segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Em Parte Incerta...





Não classificaria o filme como um “thriller” e muito menos como um policial, como já por aí vi escrito. Até eu percebi, desde o início, que David Fincher me pretendia vender uma  “Gone Girl” ( título original) muito certinha, mas não me deixei ir na conversa deles.
“Em Parte Incerta” é um filme sobre a sociedade actual, onde as pessoas se deixam manipular pelos media e vertem as suas emoções em função do que eles nos querem vender. Nada melhor do que explorar a violência doméstica para “obrigar” as pessoas a tomarem partido pela vítima.  E se no argumento houver uma tontinha,  capaz de proclamar a amizada para disseminar a calúnia e  dar mais veracidade à história, tanto melhor.
David Fincher brinca com o espectador até à exaustão, trocando-lhe as voltas, de cada vez que  pensa ter descoberto a verdade.
Envolvido num permanente jogo de enganos, o espectador vai caindo nas ratoeiras que ardilosamente Fincher lhe coloca e só perto do final começa a perceber que foi “gozado”. É nesse momento que muitos pensarão no ditado “ Entre marido e mulher não metas a colher” e se arrependerão de ter seguido o caminho mais fácil, que lhes é sugerido. As aparências iludem mesmo!
Claro que Fincher tem em Ben Affleck um compincha de peso para a sua estratégia. Com aquele ar de sonso mal disfarçado, facilmente cria uma antipatia no espectador que não hesita em afirmar, inequivocamente “ Guilty!” , depois de "perceber" que o gajo é um escroque 
O ar ingénuo e delicodoce de Rosamund Pike contém, por outro lado, os ingredientes necessários para a tornar uma vítima apreciada e apaparicada pelos espectadores. Não me espantarei, se o papel lhe valer um Óscar…
Quando a maioria descobre o logro, já é tarde. David Fincher já os fez corar de vergonha, por terem feito juízos precipitados.  Quanto àqueles como eu, que  se julgam vivaços  e estão a rebolar-se de gozo na cadeira, murmurando entre dentes  a mim já não me enganas pá! Vi os filmes do Hitchcock todos e já sabia que isto ia acabar assim, também têm boas razões para se envergonharem e meterem a viola no saco. 
É que ainda faltam  20 minutos de filme e o maquiavélico realizador  de Se7en  tem mais uma surpresa reservada para eles. Este americano é tramado. As voltas que ele dá para nos dizer que o casamento é um contrato de risco e dá muito trabalho!
Em resumo: um filme que vale a pena ver, mesmo que já tenha lido o livro. Disse-me, quem o leu, que o final de Fincher nada tem a ver com o do livro de Gillian Flynn. E outra coisa não seria de esperar…

8 comentários:

  1. «Já não sei se somos realmente humanos nesta altura, aqueles de nós que são como a maior parte, e que cresceram com televisão e filmes e agora a Internet. Se somos traídos, sabemos as palavras que devemos dizer; quando um ente querido morre, sabemos as palavras que devemos dizer. Se queremos fazer o papel de conquistador, espertalhão ou idiota, sabemos as palavras que devemos dizer. Trabalhamos todos a partir do mesmo guião já muito batido. É um período muito difícil para se ser uma pessoa a sério e real, em vez de uma colecção de traços de personalidade seleccionados a partir de uma máquina de venda automática de personagens. E se estamos todos a representar, não pode existir uma alma gémea, porque não temos almas genuínas.»

    Comecei esta tarde a ler o romance e amanhã tenciono ver o filme.

    ResponderEliminar
  2. Não vi o filme, nem li o livro!

    Boa semana Carlos.

    Beijinho e uma flor

    ResponderEliminar
  3. Para nomes sou um desastre, como é sabido.

    Quando li que era o mesmo realizador de"Os Sete Pecados Mortais", que muito me impressionou, melhorei a minha opinião sobre o filme.

    Há anos vi um filme no cinema que também nos enrolava por completo ao longo do enredo e tinha como protagonista masculino o actor que interpreta o assassini de "Sev7n" e que acheu uma obra incrível!

    Pois, como se diz ...as aparências iludem.

    Meu amigo, bons sonhos e obrigada pela recensão :)

    ResponderEliminar
  4. Este é dos tais que por aqui passará.
    E é para ver.

    ResponderEliminar
  5. Fincher foi sempre uma segura realidade.
    Affleck passou de um actor medíocre a um realizador interessante e a um actor surpreendente nos últimos tempos.

    ResponderEliminar
  6. Não li o livro, mas vou pedir ao meu cunhado para sacar o filme!!!

    Beijinhos.

    ResponderEliminar
  7. O filme termina como o romance; Carlos, "um climax longo e assustador".

    "Não tenho mais nada a acrescentar. Queria apenas certificar-me de que tinha a última palavra. Creio que mereço isso" são as últimas palavras da Amy.

    Perversidade no seu melhor.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu sabia que ia gostar, Teresa. Usou a palavra certa: perverso. O filme é de uma perversidade deliciosa, realmente.
      Estou a ver que o nosso Porto nos reaproxima.

      Eliminar