terça-feira, 21 de outubro de 2014

O lado B da violência doméstica



A violência doméstica tornou-se um tema comum dos noticiários.
As notícias mais relevantes e que mais inflamam a opinião pública,  centram-se essencialmente em mulheres assassinadas pelos maridos ( Embora, nos últimos tempos, tenham sido frequentes as notícias sobre crimes que atingem também as/os filhas/os, que saíram em defesa das mães).
A violência doméstica, porém, não se restringe à violência entre marido e mulher, tendo quase sempre como móbil o ciúme ou a rejeição.
Há outro tipo de violência doméstica que nos deve fazer pensar maduramente sobre o modelo de sociedade que estamos a construir. Refiro-me à violência exercida por filhos contra as mães.
Normalmente são homens que, em idade adulta, continuam a viver com as mães, por uma questão de comodidade ou puro egoísmo/oportunismo. Conheço alguns casos.  
Muitas destas relações entre filhos e mães são vidas de violência permanente. Tudo começa quando os filhos assumem a predominância  da relação, exercendo  partir de determinado momento, uma impiedosa chantagem  emocional sobre as mães. Tudo começa com insultos e ameaças. Depois, estas situações evoluem rapidamente para a violência física, sempre escamoteada pelas mães que tendem a tudo perdoar. 
Só este ano. lembro-me de três casos em que os filhos assassinaram- ou feriram gravemente-as mães. O móbil dos crimes foi sempre o dinheiro.
A comunicação social não dá o devido relevo a estas situações e também não vejo/ouço/ leio comentadores a abordarem estes casos, com a profundidade que mereciam. No entanto eles existem e estão a aumentar. E não se culpe apenas a crise. O modelo educacional e civilizacional que construímos nas últimas décadas, em que a criança passou a ser o centro do mundo, é o principal responsável pelo desrespeito dos filhos em relação às mães com quem viveram numa família quase sempre monoparental.
As crianças têm direitos, mas desobrigá-las dos seus deveres, não me parece ser ajuizado. Quando isso não acontece, sucedem situações, logo na adolescência, que fomentam a criação de pequenos monstros.
Estou a lembrar-me, por exemplo, do caso do filho da porteira da minha falecida irmã. Estávamos nos anos 90, década do consumismo exacerbado, onde cada jovem já se impunha no seu círculo de amigos, pelo vestuário de marca ou gadgets da moda.
 Jovem que nunca ultrapassou os problemas da desestruturação familiar,  foi educado pela mãe, com quem vivia, mas teve sempre como ídolo o pai bêbado que batia na mãe , por razões fúteis como o ciúme, ou porque que o seu clube perdia.
Aos 19 anos surpreendeu  o prédio inteiro com uma algazarra. De faca em riste, exigia à mãe que lhe desse dinheiro para a entrada de um carro, senão matava-a. 
A intervenção pronta dos vizinhos evitou uma tragédia. Foi apresentada queixa à polícia. A mãe saiu em defesa do filho e tudo ficou sanado. Até ao dia em que, imitando o pai, o jovem puxou do cinto e deu uma tareia na mãe. Nesse dia a mulher foi parar ao hospital e a polícia agiu em conformidade.
Não são raros estes casos e não se restringem à classe média baixa. É muito mais abrangente, mas todos fecham os olhos. Basta , no entanto, ir a um supermercado e ver uma criancinha a fazer birra, porque a mãe lhe recusou uma gulodice ou um brinquedo, para vermos o futuro. 
Devíamos estar mais atentos, para evitar esse futuro.

10 comentários:

  1. Meu amigo partilho da sua opinião!
    Este é um tema que mexe demais comigo, tudo o que for violência deixa-me muito triste.
    Nunca tive ninguém que me tocasse com um dedo que fosse, mas já sofri de violência psicológica.

    Carlos a minha filhota mais nova sofreu 14 anos de violência domestica, praticada pelo marido, quando não era a bebedeira era a droga, ou as duas coisas juntas.
    Um dia a policia foi tirar a minha filha de casa com os filhos, dia em que ela decediu deixar o marido e não voltou mais, 3 meses depois, o marido disse querer falar com ela sobre os filhos, coisa que ela aceitou, mas foi apenas argumento para a matar, pos-ma no hospital dos covões, fui informada pelos médicos que não iria sobreviver, felizmente enganaram-se ela resistiu e sobreviveu.
    Desde desse dia que ela vive com os seus 3 filhos,o tribunal condenou o marido a dar uma indemnização e sustento aos filhos, coisa que até hoje não foi cumprido, o tribunal penhorou 4 meses de pensão de alimentos para os filhos, mas o dito cujo despediu-se, a única remuneração que entra em casa dela é o abono de 120 €.
    Já divorciada à 3 anos, continua a sofrer de violência, não doméstica, mas psicológica.

    Desculpe meu amigo se não aceitar este comentário, pode eliminar, não me parece mal.

    Beijinho e uma flor

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  2. Um texto que deixa a todos 'mexidos',como se diz por aqui.
    A violência caminha a passos largos _ não sabemos onde vai chegar.. porque há tempos assombra as famílias, com pais e filhos se enfrentando.
    E se é a família o esteio da sociedade,o que podemos esperar quando ela se desestrutura da forma como tem acontecido?_ o caos ...
    Concordo com você quando diz que é necessário ficar atento aos primeiros arroubos infantis para que não se transformem em desatinos violentos ,no futuro.
    Só Deus,Carlos.E talvez. rs
    um abraço

    * obrigada da visita_salmo 15,tá? :))

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  3. Violência doméstica que, de forma autista, continua a não ser crime público em Macau.
    Via a harmonia!
    Nem que seja ao murro e ao pontapé.

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  4. um texto que me deixa muito incomodada e pesarosa, porque é real, embora ande escondido.

    beijinho

    :)

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  5. Qualquer forma de violência doméstica é condenável.
    Todas as crianças passam por essa fase das birras nos supermercados e compete aos pais não ceder a elas. Mas já me aconteceu o meu filho, quando tinha uns 4 anos, estar a fazer birra por um chocolate e a senhora que estava na fila atrás de mim dizer que o oferecia... Obviamente disse à senhora que o meu filho só ia ter um chocolate se eu achasse que devia ter, o que não era o caso... A fase das birras durou pouco, porque não resultaram.
    Mas há uma pressão "silênciosa" por parte da sociedade para manter as crianças sossegadas, nem que seja fazendo-lhes as vontades todas... Infelizmente o resultado é péssimo...

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  6. Parabéns pelo tema e pela excelente abordagem !

    Ainda há outro tipo de violência: a exercida por pessoas idosas sobre quem as cuida..e nessa , então, é que ninguém fala!

    Meu amigo, que tenhas dia muito agradável

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  7. E salvo raras excepções esta violência é exercida sobre mães idosas o que é um crime a duplicar!

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  8. Fizeste muito bem em expor esta vertente da violência doméstica e que é terrível e pelo que vejo, mais comum do que se julga...

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  9. Não conheço nenhum caso destes. Nem em Portugal, nem na Alemnaha.

    Há 3 anos ouvi no Metro do Porto um pai a falar com o filho adolescente com uma tal violência psicológica que, fiquei de tal maneira violenta que por um triz não dei dois murros no pai. Nessa altura escrevi sobre isso no "ematejoca azul".

    Os filhos são os espelhos dos pais: pais violentos, filhos violentos.

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  10. Conheço alguns desses casos...na classe média e média alta.
    Filhos de professores que para terem tudo a que foram (mal) habituados, batem na mães.
    Não eduquei a minha filha, assim...pode ter tido mais do que eu, mas sempre com conta e medida.
    Temo pela geração de "MONSTROS" que se está a criar!!!
    Serão o retrato do nosso lastimável país!

    Beijinhos.

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