segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A guerra é a minha profissão




O título deste post podia ser uma alternativa a American Sniper, o filme de Clint Eastwood apontado pela opinião pública americana, como o melhor colocado  para ganhar o Óscar de melhor filme.
Bem, mas sobre Óscares escreverei noutra ocasião ( depois de ver todos os filmes candidatos).
Sobre American Sniper tenho pouco a dizer.  Gosto muito de Clint Eastwood, mas foram muito poucos os filmes de guerra que me  “agarraram”. Por muitas voltas que se deem, argumentando que este filme não é de guerra, mas sobre a guerra,  não me convenço. É que a guerra é feita de (e com) gente disposta a matar e fazer da guerra profissão. Como Chris Kyle, o sniper que virou lenda americana por se ter destacado na arte de atirador furtivo, ao matar mais de 200 “inimigos”.
Kyle é um americano típico do Texas. Analfabeto, violento, nascido para matar ou ser herói de Rodeos. Como qualquer bom texano, aos seis anos começou a acompanhar o pai nas caçadas para aprender a nobre arte de matar e ser recompensado por isso. É assim que se começa a desestruturar um cérebro. E a sustentar o vício de matar.
É certo que Clint Eastwood tenta por  diversas vezes dar um toque de humanismo a Kyle, mas é  notório que o lendário atirador americano se sente pouco à vontade nessa faceta. Só uma vez, diante de uma criança, tem um assomo de humanismo. Mas como perceberá quem vir o filme, isso acontece depois de ter sido pai. A sua estreia "profissional" foi precisamente a matar uma criança. Ele ama a guerra e não consegue viver longe dela, ou dos seus protagonistas. Sempre com o mesmo pretexto de “defender os seus”, Kyle embarca em sucessivas missões para o Iraque. Nos intervalos, quando está em casa,  está sempre deprimido e com o pensamento na guerra. A família está em segundo ou terceiro plano, a mulher serve para fazer filhos e constituir uma família que ele subalterniza.
Compreendo que Kyle tenha sido agraciado com inúmeras condecorações. Seja nos EUA, na Europa, ou em qualquer parte do mundo, os heróis matam inimigos para defender o seu povo e são condecorados por isso. (Aqueles que defendem o povo dos seus inimigos sem recorrer a armas mortíferas - veja-se o caso de Tsipras-  é que são muito mal vistos).
Compreendo que Clint Eastwood tenha querido impingir ao mundo a imagem de um herói americano, mas teria sido mais honesto sendo menos fundamentalista na justificação da guerra do Iraque que criou este lendário matador venerado pelos americanos. 
Compreendo que os americanos prefiram  American Sniper para vencedor do melhor filme, em detrimento de Selma ( um filme sobre Marthin Luther King e a luta racial). Eles, como a generalidade dos povos, sempre preferiram  cowboys e guerras  a pacifistas. Os tipos que lutam por valores e direitos, recusando o recurso à violência, são  esquerdalhos, mariconços, ou ambas as coisas. 
O que eu não compreendo é que se condecorem e elevem a heróis gajos que se destacaram na nobre arte de matar, tornado-se viciados e dependentes da guerra, como de uma qualquer droga. Nem encontro muitas razões que  justifiquem uma guerra. Ao longo da História, as únicas guerras justas foram, na minha modesta opinião, as travadas pelos povos pelo direito à sua independência ( o que não significa que não se tenham cometido atrocidades). A guerra do Iraque foi precisamente em sentido contrário. Daí que não tenha gostado do filme.  Mas esse é problema meu. 

5 comentários:

  1. Obrigada pela tua posição.

    Quando vi a apresentação decidi que não veria o filme, depois de saber que correspondia a um assassino real e que o republicano Eastwood se limitara a glorificá-lo , então não houve mais hipótese.

    Chomsky, o grande Chomsky, afirma que o filme é um panfleto justificativo do plano agressor global dos EUA, que pessoalmente considero há anos uma sociedade altamente doente!

    Boa semana, amigo :)

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  2. Não sei quando voltarei a ir ao cinema ou ver em casa.

    Beijinhos.

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  3. Também não me cheira que vá gostar, daí que não tenha intenção de ver... ;)

    Beijocas

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  4. Depois de Apocapyse Now é muito complicado que haja um filme que se debruce sobre a guerra, qualquer guerra, e me encha as medidas.
    Ainda não vi este.
    Mas tenho lido o oito e o oitenta.

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  5. Gostei do filme, excedeu até as minhas expectativas, mas também sou eu que gosto de filmes de guerra. O filme é muito bom, está muito bem realizado, é fluído, tem boas cenas de guerra, é muito realista e muito bom do ponto de vista de sentimentos (como o Carlos aliás faz referência).

    Estamos perante um excelente filme e perante uma excelente realização de Clint Eastwood, atrevo-me a dizer que talvez seja a sua melhor realização. Mas repito, talvez só para quem aprecie filmes de guerra. Embora aqui concorde consigo Carlos, este filme é mais sobre a guerra do que propriamente um típico filme de guerra .

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