quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Memórias de um bolo rei


Muitos dos que lerem este meu desabafo, lembram-se dos tempos em que, com propriedade, me chamavam bolo rei. Na altura em que vocês eram crianças eu era realmente o rei da  doçaria  de Natal e por isso merecia lugar de destaque na mesa de consoada. O tempo foi passando, vocês foram crescendo e eu perdendo protagonismo e importância. 
Longe vão os tempos em que todos os pasteleiros e padeiros me tratavam com desvelo, procurando ser "o rei do bolo-rei". Agora desprezam-me tanto, que até me enfiam na Bimby! 
Como se isso não fosse humilhação bastante, também  a rainha veio reclamar a Igualdade de Género. Resultado: decidiu fazer-me concorrência desleal e agora também tem o seu bolo, que muitas vezes me substitui à mesa dos portugueses.
Ainda me chamam bolo rei, mas já não me sinto como tal.
Deixaram de olhar para mim com a curiosidade e o respeito dos bons tempos em que eu era o centro das atenções e colocado em lugar de destaque na mesa de Natal. 
A cada facada que me davam, cravavam-se em mim os olhos das crianças, na expectativa de um brinde. Os adultos, por sua vez, olhavam para mim desconfiados e respeitosos. Tinham  medo que eu lhes escondesse a fava na fatia que lhes coubera em sorte, porque isso significava que me tinham de substituir por um novo e, naquela época, eu até cobrava bastante pelos meus serviços.
Hoje as crianças olham para mim com enfado e trocam-me facilmente por rabanadas, cuscurões, filhoses ou outras iguarias de Natal, porque eu já não lhes dou brindes. Eram coisas pequeninas, desprovidas de valor, mas que as crianças encaravam como um prémio. 
Os adultos também se estão marimbando se lhes sair a fava, porque a maioria já não cumpre as regras que a tradição mandava.
Para me consolarem, muitas iguarias de Natal tentam confortar-me dizendo que é o sinal dos tempos, mas que um dia voltarei a ser o rei das mesas de Natal. Finjo que acredito, mas sei que não é verdade. O meu reinado terminou quando uns senhores decretaram que os brindes que eu oferecia eram perigosos para as crianças. 
Eu sei que algumas crianças morreram sufocadas com os meus brindes. Ninguém mais do que eu lamenta essas mortes, mas não me conformo com a imposição do tamanho que decretaram, para me impedir de exercer o meu papel. Como é que eu podia albergar brindes daquele tamanho, sem denunciar onde eles estavam?  Optei, por isso, por não dar mais brindes. 
Não quero, porém, deixar de fazer um reparo a quem me condenou a viver o resto dos meus dias sem poder voltar a ver o sorriso das crianças. 
Ainda argumentei, perante as autoridades, que seria melhor fazerem uma campanha de informação junto dos pais, para que tivessem cuidado e avisassem os filhos que me deviam saborear e não comer sofregamente, arriscando-se a engolir os brindes que tão generosamente eu lhes oferecia.
Ninguém me deu ouvidos. É mais fácil proibir.   Na minha opinião deveria ser proibido proibir. É mais importante educar e informar as pessoas para poderem viver em segurança, do que proibi-las de fazer alguma coisa de que gostam,  só porque é perigoso. Se agissem sempre assim, não havia desportos radicais!. Vejam as piscinas, por exemplo. Todos os anos morrem crianças a desfrutar das águas que elas albergam, mas ninguém proibiu as piscinas, pois não? Então por que razão me proibiram de dar brindes? Certamente, foi porque não queriam que eu continuasse  a captar a atenção e os sorrisos das crianças, na mesa de Natal. Invejosos!

6 comentários:

  1. Li o texto com atenção porque desconhecia essa maravilha de bolo que tanto deu a falar por aí com brindes que as crianças eram capazes de engolir.Carlos ,please!
    Compartilho da revolta do rei mas proibir era o mínimo que podiam fazer os homens de boa vontade _ já pensou em pleno Natal crianças se engasgando com anéis, brincos , miniaturas de bonecas , bolinhas de gude dentro de um bolo-rei? rs
    Bom mesmo é se contentar com os panettones, as rabanadas,as castanhas , amêndoas ,as frutas cristalizadas ,muitos bombons e para os adultos a champanha e os vinhos portugueses.
    Aqui amamos isso tudo ,é menos comprometedor... rs
    Carlos obrigada pela companhia ,pelos textos bem escritos, pelo humor fino e elegante e pela gentileza das visitas.
    Feliz Natal pra ti e para os que te são caros .
    meus abraços

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  2. Nunca fui fã de bolo-rei.
    Demasiada confusão para o meu gosto :(

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  3. ~ ~ Ao contrário do Pedro, sou grande apreciadora.

    ~ Festas serenas, plácidas e conformadas com a falta dos ausentes.

    ~ ~ ~ A vida é assim. Nós ficámos; em contagem decrescente. ~ ~ ~

    ~ ~ ~ ~ Abraço amigo. ~ ~ ~ ~

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  4. Adorei o texto.
    Apenas gosto do tradicional bolo de rei, que apenas consumo fora da época.
    O "triste" bolo rei tem toda a razão, pois , agora, há uma infinidade de variedades do dito bolo...modernices!!!

    Ahhhhhhhhhhhhhhhhh...tenho saudades dos brindes e da fava!!! Estragam todas as tradições!!!

    VBeijinhos.

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  5. Tenho saudades dos brindes e das favas... enfim...
    Boas Festas (com ou sem bolo rei)!

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  6. Verdade. Era bem mais divertido, para além de doce. :)

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