais lucra com estes peditórios.
Explorar a solidariedade (?) dos portugueses tornou-se um hábito tão banal, que às vezes as instituições  se tornam autênticas pragas.
Vem isto a propósito de um peditório que este fim de semana vai decorrer em alguns supermercados, (pelo menos no Estoril e em Cascais) no âmbito das comemorações do Dia do Animal. Promovido por duas associações de apoio aos animais, os voluntários vão estar a pedir...comida para animais! 
Eu adoro bichos-e não só os domésticos- mas acho que num país em crise pedir comida para animais é um insulto a quem vai a um supermercado com o dinheiro contado para comprar um pacote de leite e meia dúzia de carcaças!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

L'été indien



Não vivia cá no tempo em que os filmes indianos fizeram furor em Portugal, enchendo plateias e provocando mares de lágrimas, mas chegou-me notícia  do estupor dos tugas perante a filmografia delicodoce proveniente das terras onde Vasco da  Gama, apesar de conduzido por Deus, perpretou algumas das maiores atrocidades do colonialismo luso.
Um dia, embora a contragosto, fui ver este filme. Apanhei um murro no estômago. Apesar de o realizador ser inglês, mudei a minha opinião sobre o cinema indiano. (O cinema também nos permite estas reacções confusas de incoerência e inconsistência)
Por estes dias, dois filmes indianos produzidos e realizados nos anos 60, estão a ser exibidos em Lisboa:  Charulata (1964) e O Cobarde (1965). Ambos têm merecido grandes aplausos da crítica  que lhes atribui entre 4 e 5 estrelas.
Embora desconfie dos críticos de cinema, tanta unanimidade despertou-me  curiosidade , por isso os coloquei na minha lista de "filmes a não perder". 
Pelo menos um deles, hei-de ver mas, se algum leitor tiver informação que me possa ajudar, agradeço.É que se puder evitar xaropadas que me são vendidas pela crítica como obras de arte, fico-vos eternamente grato.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Da consciência de ser velho



Apercebi-me que estava a envelhecer, quando reparei que já não mudava de emprego, nem de país, com a frequência habitual. Foi há cerca de 10 anos.
No Verão de 2009 houve outra situação, mais marcante, que de forma iniludível  me ajudou a perceber que estava a ficar velho. No dia em que deixei Estocolmo, não me despedi dizendo "até à próxima", como sempre fazia.
Até uma determinada idade, quando saímos de uma cidade ou de um local de que gostámos, dizemos sempre até à próxima. Isso não significa que lá voltemos, mas sabemos que ainda temos idade para (se nos apetecer e tivermos dinheiro) lá voltar. Quando saí de Estocolmo tive, pela primeira vez, a consciência de que dificilmente voltaria lá. Por isso despedi-me com um "até à minha próxima vida". Reconheci, tacitamente, que estava ficar velho e percebi que viajar também nos ajuda a envelhecer. No entanto, ainda não me considero velho. Apenas em estado progressivo de envelhecimento...