sábado, 7 de fevereiro de 2015

Espelho meu. Quem é mais inteligente do que eu?




"Quando eu estava no exército, fiz um teste de aptidão, solicitado a todosos soldados, e consegui 160 pontos.
A média era 100.
Ninguém na base tinha visto uma nota daquelas e durante duas horas eu fui o assunto principal.
(No entanto, não significou nada – no dia seguinte eu ainda era um soldado raso da KP –Kitchen Police)

Durante toda minha vida consegui notas como aquela, o que sempre me deu uma ideia de que eu era realmente muito inteligente. E eu imaginava que as outras pessoas também achavam isso.

Porém, na verdade, será que essas notas não significam apenas que eu sou muito bom para responder a um tipo específico de perguntas académicas, consideradas pertinentes pelas pessoas que formularam esses testes de inteligência e que, provavelmente, têm uma habilidade intelectual parecida com a minha?

Por exemplo, eu conhecia um mecânico que jamais conseguiria passar num teste destes. Acho que não chegaria a fazer 80 pontos. Portanto, sempre me considerei muito mais inteligente do que ele.
Mas, quando acontecia alguma coisa no meu carro e eu precisava de alguémpara dar um jeito, era ele que eu procurava. Observava como ele investigava a situação enquanto fazia seus pronunciamentos sábios e profundos, como se fossem oráculos divinos.
No fim, ele acabava sempre por consertar o meu carro.

Então imagine se esses testes de inteligência fossem preparados pelo meu mecânico. Ou por um carpinteiro, ou um fazendeiro, ou qualquer outro que não fosse umacadémico. Em qualquer desses testes eu comprovaria a minha total ignorância e estupidez. 

Num mundo onde eu não pudesse me valer do meu treino académico ou do´meu talento com as palavras e tivesse que fazer algum trabalho com as minhas mãos ou desembaraçar alguma coisa complicada eu dar-me-ia muito mal. A minha inteligência, portanto, não é algo absoluto mas sim algo imposto como tal, por uma pequena parcela da sociedade em que vivo.

Vamos considerar o meu mecânico, mais uma vez.
Ele adorava contar piadas.
Uma vez ele levantou a sua cabeça por cima do capot do meu carro e
perguntou-me:
“Doutor, um surdo-mudo entrou numa loja de construção para comprar uns pregos. Ele colocou dois dedos no balcão como se estivesse a segurar um prego invisível e com a outra mão, imitou umas marteladas. O balconista trouxe então um martelo. Ele abanou a cabeça de um lado para o outro
negativamente e apontou para os dedos no balcão. Então, o balconista trouxe vários pregos, ele escolheu o tamanho que queria e foi embora. O cliente seguinte era um cego. Ele queria comprar uma tesoura. Como é que o senhor acha que ele fez?”
Eu levantei minha mão e “cortei o ar” com dois dedos, como se fosse uma tesoura.
“Mas o senhor é mesmo muito burro! Ele simplesmente abriu a boca e usou a voz para pedir a tesoura!”
Enquanto gargalhava, o meu mecânico disse:
“Hoje, estou a fazer esta partida a todos os clientes.”
“E muitos caíram?” perguntei esperançoso.
“Alguns. Mas com o senhor eu tinha a certeza absoluta que ia funcionar”.
“Ah sim? Por quê?”
“Como o senhor doutor tem muito estudo, eu sabia que não seria muito esperto”
E algo dentro de mim dizia que ele tinha alguma razão em tudo isto.

(tradução livre do original “What is inteligence, anyway?” - Isaac Asimov)

8 comentários:

  1. .
    ~ Podemos dizer que se trata dum exercício docente, numa salutar prática pedagógica em que se privilegia um sentido de humor sagaz e inteligente.
    ~ ~ Com lições destas, seriamos sábios, sem nunca nos termos aborrecido ~ ~

    ~ ~ ~ Abraço amigo. ~ ~ ~

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  2. E a minha filha mariana, nos seus onze anos, ontem à noite fez-me duas parecidas com essas.
    Caí que nem um patinho!! :)))

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  3. Inteligência e esperteza são duas coisas diferentes.

    Testes e provas estão sempre eivadas de pré conceitos.

    Boa semana, amigo

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  4. Há os inteligentes, os espertos e os chicos espertos.

    Tu, com toda a certeza, estás no grupo dos inteligentes.

    Fizeste-me rir!

    Beijinhos.

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