terça-feira, 31 de março de 2015

O Destino marca a hora




Conheceu-a numa esplanada, durante a manhã, enquanto absorvia a plenos pulmões os tons verdes do mar  e o cheiro a maresia que lhe traziam à memória praias distantes.
Num momento desviou o olhar e viu-a a mordiscar a esferográfica com que fazia as palavras cruzadas.Sorriu-lhe. Ela retribuiu. Afastou o jornal e deixou escapar um suspiro de contrariedade.
Qual é a dúvida?-perguntou-lhe
Deus egípcio com duas letras. Sei lá! Só conheço a Cleópatra…
RA
O quê?
É o nome do deus egípcio com duas letras, RA. Às vezes também aparece como batráquio.
Não estou a perceber, desculpe...
A Rã é um batráquio. Às vezes também aparece nas palavras cruzadas.
Se tivessem posto aqui batráquio com duas letras eu também sabia. Que mania de se fazerem difíceis…aqueles egípcios também têm cá umas ideias! Só eles é que se lembrariam de adorar uma rã…
Não é bem isso. Deixe lá, depois explico melhor. Está quase na hora do almoço. Toma um aperitivo?
Olhou para o relógio. Aceitou um dry martini. Almoçaram.
No momento em que chegou a mousse de avelã as suas mãos, quiçá impulsionadas pelo crocante, tocaram-se pela primeira vez. A tarde foi-se escoando entre conversas vazias e chamadas de telemóvel que ela sistematicamente rejeitou. Ele estava enfastiado, mas aquele corpo a pedir mão de mexer, inquieto, incitava-o a permanecer ali.
Quando o sol se começou a esconder, mergulhando a piscina do hotel numa penumbra fresca, subiram finalmente ao quarto e os seus corpos convergiram em uníssono, para a plataforma de Afrodite, porque Ra era egípcio e percebia pouco de amor.
Jantaram entre flutes de champagne com framboesa e depois voltaram a amar-se.Pela manhã, antes do pequeno almoço, mergulharam na piscina desfrutando da solidão naquela manhã primaveril, esplendorosa.
Finalmente ele perguntou-lhe o que fazia
- Sou relações públicas numa empresa de cattering
- Devias ser dentista…
Ela riu-se e perguntou. porquê?
- Quando os clientes entrassem no teu consultório, ao sentarem-se na cadeira já iam de boca aberta...
Riram. Amaram-se mais uma vez, antes da hora do check out.
Encontramo-nos amanhã? – perguntou ele ansioso
Amanhã não posso. Tenho de dar apoio a um serviço de catering
E na quarta-feira?
Combinado!- respondeu ela enquanto lhe oferecia os lábios carnudos para um beijo de despedida.

Terça-feira à noite ele foi ao seu bar habitual. Estava no segundo whiskey quando ela entrou. Vinha acompanhada e sorriu-lhe discretamente.Ele perguntou ao barman se a conhecia.
Sim, nos últimos meses veio cá várias vezes. Mas costuma vir antes do jantar, é a primeira vez que a vejo aqui à noite.
Quem é?
Não sei…
Aquele será o marido?
Não! Ela vem sempre com senhores diferentes. Tomam um copo e depois saem de mão dada.
Quando ela saiu sorriu-lhe. Ele retribuiu.No dia seguinte, contrariando as expectativas dele, ela compareceu ao encontro. Quis explicar-se. Ele juntou o anelar e o médio e colou-os aos seus lábios, reclamando silêncio. Amaram-se como se não tivesse havido véspera.Adormeceram exaustos.
Quando ele acordou, ela não estava. Em cima da mesa de cabeceira encontrou um bilhete:
Sou incapaz de resistir aos homens que me agradam. Parece-me que não somos muito diferentes. Tu também não resististe a uma mulher que te agradou e deves ter pensado nisso quando me levaste para a cama. Sou só mais uma na tua vida, porque não posso ter o direito de que tu tenhas sido também apenas um homem mais na minha? Pensava que eras diferente, mas afinal és igual aos outros. Gostei de te conhecer e de foder contigo. Até qualquer dia.Beijos A.”
Quando acabou de ler, sentiu um murro no estômago. Levantou-se e foi urinar. Ao fim do dia telefonou-lhe, mas ela não atendeu. Voltou a tentar no dia seguinte ao final da manhã. Ficou sem resposta. No terceiro dia foi à esplanada onde a encontrara, mas dela nem sinal. Durante três dias passou os finais de tarde e noite no bar. Ela não apareceu. Ele desistiu.
Uma semana depois o telemóvel tocou. Era ela. Hesitou, mas por fim atendeu. Foram jantar nesse dia. E nos dias seguintes. Ao fim de sete meses casaram. Na véspera do casamento ela confessou-lhe que nunca trabalhara numa empresa de cattering. Era acompanhante de luxo que punha anúncios nos jornais à procura de homens que a satisfizessem. Nunca fora para a cama contrariada, porque antes de dar esse passo estudava os homens que contratavam os seus serviços. Enganara-se algumas vezes. Alguns machos eram impotentes ou ejaculavam tão depressa, que a deixavam frustrada.
Ele ouviu tudo atentamente e deu-lhe um beijo. Sem palavras.
Celebraram ontem 25 anos de casados, na companhia dos dois filhos e de um neto.Convidaram alguns amigos, entre os quais tenho o prazer de me incluir. Ausente, não pude comparecer. Assim que chegue a Lisboa, vou abraçá-los e desejar-lhes mais 25 anos de felicidade.

8 comentários:

  1. Se é estória real, que sejam felizes , sim.

    Para ti, bom resto de dia, amigo

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  2. Se não me engano, o Carlos já publicou aqui esta bela história de amor, bem diferente das que estamos habituados em Portugal, um país onde os homens ainda dominam com as suas ideias machistas.

    Felicidades para essa família feliz.

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  3. Quem disse que não histórias com finais felizes?

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  4. Espero que a história seja real...pois é sinal que a felicidade existe, apesar dos preconceitos.

    Beijinhos.

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  5. ~ E quando os amigos lerem a sua história tão pormenorizada?!
    .

    ~ Acho divertida a estátua: Eros com asas e cara de anjo, mas com uma mão esquerda sapiente...
    ~ Caso para dizer que filho de peixe(a) sabe nadar...

    ~ ~ ~ Dias divertidos e repousantes. ~ ~ ~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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  6. Fantástica história.

    Boa noite, Carlos. :)

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  7. As histórias de amor são lindas!
    Que sejam felizes por muitos mais.

    Beijinho

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