quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Incompatibilidades

Noite de sexta-feira no Saldanha.
Chega a carrinha com voluntários. Vêm trazer comida e umas palavras de conforto. Mendigos e sem abrigo fazem a fila habitual.  Os voluntários já os conhecem a todos mas, naquele dia, há um  rosto novo.  Não tira os olhos do chão. Quando chega a sua vez, pergunta:
- A sopa tem carne?
- Tem sim. Carne moída, legumes e massa.
- Obrigado. Então não quero...
- Não quer porquê?
- Sou vegetariano. A minha religião não me permite comer carne.
Retira-se de olhos no chão, senta-se no beiral de um prédio e puxa por um cigarro.
(Gostava que esta cena fosse ficção mas, infelizmente, aconteceu mesmo)

21 comentários:

  1. Pode ser "sem-abrigo" mas não "sem-seus princípios".
    Não sou vegetariana mas respeito.

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    1. Concordo consigo. Porém, só depois de ler os outros comentários é que reparei que o fato de ser vegetariano, tinha a ver com religião. Pensei que tinha a ver com a questão de respeito aos animais (como é o caso de muitos vegetarianos). Assim sendo... escreveria outro tipo de comentário:
      Então que procure a sua religião e os seus "irmãos" para o alimentar.

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  2. Emocionei-me!

    Não teriam, pelo menos, pão?

    Beijinhos.

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    1. Tinham, a acompanhar a sopa, Elisa.
      Beijinhos

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    2. Não lhe deram o pão?

      Beijinhos.

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    3. Não, Elisa e a explicação é muito simples. Como o homem se retirou rapidamente e deixou os voluntários surpreendidos, a distribuição continuou e, no final, quando alguém sugeriu que lhe fossem dar o pão sobrante, ele já lá não estava
      Beijinhos

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  3. Pois, infelizmente! Nem sempre as religiões levam a fazer o mais correto, mas...

    Beijinho e uma flor

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    1. Ou, pelo menos, aquilo que nós pensamos não ser o mais correcto, Flor
      Beijinho

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  4. Aí está alguém a quem chamaria de fundamentalista. Mas se calhar sou eu que estou errada e a religião é mais importante que a fome...

    Beijocas

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    1. É um problema muito intrincado, Teté. Eu já vi uma mãe deixar o filho morrer porque a sua religião não permite as transfusões de sangue. Quando a religião é fanatismo todas as reacções nos parecem absurdas.
      Beijinhos

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  5. A mais aviltante condição humana, Carlos.
    Fome, não, isso é horripilante

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    1. Horripilante sim, Pedro, mas suscita questões muito interessantes...

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  6. Ás vezes, só restam os princípios (ou aquilo que se crê como tal) são o que fazem os Homens sentir alguma dignidade, orgulho, normalidade ... apesar da fome

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    1. Como escrevi na resposta ao comentário anterior, ser consequente tem um preço. A questão é saber qual e se vale a pena pagá-lo. Muito subjectivo, obviamente...

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  7. Não compreendo...quem tem verdadeiramente fome, não olha a condicionantes religiosos....

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    1. Não sei não, João. Há fundamentalismos onde menos se espera

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  8. É realmente complicado...até quando levará ele esse fundamentalismo?
    Estará disposto a morrer?
    xx

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