quarta-feira, 11 de março de 2015

Quebrar a rotina



Levantar. Mirar-se ao espelho e ver-se a envelhecer em cada dia. Tomar o pequeno almoço. Tomar banho. Escanhoar-se em cada três dias. Rumar ao metro, depois ao autocarro,somando minutos parado à espera do futuro.
Chegar ao emprego. Picar o ponto. Sair para tomar a bica. Ler as gordas dos jornais. Entrar no gabinete, cumprimentar os colegas, discutir as notícias da véspera. Sair pontualmente ao meio dia e trinta para debicar, em balcões assépticos, ou mesas cobertas de toalhas aos quadradinhos, guarnecidas com guardanapos de papel, a ração diária.
É um autómato manipulado pelo mundo da finança, da indústria, da abastança, mas julga-se livre.
Sai às 5 para ir buscar o filho que começou a ser programado aos cinco anos numa escola fast food. Para mandar ou obedecer, será o futuro a determinar a escolha. Passar pela tabacaria para fazer o totoloto, ou o Euromilhões. Voltar a casa, fazendo planos sobre o que faria se lhe saísse o primeiro prémio.
Ler o jornal esparramado no sofá, enquanto a mulher prepara o jantar e o puto se refugia no quarto para fazer os trabalhos de casa, entremeados com conversas no Facebook.Ver as cartas no correio que anunciam as datas precisas em que deve pagar a água, a luz, o telefone, o gás, a tv cabo,o seguro do automóvel, a prestação da casa,a mensalidade do colégio, as dívidas do cartão de crédito, o seguro da casa.
Ligar a Sport TV para assistir ao jogo do dia. Vibrar com vitórias e amolecer os desgostos das derrotas com doses reforçadas de cerveja.Discutir com a mulher, que quer ver a telenovela da TVI. Rumar à Internet para evitar discussões. Tomar a decisão de comprar mais um televisor a crédito para evitar conflitos conjugais. Falar de férias. De ilusões. De prestações vencidas. Adormecer fazendo contas à vida e esperar pela noite de sábado para fazer amor com a mulher que durante a semana não tem disposição para essas coisas.
Acordar ao toque do despertador, para começar mais um dia de direito à vida. Chegar ao emprego e ouvir o patrão dizer “vou fechar no fim do mês, estão todos despedidos, não consigo enfrentar a crise." 
Voltar a casa e antes de adormecer dizer à mulher “ Estou com insónias. Vou ali fumar um cigarro".

Ela já não o ouviu, porque adormeceu exausta, acumulando o cansaço do trabalho com as lidas da casa.
Vai à cozinha. Pega numa faca. Golpeia os pulsos e sente o cérebro fundir-se num momento de alegria. 
A mulher acorda a meio da noite, sente a falta do aconchego, levanta-se e encontra-o estendido no chão da cozinha. Junto ao corpo inerte está um papel com umas garatujas: “Puta que pariu esta democracia!”
Chama o 112. Quando entra na ambulância, percebe-lhe nos lábios a palavra que há anos não lhe ouvia: "Amo-te" 
Retribui com uma lágrima escondida num sorriso esforçado.
Uma semana depois deixa o filho entregue aos cuidados de uma prima e vai à Igreja para assistir à missa do 7º dia. O celebrante diz que era um homem bom e generoso. Ela regressa a casa reconfortada, mas não convencida.

11 comentários:

  1. Um retrato social...dramático!
    Excelente texto.

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  2. ~ ~''Olha o robot!
    ~ ~ Olha o robot!
    ~ ~ Trabalha muito e gasta pouco,
    ~ ~ Oh - Oh!!

    ~ ~ Pois, os referidos ''robots'' precisam de grandes doses de imaginação para sobreviver!
    ~~~~~~~~~~~~~

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    Respostas
    1. ~ ~ Queria dizer, 'sobreviverem'. ~ ~

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    2. Este comentário não seria para um post da casa mãe, Majo?

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    3. Estava a referir-me a um post com esse título que escrevi neste mesmo dia no CR, Majo :-)
      Beijinho e bom FDS

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    4. ~ Infelizmente, não foi engano, Carlos. Foi apenas um facto muito coincidente,
      ~ Com o tempo limitado que dispunha, acabei por perder a excelente e divertida postagem da «casa-mãe», Fico-lhe muito grata por esta segunda oportunidade.

      ~ Calculo que este comentário não lhe caiu muito bem, no entanto, penso que a minha reacção pretendia quebrar a mensagem algo dramática.
      ~ Na verdade, a narrativa é excelente e muito bem urdida. A conclusão devia ser mais explícita na ilação do carácter fraco do protagonista.

      ~ ~ ~ Com admiração, beijo e abraço muito amigo. ~ ~ ~
      ~~~~~~~~~~~~~~

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  3. Magnífico texto de uma realidade assustadora!

    Beijinhos.

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  4. Excelente texto! Pela forma como nos agarra e nos faz sentir tão próximos destas 'personagens'!
    Uma rotina duplamente quebrada...se fosse eu diria que ela regressou a casa sem se sentir convencida nem reconfortada! Um homem bom e generoso não 'abandona' a família.

    Janita

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  5. Uma situação pior que a do acendedor de lampiões de um dos planetas que “O Principezinho” visitou.

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