quarta-feira, 29 de abril de 2015

Aldeia da Roupa Branca




Mergulho em memórias do Alentejo, guiado pela escrita de José Luís Peixoto. Percorro ruas bordejadas de branco com rebordos amarelos ou azuis.São as cores do Alentejo.
Rumo a norte. Passo pelas aldeias de xisto e ainda mais a norte, onde o granito impõe a sua presença forte e fria,  prendo-me em mesclas de cores pintadas por emigrantes em casas com azulejos e janelas "tipo fenêtre". 
Sento-me num banco de jardim a reflectir sobre as diferentes cores do interior do meu país. Fixo-me na explosão de cores  semeadas no jardim em consagração da Primavera.
 Poucos minutos depois, vejo aproximarem-se três vultos de mulher. Caminham na direcção da Igreja, ao ritmo das badaladas que chamam para a oração da tarde. Estão todas vestidas de preto.  É o luto carregado e sempiterno do interior do meu pais. Pela morte do marido, do filho que morreu em África, do namorado que morreu num acidente de motorizada,  do cunhado que foi morto numa rixa pela posse de terras, do vizinho que morreu sabe-se lá de quê, do outro que morreu de bêbado, do padre que morreu cansado de dar absolvições, ou do filho que partiu para longe, em busca de melhores condições de vida e não mais voltou. 
O interior do  meu país é da cor do luto. É essa a cor que nos une.
Mesmo quando há roupa branca pendurada nas janelas, ou a ser cuidada por lavadeiras, o interior do meu país é da cor do luto.
A Aldeia da Roupa Branca não passa de  uma construção, mas um dia o interior do meu país vai despertar. Vai descer da janela, sair à rua e voltar a vestir-se de branco e cores alegres,  por um cravo ao peito  e celebrar a Liberdade.  

6 comentários:

  1. Um texto fantástico , mas não passa de uma utopia.

    O nosso país continuará a ser da cor do luto.

    Beijinhos.

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  2. ~~ Paredes de pedra escura nua ou alvas - outrora de cal - é uma tradição
    que não nada a ver com interioridade ou tristeza...
    ~~ O branco é a cor dos montes alentejanos, por mais isolados que sejam.
    ~~~~~ Abraço amigo. ~~~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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  3. Um texto muito profundo!
    o luto pelas varias razões, mas sempre dorido.

    Que possamos celebrar a Liberdade.

    O meu amigo não esteve presente no encontro, mas não foi esquecido, fiz questão e brindei ao Carlos, ao Pedro Coimbra e à Catarina.

    Beijinho Carlos

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  4. Não vejo a hora!!!

    Texto muito bonito.

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  5. O interior do País está a definhar, Carlos.
    Só os autarcas, o poder local, procuram alterar esse drama, combater esse flagelo.

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