domingo, 28 de dezembro de 2014

Memórias de um Natal perdido




Nasci no seio de uma grande família. Numa só rua, cinco casas contíguas albergavam oito tios, um par de avós e um número infindável de primos e primas que todos os dias se viam, cumprimentavam, brincavam e brigavam e todos os domingos se reuniam em casa do pai/ avô. Era como se o Natal acontecesse todas as semanas.
Em Dezembro, terminadas as aulas dos mais velhos, todos se deslocavam para uma outra casa, fora do Porto, para celebrar em comunhão absoluta o período natalício. 
Quando era criança, Natal significava por isso, para mim, apenas uma mudança de lugar, mais tempo e ainda mais espaço para brincadeiras e tropelias. Apercebia-me da chegada do Natal, quando entravam lá em casa pessoas carregadas de malas, falando com um sotaque estranho, e outras cuja língua não entendia, que me eram apresentados como família, mas que não via como tal, porque apenas os encontrava uma vez por ano. Sentavam-se à nossa mesa, o meu avô cobria-os de atenções, e naqueles dias parecia ter o ar mais desanuviado e prazenteiro. Ria. Ria muito. Às vezes falava numa língua que eu não entendia e eu pensava ser língua só para adultos. Por vezes também chorava, mas isso era só quando “eles” chegavam e depois partiam, despedindo-se até ao ano seguinte.
Nessa altura aumentava a azáfama das empregadas na confecção das iguarias e as consumições resultantes da necessidade de apaziguarem as disputas entre a catraiada. Quantas vezes as vi zangadas umas com as outras, porque cada uma saía em defesa acérrima dos "seus meninos"!
Quando a árvore de Natal, montada na cave, subia até ao segundo andar , sabia que o Pai Natal devia estar a chegar, o que significava brinquedos novos, mais dias de traquinice, risadas, choros, na companhia dos primos com quem convivia diariamente e mais aqueles que falavam com sotaque uma língua estranha. Foi no meio desta confusão que um dia descobri que não havia Pai Natal. Os meus irmãos e primos encarregaram-se de me mostrar quem punha os presentes em redor da árvore que via gigantesca. Tinha quatro ou cinco anos e fiquei triste. Não pelo facto de não haver Pai Natal, mas porque fui obrigado a aceitar a tese de uns primos que defendiam com tenacidade que os presentes eram dados pelo Menino Jesus. E eu sempre detestei perder, não fiquei com esse jeito só quando cheguei a adulto…
Um certo ano, aquelas pessoas de sotaque e linguarejar estranho, não vieram no Natal. Nesse ano os meus avós choraram muito, os meus pais escondiam de nós as lágrimas, mas uma noite dei com eles e os meus tios a chorar baixinho numa sala, onde se costumavam reunir a seguir ao jantar para tomar café, fumar e jogar às cartas. Nesse ano também tive menos presentes. No ano seguinte a cena repetiu-se e, no outro ano, a minha irmã casou e não veio passar o Natal connosco porque, disseram-me, tinha ido com o marido para África passar o Natal. 
Nesse ano fui eu quem chorou muito com saudades da minha irmã que só voltaria no ano seguinte. Mas nesse ano, por decisão do meu avô, cada um passou a organizar o Natal na sua própria casa e o Natal ficou mais pequenino. Quer dizer… com menos espaço, menos gente e durou apenas uma noite e o dia seguinte. A minha irmã e o meu cunhado falavam de guerras, de fome de África, de terroristas e de um sítio qualquer que alguém nos tinha roubado na Índia. Desde que soube dos terroristas, o Natal passou a ser diferente. Não foi por culpa dos terroristas, mas por saber as consequências da guerra. Por descobrir que nem em todo o mundo as mesas de Natal eram fartas e que havia gente a morrer nessa noite que me tinham dito ser uma Noite de Paz. Nunca mais acreditei na Graça, a minha catequista.
Nos anos seguintes o Natal voltou a crescer. O meu irmão mais velho também tinha casado e vieram os sobrinhos, que eu via como irmãos mais novos.



Numa noite de princípios de Novembro de 1973, hesitava entre vir a Portugal ou ficar em Inglaterra a passar o Natal com o meu irmão e as nossas namoradas, o telefone tocou. Era a minha mãe em alvoroço. Aqueles familiares de linguarejar estranho( agora sabia viverem no hemisfério sul) que a morte ainda não tinha levado, iam passar o Natal ao Porto. E ia também a minha cunhada alemã e a minha tia sueca, que confeccionava um arroz de pato gabado em toda a família. Pronto, já agora íamos também nós com as nossas namoradas inglesas, sempre era mais uma nacionalidade . E os meus avós e os meus tios voltavam a juntar-se, mas agora no espaço mais reduzido da nossa casa do Porto. Quase 60 pessoas. Bandeiras de várias nacionalidades enfeitando as mesas, num prenúncio de globalização. Dois Pais Natal em vez de um, para ajudar na distribuição dos presentes à miudagem. 
Foi o meu último Natal. 
Nos cinco anos seguintes a família era dizimada. Desapareceram avós, tios, o meu pai, cunhados e irmãos. Os Natais começaram a ser vividos com nós atravessados na garganta, quando olhava para os lugares vazios, e a ânsia de que o tempo passasse depressa. Decidi internacionalizar o meu Natal. Deixei de ir ao Porto e passei-os na lonjura das Maldivas, Vanuatu, Tailândia, Argentina, Singapura, Macau Goa ou Malaca, acompanhado por ninfas, boas doses de álcool e gargalhadas tão falsas como o Natal que hoje em dia o mundo celebra.

Vi Pais Natal, fardados a preceito, chegarem de barco a uma ilha das Maldivas, debaixo de um calor tórrido, ou desembarcarem nas noites frias de Ushuaia. Vi, na Tailândia e na Malásia, empregados de hotéis e restaurantes,a distribuir aos turistas ocidentais máscaras carnavalescas, para celebrarem a noite de Natal. Ateei fogo ao espantalho da Ditadura em Pinamar e no rio Tigre. Vi o consumismo mascarar-se de Menino Jesus em Singapura ou Hong- Kong. Revivi o verdadeiro espírito de Natal em Goa e em Malaca, fui José numa ilha deserta de Vanuatu, onde rumei na companhia de uma namorada vietnamita para um Natal a dois ( onde o bacalhau foi substituído por delicioso peixe fresco pescado por um guia que se encarregou de nos preparar a ceia ) e dormimos ao relento, sob a vigilância de uma Lua Cheia que nos acariciava os corpos nus e penetrava as nossas almas.

Vi e vivi Natais para todos os gostos. Até cansar.

Hoje, o meu  Natal é a noite de ceia com os sem abrigo. A noite de 24? Três pessoas, de gerações diferentes, à volta de uma mesa onde abundam os lugares vazios repletos de memórias por preencher, crianças, jovens e adultos que voaram para o hemisfério sul percorrendo, quase meio século depois, o caminho inverso dos seus bisavós, fardas de Pai Natal arrumadas numa arca, à espera de alguém que as reclame. O meu Natal deixou ser vivido em família. Sem entusiasmos consumistas, nem iluminações, mas com as indispensáveis iguarias da época. E com muitas saudades do hemisfério sul...

Aviso: esta crónica foi  publicada pela primeira vez no dia 18 de Dezembro de 2009 na rubrica " Crónicas de Graça" que animou as sextas feiras da blogosfera entre 2009 e 2011. Um  desafio croniqueiro de que também já guardo muitas saudades, com a minha boa amiga Patty Ferraz. 

9 comentários:

  1. Não conhecia, Carlos.
    Tão bonito...
    Um obrigado grande pela tua partilha.

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  2. Ficaram essas memórias, passadas para uma crónica absolutamente sublime

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  3. Adorei ler...senti-me melhor.

    Não sou a única que se sente só no meio da família que ainda se junta...

    Beijinhos.

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  4. ~ Estava convencida que o tinha ouvido falar sobre uma atual parceira de vida. ~


    ~ ~ ~ Grande abraço amigo. ~ ~ ~

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    1. E tem razão, Majo, mas não pertence à minha geração :-)
      Grande abraço também para si e Feliz 2015

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  5. Gostei muito de ler. Apesar de os meus Natais serem sempre vividos em "micro" família, adoro-os! Feliz 2015!

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  6. De alguma forma rememorei a minha infância e juventude em Moçambique, início anos 60, na companhia de enorme família e amigos e depois a volta que inevitavelmente a vida teve que se dar e depois o gosto por aquele canto asiático em particular.
    Bom, as coisas mudam, não necessariamente para pior; simplesmente mudam!
    Camões revisitado!
    Fiquei deveras sensibilizado. Tks
    A foto do blogue, julgo que algures entre Yangshuo e Guilin, é linda!
    Abraço e bom 2015!

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