quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Os gatos não têm vertigens




Durante mais de 100 minutos o filme prendeu-me. António Pedro Vasconcelos dilacerou-me com dramas transversais à sociedade portuguesa: a solidão dos idosos, a delinquência juvenil, as famílias disfuncionais. A amizade improvável entre uma idosa  que acabara de enviuvar e um jovem desenraizado que se refugia na escrita para fugir à delinquência está bem urdida, prende a atenção, desperta emoções e alguns sorrisos.
A partir de determinada altura comecei a imaginar os diversos finais possíveis. Todos mais ou menos trágicos.  Previsíveis. Reais.  
Nos últimos  15/20 minutos, porém, António Pedro Vasconcelos cedeu às audiências e optou por um final feliz. Improvável. Pouco credível. Moralista.
Se te portares bem e tiveres um poucochinho de sorte, podes passar de um potencial bandido a escritor de sucesso e, como brinde, ainda arranjas uma namorada bonita com uma profissão improvável para a idade que tem.
Para telenovela, talvez não esteja mal. Para um filme sério, o final é descoroçoante. Irreal e lamechas. Se a vida fosse assim, viveríamos no Paraíso. Os maus eram expulsos e os arrependidos ficavam no Limbo à espera da recuperação completa. Infelizmente, a vida é totalmente ao contrário. António Pedro Vasconcelos sabe-o muito bem, mas também sabe que se o  final fosse realista , o filme não seria um êxito de bilheteira.

Compreendo a cedência mas, em vez de ser tão explícito, poderia deixar os espectadores na dúvida. Os finais felizes ficam bem nos contos de fadas. Num filme sério que por vezes nos vergasta com o lado mais sórdido da vida real, não deveria haver espaço para facilitismos que conduzem a finais felizes. 
Mesmo quando um potencial sem abrigo tem a sorte de encontrar refúgio numa varanda com uma vista soberba sobre Lisboa, a vida não é assim. Infelizmente. 
Resumindo: se forem ver o filme, saiam no momento em que comecem a perceber que aquilo vai descambar para conto de fadas, livro de cordel ou telenovela. Depois,quando regressarem a casa,entretenham-se a construir um final  realista.  

9 comentários:

  1. Gostaria de ver o filme. Compreendo o ponto de vista do Carlos mas não me importo se o final é lamechas. Sei que a realidade tem outra dureza mas o sonho retempera a alma. :)

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  2. Parece interessante, já vi filmes que não têm fins felizes!

    Beijinho e uma flor

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  3. Andava tão entusiasma para ver o filme! Agora sinto que me deitou um balde de água fria pela cabeça abaixo!
    Quando me surgir a oportunidade irei vê-lo à mesma. Talvez a minha inalação do final seja diferente da sua....
    Quem pode garantir que os finais das coisas da vida real têm sempre um final trágico e previsível?

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    1. Jesus!! Obviamente que não irei inalar nada!!

      Quis dizer «ilação», como é óbvio!!

      Janita

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  4. Esse deve ser dos tais que só com MUITA sorte por aqui passará.
    Como tal....

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  5. Eu também acredito em finais felizes. Porque não?

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  6. É um tema curioso e do António Pedro de Vasconcelos ! Estou tentado a ir ver ! :))
    .

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  7. Não vi nem tenciono ver.

    Estive a ver"A rapariga que roubava livros".

    Beijinhos.

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  8. ... e da "tentação" passei mesmo à "decisão" ! ... e confesso que não fiquei desiludido !
    Sinceramente, esperava um final mais "estranho" !

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