quarta-feira, 8 de outubro de 2014

La solitude, ça n'existe pas?




"Chez moi il n'y a plus que moi
Et pourtant ça ne me fait pas peur
La radio, la télé sont là
Pour me donner le temps et l'heure
J'ai ma chaise au Café du Nord
J'ai mes compagnons de flipper
Et quand il fait trop froid dehors
Je vais chez les petites sœurs des cœurs

La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas"
(Gilbert Bécaud)

Só ouvi falar dele no dia da sua morte. Erro meu, que não perco um minuto a ver telenovelas. Fiquei a saber que Rodrigo Meneses  era actor de telenovela e foi encontrado morto em casa no sábado. Ou, como escrevia o Correio da Manha: 
“ Rodrigo Menezes acordou morto. Autoridades estão no local a apurar as causas da morte do ator que esta manhã acordou morto” 
Eu sei que é um bocado tétrico estar a gozar com a javardice de jornalistas, que escrevem textos assim e de editores que deixam  passar notícias destas,  quando se está a falar de alguém que morreu e, ainda por cima, parece colher a simpatia de milhões de portugueses. Mas nos funerais  parece que é  normal contar anedotas para descontrair e eu estou a fazer o mesmo, porque o que vem a seguir é  ( pelo menos para mim) um assunto bastante sério.
Rodrigo Meneses era actor de telenovela e tinha apenas 40 anos. Colegas e público não se cansaram de enaltecer as suas qualidade de actor e de ser humano. Razões suficientes para lamentar a sua morte, mesmo não o conhecendo nem nunca o tendo visto actuar.  Mas não é a idade ou as qualidades de Rodrigo Meneses que me levam a escrever este post.  É o que soube a seguir: estava morto em casa desde quinta- feira! Foi então que me arrepiei.
Como é que uma pessoa admirada e elogiada pelos amigos e colegas de trabalho, permaneceu dois dias morto em casa, sem que ninguém se tivesse apercebido?  Como é que uma pessoa aparentemente popular, sociável e estimada por amigos e colegas, consegue fugir ao escrutínio da morte e só é encontrado dois dias depois?
Que haja velhos que morrem e só são encontrados  semanas, meses, ou anos depois  impressiona-me, custa-me a aceitar, mas compreendo, porque  os velhos têm tendência a isolar-se progressivamente, principalmente quando não têm família chegada por perto.  Agora, quando isso acontece com uma pessoa de sucesso,  na flor da idade, popular , “ com muitos amigos”  causa-me muita impressão e perplexidade.
Só a solidão pode explicar que uma pessoa sociável, com um círculo vasto de “amigos”,  seja encontrada em sua casa, cadáver, apenas dois dias após a sua morte. Isso assusta-me, mas é a realidade deste mundo individualista onde se cultivam as aparências.
La solitude, ça n'existe pas? As aparências iludem, mon cher Gilbert Bécaud!

8 comentários:

  1. Lamento muito a morte do rapaz! Por ser novo, muito novo; por ser jovem pai; por ter uma carreira mais ou menos firme...

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  2. Nos dias que correm, não admira muito: basta viver sozinho! Mesmo que lhe tenham telefonado ou batido à porta, simplesmente consideraram que não estava disponível. Ao fim dos dos dois dias, sim, já se começa a estranhar a falta de contato ou resposta...

    Beijocas

    ps - espero que o comentário passe, que não tenho conseguido publicá-los!

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  3. Uma rotina ao abrir o computador é ler os noticiários daqui e de fora e tenho o link do 'Jornal de Notícias', de Portugal onde essa notícia me chamou atenção pelo fato de ser um ator ainda tão jovem .Dependendo de como a pessoa vive pode acontecer uma situação triste assim.
    E a solidão existe bem mais do que imaginamos ! estamos todos conectados e sozinhos a maio parte do tempo.Ou não ?
    Um abraço Carlos
    bons dias

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  4. Há coisas que a gente não percebe, Carlos.

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  5. Ainda se compreende menos quando se sabe que sofria de epilepsia e tinha dado a chave de casa a amigos para que fossem ver o que se passava se não aparecesse...

    Sabes da anedota que circula no facebook ? É um pouco isso.

    Fica bem, amigo

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  6. É consequência de se viver numa sociedade da indiferença!

    Amigos??? Não! Simples conhecidos!

    Beijinhos.

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  7. Sabia da morte do ator, por ler algumas "gordas" sobre o caso ( por acaso não as do CM)... Mas não tinha conhecimento desse triste detalhe.

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  8. Nunca a solidão foi tão profunda quanto nos dias de hoje! Sobretudo entre gente jovem...habituada ao mundo estranho das máquinas que substituem pessoas e dão a ilusão de contactos humanos válidos...
    Não acredito nisso e por isso nem fiquei assim tão impressionada... a não ser com o problema de saúde deste.
    Encolhendo os ombros pensei que "não acordar vivo" pode ser uma bênção...ou pode ter sido.
    E a morte não tem cara de velho, por força!... Tal como a solidão.

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