domingo, 19 de abril de 2015

Livro da Semana


Já aqui escrevi sobre  "Submissão", o livro de Michel Houellebecq lançado em França no dia do ataque ao Charlie Hebdo.
Lançado em Portugal no final de Março, aproveitei a última segunda feira da Bertrand para o comprar. E já o li. Nem sequer foi para a fila de espera...
Devo dizer que não me desiludiu. Bem pelo contrário. 
Em  Janeiro, tinha lido que se tratava de um romance visionário. Só parcialmente acompanho essa interpretação. A especulação resume-se à eleição de um presidente muçulmano em França, no ano 2022.
Tudo o resto é um retrato fiel da sociedade actual. O  triunfo do  individualismo e do niilismo já invocado nos livros de Gilles Lipovetsky; a descaracterização das relações sociais, dominadas pela era do ecrã; o desenraizamento dos jovens; a busca de sucesso imediato construído em reality shows; o desinteresse total pela reflexão, pela discussão de ideias e ideais; a ausência, nas sociedades ocidentais, dos valores  com que  se constrói a civitas e em torno dos quais se cimentam as culturas e as religiões; o triunfo do efémero. 
Houellebecq disserta sobre tudo isto neste romance, mas resiste à tentação de enveredar por juízos valorativos, ou impor ao leitor conclusões definitivas. Pelo contrário, convida o leitor a reflectir sobre elas e a interrogar-se se o modelo das sociedades ocidentais, dominado pela febre consumista que nos está a conduzir ao tédio,ao conformismo e ao desinteresse,  não será o responsável pela atracção que o Islão exerce sobre os jovens.
Já tinha lido que Hoellebecq era islamofóbico e procurava neste romance fazer passar essa mensagem. Nada de mais errado! 
 Submissão é um romance que não se limita a contar uma história. Obriga-nos a reflectir, interrogar e acordar. Por tudo isso  li com prazer redobrado esta prosa de excelência.

4 comentários:

  1. Deve ser interessante. Não o li e pelo andar da carruagem não o lerei.

    Beijinhos.

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  2. Embora não seja o meu género de leitura, só esta breve opinião fez-me recordar uma notícia em que os especialistas chegavam à conclusão de que o facto dos jovens quererem ir para a guerra do Islão prende-se com o tédio e a vontade de aventura. O que, no mínimo, é estranhíssimo...

    Beijocas

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  3. Houellebecq é um homem caricato, porém é um autor genial.
    A sua prosa faz-me lembrar a prosa de Voltaire.

    Estive quase para comprar esse livro no Porto, mas não o comprei, porque tenho a tradução alemã.

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