terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Viver a vida por um funil *






Naquele dia, Matilde estava visivelmente nervosa. Pensando que o nervosismo estivesse relacionado com o jantar que iriam ter em casa dos pais dela no dia seguinte, Frederico tentou sossegá-la, afiançando que tudo iria correr bem e que já estava mentalizado para o facto de não poder fumar após a refeição.
Na verdade, não era esse o problema de Matilde. O que se passava é que estivera num julgamento em que os pais de um jovem deficiente motor– que ela defendia- acusavam o Metropolitano de Lisboa de ser responsável pelo acidente do seu filho, devido ao facto de a empresa não ter colocado elevadores para deficientes na estação de metro do Campo Grande. Tentaram descer com a cadeira de rodas pelas escadas rolantes, mas um pequeno percalço fez deslizar a cadeira que tombou e se virou, tendo projectado o jovem.
-Já imaginaste a desgraça que poderia ter acontecido?- perguntou Matilde em alvoroço.
- Sim, em Portugal os direitos dos deficientes são quase letra morta. Claro que eles foram condenados a pagar uma indemnização, não?- inquiriu Frederico
- O juiz ainda não proferiu a sentença, mas o que mais me irrita, é que a defesa deles assenta no facto de poder ter sido utilizado o transporte de serviço especial da Carris ou uma das estações que já têm elevadores instalados!
- Essa é boa! Se calhar não sabem que a Carris apenas dispõe de quatro carrinhas que podem transportar, no máximo, quatro deficientes em cadeira de rodas cada uma.




-E olha que utilizar uma das estações com elevadores, também não é fácil. São poucas e os elevadores nem sempre funcionam....
- E há estações onde as escadas rolantes não funcionam e as instalações sanitárias para deficientes estão encerradas.
- Pois.... mas este julgamento tem-me feito pensar durante todo o dia nos problemas que os deficientes são obrigados a enfrentar diariamente neste país. Se querem ir a um museu, por exemplo, estão tramados, porque a maioria deles não dispõe de acessos para deficientes motores e poucos são os que têm informação para invisuais.
- Agora que falas nisso lembro-me de um amigo, com um filho deficiente motor, que há tempos, o quis levar aos Jerónimos e desistiu da ideia porque ninguém se tinha lembrado de instalar uma simples rampa de acesso. Ele apresentou uma reclamação à Direcção geral dos Monumentos Nacionais, mas não sei se o assunto já está resolvido.
- E já reparaste, Frederico, que se um deficiente motor quiser ver um filme, tem que esperar que seja exibido na televisão, ou seja editado em vídeo, porque as salas de cinema não se preocupam com esses pormenores?
- E porque razão se haveriam de preocupar, se continuam a construir-se em Lisboa prédios sem uma simples rampa de acesso para deficientes motores e os elevadores também não estão preparados para deficientes invisuais? A rampa que vês instalada lá no meu prédio só existe, porque foram os condóminos que decidiram mandá-la fazer. Além disso, só há poucos anos é que Faculdades como a de Letras ou Direito dispõem de rampas de acesso...





- Pois é, em Portugal as coisas demoram um bocadinho a fazer-se...
- Principalmente quando as leis prevêem, como é o caso, a necessidade de coordenar e articular as políticas sectoriais dos diversos departamentos governamentais.-
Pois é, mas tens alguma solução?
- Eu não. Ou melhor, tenho. Vamos ao cinema que preciso de desanuviar um bocado. Se continuamos a falar deste problema, nunca mais encontramos o fio à meada.
E lá foram os dois até a uma sala de cinema próxima. Pelo caminho, tiveram que descer do passeio e caminhar pela rua, ao longo de muitos metros, sujeitos a buzinadelas de cada automobilista que passava, porque os carros estacionados em cima dos passeios impediam a passagem de peões.
- E depois é isto! –vociferou Matilde. As pessoas estão-se nas tintas para quem quer andar a pé. Pensa só se um deficiente em cadeira de rodas ou um invisual quer passar. Como faz? Atira-se para o meio da rua e pede a Deus que não lhe passe um carro por cima?
- Pois é, Matilde, estas situações deixam-me um bocado apreensivo. De que vale a pena reclamar com a inoperância das entidades, se os automobilistas – e as pessoas em geral- são incapazes de respeitar os direitos dos outros? Assim é complicado, não concordas?

Esclarecimento aos leitores: Escrevi este artigo, baseado num caso real,para a revista Tempo Livre em Dezembro de 2002. Algumas coisas melhoraram desde então, mas continua a haver um desrespeito muito grande pelos deficientes, incluindo serviços públicos.
* Assinala-se, amanhã, o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência

6 comentários:

  1. Temos um longo caminho a percorrer no que se refere à acessibilidade e à disponibilização de spaços, equipamentos e serviços inclusivos.

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  2. Um problema gravissimo com que se deparamos por tudo quanto é sitio!
    Triste realidade.

    Carlos sugiro que passe pelo blogue "COISAS DA FONTE" do nosso amigo Rui Espirito Santo.

    Beijinho

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  3. Continua a ser o pão nosso de cada dia!
    Quando estava em Lisboa e passeava os meus netos na cadeirinha, vezes sem conta tinha que andar no meio da rua porque os carros estacionavam sem deixar espaço para passarmos nos passeios e o mesmo se passava com as cadeiras dos deficientes motores...
    Uma lástima!

    Rosa dos Ventos

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  4. ~ O meu prédio tem rampas, mas que parece andar tudo à velocidade de caracol, isso parece.
    ~ Na minha cidade, andam cadeiras de rodas com deficientes, portadores de grandes dificuldades físicas, no meio dos carros, por não se ter construído ainda uma margem para o efeito.

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  5. Tenho uma irmã que é deficiente profunda, Carlos.
    Uma criança de 46 anos.
    Por isso mesmo, o tema é-me particularmente caro.
    E particularmente doloroso também.

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  6. Um texto oportuno neste dia tão importante, em que pouco ou nada se fez!Temo que cada vez menos se faça...

    A minha filha adoptou um menino com uma doença raríssima...cortaram-lhe o abono....reduziram mais de metade a miserável prestação social a que o menino tinha direito...enfim é o país que temos...

    Beijinhos.

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