quinta-feira, 5 de março de 2015

A vingança é a praia dele



O cinema argentino é ainda pouco conhecido em Portugal, apesar de ter excelentes realizadores e intérpretes, a que  em seu tempo fiz referência na casa mãe, na rubrica Noites de Cinema.
Há dias fui ver um filme de  Damian  Szifron:  Relatos Selvagens. Selecionado para a Palma de Ouro de Cannes e  para o  Óscar de melhor filme estrangeiro, merece não passar despercebido entre a onda de fitas hollywoodescas em exibição nas salas portuguesas.
O filme é composto por seis histórias brilhantes, contadas de forma incisiva e inteligente,  que vamos acompanhando entre sorrisos e gargalhadas estridentes.  Exceptuando a primeira- curta mas muito envolvente -  todas elas poderiam ter sido vividas por qualquer um de nós.   Todas ligadas pelo espírito de vingança, abordam temas do quotidiano  para os quais nem sempre estamos despertos ( como é o caso de um desaguisado entre dois automobilistas numa estrada em plenos Andes, que liga Salta a Cafayatte,  onde já fui muito feliz);
As cumplicidades familiares que pensamos só existirem nas famílias dos outros é narrada numa história  em que  um pai  tenta ilibar o filho de um atropelamento e se vê envolvido num redil de corrupção;
Há uma outra história que acompanhei sempre a pensar em Portugal e naqueles que lutam pelos seus direitos. Tudo começa com um engenheiro  que vê o seu carro ser rebocado arbitrariamente e é obrigado a pagar uma multa. Aí começa a sua luta contra as arbitrariedades da malha legislativa e a cegueira  burocrática.  
Há ainda  a história de  uma empregada de restaurante de estrada que um dia vê entrar porta adentro um fulano que destruiu a sua família e a da cerimónia de um casamento, que resume, de forma magistral, as várias facetas da  vida conjugal .
A genialidade de  Szifrón não se resume a  saber contar histórias  centradas na vingança, que nos agarram do princípio ao fim.  É também o fio condutor que consegue estabelecer entre histórias tão diversas,  assentes no tripé humor, crítica social e surpresa.  Sendo que o humor é do mais subtil e verrinoso que já tenho visto em cinema, a crítica social não é feita de forma panfletária, mas profundamente real e humana e o final das histórias, apesar de ser sistematicamente  surpreendente, é ( quase) sempre o mais óbvio ( excepto na primeira história, onde Szifrón dá ao final um toque sádico a lembrar Tarantino ou Polanski.  
Szifrón também não cai na tentação fácil de tirar “lições”. Cada um que tire as suas.
As seis histórias de Retratos Selvagens   relatam situações  em que muitos gostariam de agir como os protagonistas, mas nunca  ousarão fazê-lo porque, no fundo,  embora (quase) todos  sonhem com a vingança, poucos são os que a concretizam.  É por isso um filme   libertador que funciona como um divã de psicanalista, onde muitos não desdenhariam estar deitados a exorcizar, se para tanto fossem suficientemente corajosos.
Resumindo: um filme para se rir (muito) durante e para reflectir depois.

5 comentários:

  1. Penso que tem uma "maozinha" de Almodovar...
    Ainda não vi mas não quero perder.
    xx

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    1. É verdade, papoila. Esqueci-me de mencionar que Almodovar foi o produtor do filme. Obrigado por me ter lembrado.

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  2. Fiquei com vontade de ver...

    Bons sonhos, amigo :)

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  3. Se andar no Fonte Nova quando for a Lisboa, este mês, irei tentar vê-lo.

    Beijinhos.

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