segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Vítima de doença prolongada...

Sempre tive especial apreço pela imprensa regional. Em dois períodos da minha vida, a minha actividade profissional obrigou-me ( com grande prazer, diga-se) a percorrer o país de lés a lés e a viver em vários distritos.  Lia por isso com especial atenção a imprensa regional, que me ajudava a perceber melhor os terrenos que pisava. Foi um hábito que me ficou e ainda hoje, a viver entre Lisboa e o Porto, procuro manter-me a par das notícias de âmbito regional. Deveria, aliás, ser obrigatório a quem dirige o país, a partir dos gabinetes ministeriais, uma leitura da imprensa regional, para melhor perceber os problemas que afectam as várias regiões. 
Na imprensa regional colhi muitas histórias interessantes que, se tiver engenho e saúde, talvez um dia  verta para o papel. Como esta que passo a contar.
Até há bem pouco tempo, havia bastante pudor em escrever " Fulano de tal morreu de cancro". Recorria-se ao eufemismo " Vítima de doença prolongada, faleceu..." e toda a gente ficava a saber que a pessoa tinha morrido de cancro.
Obviamente, a imprensa regional seguia o mesmo receituário. 
Estava eu um dia numa simpática vila transmontana. Era inverno, nevava abundantemente e enquanto hesitava entre arrostar com a intempérie para ir comer a um restaurante afamado pela sua boa gastronomia, ou ficar no hotel e contentar-me com a sua insípida cozinha, peguei no jornal da terra.  Em grande destaque, uma notícia sobre a morte de uma pessoa considerada  um benemérito da terra. Estava doente há bastante tempo,mas a sua morte ocorreu inesperadamente durante um fim de semana, depois de uns dias em que revelara algumas melhoras. 
O jornalista, talvez por desconhecer as causas da morte, recorreu ao jargão habitua e escreveu:
"Faleceu este fim de semana, vítima de doença prolongada ( mas não foi cancro) ...." ( sublinhado meu) a D. Fulana de Tal...
A gargalhada foi inevitável, deixando certamente consternado o recepcionista, que se terá interrogado sobre as razões que me levaram a soltar uma gargalhada enquanto lia o jornal, num dia tão triste para a terra...


6 comentários:

  1. ~ A mania das finas frases esteriotipadas...
    ~ ~ São tão eloquentes e chiques!!

    ~ ~ Dias agradáveis e bem sucedidos. ~ ~

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  2. Um estereotipo que ainda se mantém, Carlos.

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  3. Sempre achei estranho essa recusa em assumir a doença.

    lembro.me de ser muito nova e as pessoas murmurarem entredentes que alguém tinha cancro, como se fosse crime .

    Bom dia, amigo

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  4. Tanto quis dizer que se "entalou"!

    Beijinhos.

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  5. Devia mesmo 'verter 'para o papel essas historinhas.Sua escrita é muito interssante,Carlos.Cada dia gosto mais rsrs
    Esses 'micos' acontecem com os desavisados.
    um abraço de boa noite

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