quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Que bela soneca!




Que se pode dizer de um filme quando, três horas e meia depois de nos termos sentado diante do ecrã,  lamentamos que tenha chegado ao fim?
Foi o que me aconteceu com “Sono de Inverno” um dos mais belos filmes que vi nos últimos tempos. Eu sei que as soberbas imagens da Anatólia, coberta por  espesso manto de neve, ajudam, mas naquela tarde gélida de sábado  no Nimas, senti-me transportado para dentro do ecrã  e sentei-me à lareira em conversa com os protagonistas ou, sentado no banco de trás de um jeep, com eles percorri as estradas geladas do planalto.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes “Sono de Inverno” é um filme de um realizador turco (Nurt Ceylan) que apela aos sentidos e  desperta os neurónios com uma intensidade raras vezes conseguida, desde os tempos dos míticos Bergman, Kubrick, Resnais, Godard, ou Fassbinder,  que me proporcionaram alguns dos melhores filmes da minha vida.
"Sono de Inverno" é mais do que o retrato de um choque de culturas ou de classes.. É um filme sobre a condição humana e as suas formas de vida. “Por acaso” passa-se na Turquia, mas  o palco poderia ser Nova Iorque, Buenos Aires, ou Paris, porque a história, baseada num conto de Tchekov, esse contador de histórias sublime, é universal.
Escrever resumidamente sobre “Sono de Inverno” não é tarefa nada fácil. O filme suscita um sem número de questões que entroncam umas nas outras e tentar resumir, é amputar o filme da sua globalidade. Não corro esse risco. Opto, assim, por vos deixar um excerto do roteiro que encontrei no folheto promocional e faz parte do diálogo entre o protagonista (Aydin, actor reformado e rico) e a sua jovem mulher (Nihal desapaixonada, desiludida e em busca de afirmação pessoal):

“ É verdade. És um homem culto, justo, honesto e consciencioso. Mas às vezes usas essas virtudes para sufocar as pessoas, para esmagar e humilhar. Os teus elevados princípios levam-te a odiar o mundo. Odeias os crentes porque para ti acreditar é um sinal de subdesenvolvimento e ignorância. Mas também odeias os não crentes pela sua falta de fé e de ideais. Criticas os velhos por serem fanáticos conservadores e por não pensarem livremente. E criticas os novos por pensarem livremente e abandonarem as tradições. Defendes as virtudes da comunidade, mas suspeitas que todos possam ser ladrões e bandidos, por isso também odeias o povo. Odeias praticamente toda a gente. Por uma vez que fosse, gostava que defendesses qualquer coisa que não te beneficiasse e tivesses sentimentos que não te favorecessem. Mas não é possível.”

Digam lá se isto não é universal. 

6 comentários:

  1. Gosta muito de cinema. Eu desenvolvi o gosto à quase dois anos :)

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  2. Quem me dera poder vê-lo!

    Aqui na terrinha já nem clube de vídeo.

    Beijinhos.

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  3. O filme já me tinha chamado a atenção. Depois desta critica, torna-se obrigatório.

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  4. Um filme que tenho quase a certeza não poderei ver em Macau :(

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  5. ~ ~ Concordo com a universalidade das sábias afirmações do excerto que mencionou.

    ~ ~ ~ Grata pela partilha. ~ ~ ~
    .

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