quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A sapataria



Motivado pelos letreiros anunciando Saldos entrei decidido a gastar uns euros na aquisição de um par de  sapatos, cuja compra adiava há tempos. 
Cumprimentei a empregada de plantão que falava ao telemóvel e olimpicamente me ignorou. Vasculhei as prateleiras até encontrar os sapatos que procurava . 
(Aqui chegado é altura de esclarecer os leitores que compro sapatos sempre iguais, porque descobri que só aquele modelo me evita dolorosas adaptações. Só a cor muda: castanho ou preto).  Desta vez queria uns castanhos.
Aproximei-me do balcão. A contragosto a empregada desligou o telemóvel para me prestar uns minutos de atenção. Foi ao armazém buscar o meu número que, por via das dúvidas, experimentei. 
Entreguei-lhos e pedi que os enfiasse num saco.
Estava a senhora a desenvencilhar-se da tarefa quando entrou um casal. Pela forma como os recebeu percebi que eram clientes da casa. O homem queria trocar um par de meias que lhe tinham oferecido no Natal.  
A empregada pegou nas meias e disse:
- Peço imensa desculpa, mas este artigo não é nosso, por isso não podemos trocar. Tem o talão de compra?
Que não. Apenas suspeitava que teriam sido compradas ali, porque quem lhas oferecera era cliente da casa.
-Chatice! Agora para que é que eu quero isto?
A empregada desdobrava-se em desculpas com ar compungido. 
Lamento muito! Lamento muito, mas não é possível. Se o artigo fosse nosso…
A conversa continuou. Sobre uma camisa que ele tinha comprado ali antes do Natal. E sobre uma futura vinda para ver melhor os saldos.
Eu esperava. Ainda olhei com um ar reprovador para o casal. Fizeram menção de ir embora mas, chegados à porta, a senhora perguntou:
- Tem pullovers em saldo?
A empregada dirigiu-se à secção das malhas e deu sugestões. Há mais de 10 minutos que os meus sapatos esperavam, esparramados em cima do balcão, que a empregada os enfiasse num saco. 
Perdi a paciência e com um sonoro Volto cá quando esta casa tiver empregadas decentes e clientes bem educados, saí pela porta fora. Sem que a empregada esboçasse, sequer, um pedido de desculpas.
( A cena passou-se na loja de pronto a vestir Giovanni Galli da Avenida de Roma. Para que conste e a própria saiba que, se vier a ser despedida, não lamentarei.).

7 comentários:

  1. Irritante!
    Maus empregados representam maus patrões...
    xx

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  2. Tá mal! De que adiantou ter perdido a paciência?

    Exigia ser atendido o impunha o seu direito de cliente que tinha chegado antes da entrada do casal.
    Se cumprir a promessa de só lá voltar, nas condições, sonoramente, impostas, diga adeus aos sapatos castanhos!!

    A última frase é hilariante...

    Janita

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  3. A minha mulher andou a correr todas as sapatarias na Baixa do Porto, Carlos.
    E o tratamento, que o Carlos bem conhece, é o oposto.
    A gente pede um para de sapatos e trazem três semelhantes, mais uns para o cavalheiro e outros três para as filhas.

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  4. Antes de deixar o estabelecimento pedia o livro de reclamações.

    Nessa sapataria não voltava a entrar.

    Fizeste bem!

    Beijinhos.

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  5. Concordo contigo!

    Quanto ao livro de reclamações, por vezes não no-lo dão, como já me aconteceu em Montemor-o-Novo numa cena que ainda hoje não percebo como teve lugar !!!

    Amigo, bom serão :)

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  6. Vier a ser despedida??
    Oh meu caro amigo, nada disso. O sr. não fez queixa. Ela não vai contar a quem a contratou. Esse género de pessoa, que lambe o derriere aos clientes da casa e despreza os ocasionais é uma espécie rara de raciocínio particularmente afetado e atitudes distintas. E você nem sequer é a Oprah que diz que lhe aconteceu o mesmo numa loja toda fina quando quis ir comprar uma mala. Nessa ocasião nem a empregada que atendeu MAL a Oprah foi demitida...e a apresentadora é SÓ uma das mulheres mais poderosas e ricas dos EUA...

    Mas compadeço-me da sua experiência e louvo-lhe a ousadia de se demonstrar revoltado. Já passei por uma situação semelhante numa loja "fina" na baixa de lisboa. As empregadas ficaram o tempo todo a olhar-me com estranheza, de cima abaixo e nem a minha boa educação e bom trato as fez desviar a atenção do que quer que fosse que reprovassem. Entrei naquela loja por me compadecer delas, que estavam de pé a olhar para a rua, como que a implorar por clientes. Recuei e entrei, sabendo que isso ia fazer com que duas "velhotas" que entretanto haviam comentado um artigo na montra, iriam entrar também, porque quando uma pessoa na frente entra, por vezes as de trás entram também. Juro que assim fiz e assim aconteceu. Era roupa que pretendia comprar, tinham a cor que eu queria, mas modelos diferentes. Precisei experimentar. Seguiram-me até o provedor. Ficaram do lado oposto da cortina, mesmo tendo dispensado ajuda. Quando despi a primeira peça e a coloquei à parte para depois decidir se ia levar aquela ou não, pousei-a por cima do varão já que o local não tinha um cabide nem um banco. Quando já estava com a outra peça vestida, vi a que tinha separado a ser surripiada. Deviam estar com receio que a metesse na mala assim que entrei na loja, só pode. Escutava-as a atender as duas "velhotas"e era só charme e prestabilidade. Um trato diferente. Saí, agradeci, solicitei o meu guarda-chuva que havia atenciosamente deixado à entrada e fui embora. Ainda hoje algo incomodada por não ter dito nada àquelas empregadas. Penso que entretanto a loja já tenha fechado por falta de clientela e no seu lugar deve ter brotado uma dos chineses ou indianos. A baixa está cada vez menos apelativa para os lisboetas.

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