sábado, 3 de janeiro de 2015

Porque hoje é sábado



Numa estação de metro

A minha juventude passou e eu não estava lá.
Pensava em outra coisa, olhava noutra direcção.
Os melhores anos da minha vida perdidos por distracção!

Rosalinda, a das róseas coxas, onde está?
Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão?
Provavelmente professoras de Alemão
em colégios fora do tempo e do espaço! 

Hoje, antigamente, ele tê-las-ia
amado de um amor imprudente e impudente,
como num sujo sonho adolescente
de que alguém, no outro dia, acordaria.

Pois tudo era memória, acontecia
há muitos anos, e quem se lembrava
era também memória que passava,
um rosto que entre outros rostos se perdia.

Agora, vista daqui, da recordação,
a minha vida é uma multidão
onde, não sei quem, em vão procuro
o meu rosto, pétala dum ramo húmido, escuro.

Manuel António Pina

5 comentários:

  1. Magnífico poema.

    o 1-º verso resume a minha vida..."A minha juventude passou e eu não estava lá".
    Beijinhos.

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  2. Que poema fofo :) da tua autoria?

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  3. Os meus não foram perdidos por distracção, mas sim, por excesso de dedicação....

    Uma bela homenagem a Manuel António Pina!

    Janita

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  4. Muita gente sofreu desse mal, Carlos - esqueceram-se de ser jovens.
    Muitos procuram recuperar essa juventude fora de tempo

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